Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
O Grande Urinador
O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
999
Pablo Neruda
Paródia do Guerreiro
E que fazem lá embaixo?
Parece que andam todos ocupados
fervendo em seus negócios.
La embaixo, lá embaixo
lá longe,
andam talvez estrepitosamente
daqui não se vê muito,
não lhes vejo as bocas,
não lhes vejo
detalhes, sorrisos
ou sapatos derrotados.
Mas, por que não vêm?
Onde vão se meter?
Aqui estou, aqui estou,
sou o campeão mental de esqui, de boxe,
de corrida de fundo,
de asas negras,
sou o verdugo,
sou o sacerdote,
sou o maior general das batalhas,
não me deixem,
não, por nenhum motivo,
não se vão,
aqui tenho um relógio,
tenho uma bala,
tenho um projeto de guerrilha bancária,
sou capaz de tudo,
sou pai de todos vocês,
filhos malditos,
que acontece,
me esqueceram?
Daqui de cima eu os vejo:
que lentos são sem meus pés,
sem meus conselhos,
como mal se movem no pavimento,
não sabem nada do sol,
não conhecem a pólvora,
têm que aprender a ser crianças,
a comer, a invadir,
a subir as montanhas,
a organizar os cadernos,
a matar as pulgas,
a decifrar o território,
a descobrir as ilhas.
Tudo se acabou.
Foram por suas ruas para suas guerras,
suas indiferenças, suas camas.
Eu permaneci agarrado
entre os dentes da solidão
como um pedaço de carne mascada
como o osso anterior
de um animal extinto.
Não há direito! Reclamo
meu endereço zonal, minhas oficinas,
o posto que atingi no regimento,
no campo dos peloteiros,
e não me resigno à sombra.
Tenho sede, apetite da luz,
e só trago sombra.
Parece que andam todos ocupados
fervendo em seus negócios.
La embaixo, lá embaixo
lá longe,
andam talvez estrepitosamente
daqui não se vê muito,
não lhes vejo as bocas,
não lhes vejo
detalhes, sorrisos
ou sapatos derrotados.
Mas, por que não vêm?
Onde vão se meter?
Aqui estou, aqui estou,
sou o campeão mental de esqui, de boxe,
de corrida de fundo,
de asas negras,
sou o verdugo,
sou o sacerdote,
sou o maior general das batalhas,
não me deixem,
não, por nenhum motivo,
não se vão,
aqui tenho um relógio,
tenho uma bala,
tenho um projeto de guerrilha bancária,
sou capaz de tudo,
sou pai de todos vocês,
filhos malditos,
que acontece,
me esqueceram?
Daqui de cima eu os vejo:
que lentos são sem meus pés,
sem meus conselhos,
como mal se movem no pavimento,
não sabem nada do sol,
não conhecem a pólvora,
têm que aprender a ser crianças,
a comer, a invadir,
a subir as montanhas,
a organizar os cadernos,
a matar as pulgas,
a decifrar o território,
a descobrir as ilhas.
Tudo se acabou.
Foram por suas ruas para suas guerras,
suas indiferenças, suas camas.
Eu permaneci agarrado
entre os dentes da solidão
como um pedaço de carne mascada
como o osso anterior
de um animal extinto.
Não há direito! Reclamo
meu endereço zonal, minhas oficinas,
o posto que atingi no regimento,
no campo dos peloteiros,
e não me resigno à sombra.
Tenho sede, apetite da luz,
e só trago sombra.
1 165
Pablo Neruda
Outro Castelo
Não sou, não sou o ígneo,
sou feito de roupa, reumatismo,
papéis rasgados, encontros esquecidos,
pobres signos rupestres
no que foram pedras orgulhosas.
No que ficou o castelo da chuva,
a adolescência com seus tristes sonhos
e aquele propósito entreaberto
de ave estendida, de águia no céu,
de fogo heráldico?
Não sou, não sou o raio
de fogo azul, cravado como lança
em qualquer coração sem amargura.
A vida não é a ponta de um punhal,
não é um golpe de estrela,
mas um gastar-se dentro de um vestuário,
um sapato mil vezes repetido,
uma medalha que se vai oxidando
dentro de uma caixa escura, escura.
Não peço nova rosa nem dores,
nem indiferença é o que me consome,
mas cada signo que se escreveu,
o sal e o vento borram a escrita
e a alma agora é um tambor calado
à margem de um rio, daquele rio
que estava ali e ali continuará sendo.
sou feito de roupa, reumatismo,
papéis rasgados, encontros esquecidos,
pobres signos rupestres
no que foram pedras orgulhosas.
No que ficou o castelo da chuva,
a adolescência com seus tristes sonhos
e aquele propósito entreaberto
de ave estendida, de águia no céu,
de fogo heráldico?
Não sou, não sou o raio
de fogo azul, cravado como lança
em qualquer coração sem amargura.
A vida não é a ponta de um punhal,
não é um golpe de estrela,
mas um gastar-se dentro de um vestuário,
um sapato mil vezes repetido,
uma medalha que se vai oxidando
dentro de uma caixa escura, escura.
Não peço nova rosa nem dores,
nem indiferença é o que me consome,
mas cada signo que se escreveu,
o sal e o vento borram a escrita
e a alma agora é um tambor calado
à margem de um rio, daquele rio
que estava ali e ali continuará sendo.
1 202
Pablo Neruda
I - As Máscaras
Piedade para estes séculos e seus sobreviventes
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
660
Pablo Neruda
XX - A ilha
De outro lugares (Ceilão, Orenoco, Valdívia)
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
1 113
Pablo Neruda
Hoje Quantas Horas
Hoje quantas horas vão caindo
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
1 070
Pablo Neruda
Hoje Quantas Horas
Hoje quantas horas vão caindo
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
a cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.
1 070
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
669
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLIII
Um sinal teu busco em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.
De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.
Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.
De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.
Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.
1 032
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLIII
Um sinal teu busco em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.
De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.
Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.
De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.
Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.
1 032
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
1 138
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
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Pablo Neruda
Manhã - XXXI
Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
1 231
Pablo Neruda
Manhã - XXXI
Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
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Pablo Neruda
Tarde - LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
1 157
Pablo Neruda
Tarde - LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
1 157
Pablo Neruda
Tarde - LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
1 157
Pablo Neruda
XII
Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?
Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?
Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?
Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
com infinitos dentes brancos?
Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?
Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?
Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
1 129
Pablo Neruda
Eu Me Chamava Reyes
Eu me chamava Reyes, Catrileo,
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
1 149
Pablo Neruda
Noite - LXXXII
Amor meu, ao fechar esta porta noturna
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.
Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!
Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.
Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.
Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!
Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.
Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.
1 289
Pablo Neruda
A Viagem
Lavrei na face de um rápido estio a cruz transparente
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
807
Pablo Neruda
A Viagem
Lavrei na face de um rápido estio a cruz transparente
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
807
Pablo Neruda
A Viagem
Lavrei na face de um rápido estio a cruz transparente
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
de um floco de neve, foi uma viagem para a desmesura:
os atos humanos fizeram as coisas mais altas do orbe
e ali com o frio de meu território e o mar retilíneo
cheguei, sem saber, nem poder, nem cantar, porque pesa o racimo da multidão.
Se diz ou disseram ou disse eu que o bardo barbudo e arbóreo
de Brooklin ou Camden, o ferido da secessão divisória,
vivia talvez em mim mesmo estendendo raízes ou espadas ou trigo
ou ferruginosas palavras envolvidas em cal e formosura:
talvez, disse, eu, sem orgulho, porque se determina vivendo
que de uma maneira chuvosa ou metálica a sabedoria
dispôs seguir existindo ou morrendo entre as criaturas terrestres
e porque não és tu, não sou eu quem recebe o encargo escondido
e sem ver nem saber continua crescendo muito mais,
muito mais que tua vida ou minha vida.
807
Pablo Neruda
Amor
Oh amor, oh vitória de tua cabeleira agregando a minha vida
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
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