Poemas neste tema
Outros
Adélia Prado
A Rua da Vida Feliz
Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.
1 653
Adélia Prado
História de Jó
Porque fazes
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
1 348
Adélia Prado
Nossa Senhora da Conceição
Tenho dez anos
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
1 834
Adélia Prado
Nossa Senhora da Conceição
Tenho dez anos
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
1 834
Adélia Prado
A Morte de D. Palma Outeiros Consolata
Ficou severo na morte o pobre corpo,
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
1 228
Adélia Prado
Justiça
Nos tinha à roda
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
1 289
Adélia Prado
Oficina
Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
1 193
Adélia Prado
Oficina
Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
1 193
Adélia Prado
A Cicatriz
Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
1 597
Adélia Prado
A Cicatriz
Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
1 597
Adélia Prado
Salve Rainha
A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
1 258
Adélia Prado
A Boa Morte
Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
1 218
Adélia Prado
Em Português
Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
1 253
Adélia Prado
Carta
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
1 358
Adélia Prado
Prodígios
Hoje quase tive um êxtase
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
1 297
Adélia Prado
As Palavras E Os Nomes
Me atordoam da mesma forma os místicos
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo pra salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
‘Escrever para mim é uma religião.’
Os escritores são insuportáveis,
menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
‘Oráculo do Senhor.’
Eu fico paralisada
porque desejo a posse deste fogo
e a roupa de talhe certo,
com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer ‘cantar d’amigo’.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh’alma arrulham pombos,
tem beirais, tem manhãzinhas,
costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel, Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália,
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, a criada de dama nobre,
a dama de companhia,
a que tem por ofício
anotar no papel a vida
e espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas pra saber de onde vêm.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo pra salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
‘Escrever para mim é uma religião.’
Os escritores são insuportáveis,
menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
‘Oráculo do Senhor.’
Eu fico paralisada
porque desejo a posse deste fogo
e a roupa de talhe certo,
com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer ‘cantar d’amigo’.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh’alma arrulham pombos,
tem beirais, tem manhãzinhas,
costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel, Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália,
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, a criada de dama nobre,
a dama de companhia,
a que tem por ofício
anotar no papel a vida
e espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas pra saber de onde vêm.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?
956
Adélia Prado
As Palavras E Os Nomes
Me atordoam da mesma forma os místicos
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo pra salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
‘Escrever para mim é uma religião.’
Os escritores são insuportáveis,
menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
‘Oráculo do Senhor.’
Eu fico paralisada
porque desejo a posse deste fogo
e a roupa de talhe certo,
com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer ‘cantar d’amigo’.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh’alma arrulham pombos,
tem beirais, tem manhãzinhas,
costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel, Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália,
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, a criada de dama nobre,
a dama de companhia,
a que tem por ofício
anotar no papel a vida
e espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas pra saber de onde vêm.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?
e as lojas de roupa com seus preços.
O dente apodrece
sem que eu levante um dedo pra salvá-lo,
já que escolhi o medo como meu deus e senhor.
Tem pó demais na prateleira dos livros
e livros em demasia
e cartas cheias de si me atravancando o caminho:
‘Escrever para mim é uma religião.’
Os escritores são insuportáveis,
menos os sagrados,
os que terminam assim as suas falas:
‘Oráculo do Senhor.’
Eu fico paralisada
porque desejo a posse deste fogo
e a roupa de talhe certo,
com tecidos de além-mar.
Ai, nunca vou fazer ‘cantar d’amigo’.
No entanto, como se eu fora galega,
na minh’alma arrulham pombos,
tem beirais, tem manhãzinhas,
costureirinhas, pardais.
Meu nome agora é nenhum,
diverso dos muitos nomes
que se incrustaram no meu,
Délia, Adel, Élia e Lia
e para desgraça minha
ainda Leda, Lea, Dália,
Eda, Ieda e ainda Aia.
O melhor!
Aia, a criada de dama nobre,
a dama de companhia,
a que tem por ofício
anotar no papel a vida
e espiar pela fresta
a ama gozando com o rei.
Borboleta, esta grafia,
este som é um erro
e os erros me interessam,
sacrifico as aranhas pra saber de onde vêm.
A natureza obedece e é feliz,
a natureza só faz sua própria vontade,
não esborda de Deus.
Mas eu o que sou?
956
Adélia Prado
Adoração Noturna
É como um olhar,
como um olhar imóvel.
Beijam-me quando assim me tomas,
admirados
de que não repila a comiseração:
‘Não é a que tem desejos e sandálias?’
Vossos pés me ocupam, vossos dedos
cuja perfeição esgota a eternidade.
Quem mais adora quando me arrebatas?
Meus sapatos são os vossos,
de ouro,
iguais são nossos joelhos,
as rótulas sobre as quais
— eu, ou vós? — descansamos as mãos.
Necessária como Deus,
coberta de meus pecados resplandeço.
como um olhar imóvel.
Beijam-me quando assim me tomas,
admirados
de que não repila a comiseração:
‘Não é a que tem desejos e sandálias?’
Vossos pés me ocupam, vossos dedos
cuja perfeição esgota a eternidade.
Quem mais adora quando me arrebatas?
Meus sapatos são os vossos,
de ouro,
iguais são nossos joelhos,
as rótulas sobre as quais
— eu, ou vós? — descansamos as mãos.
Necessária como Deus,
coberta de meus pecados resplandeço.
1 181
Adélia Prado
Pastoral
Quando, por demasiada,
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
1 284
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 265
Adélia Prado
O Destino do Alvissareiro
O poeta sofre o ridículo
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor das multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim, amém,
cruz sobre terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta grande dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor das multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim, amém,
cruz sobre terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta grande dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.
1 197
Adélia Prado
Raiva de Jonathan
Fui te procurar na rua,
meti a cabeça no poste,
sangrou, solucei, dormi,
sonhei com astros movendo-se
e formas vegetais humanizadas.
O corpo é pagão e assim deve ficar
para que lembre Deus constantemente
Seu dever de salvar-nos.
Me desgosta este harpejo de líquidos
no seu abdômen branco,
homem mortal e cruel.
Sai pra lá, cachorrinha imbecil,
vai passar fome hoje,
o osso é meu.
As más companhias te perdem, meu amor,
e exaurem teu poder de construir bons versos.
Você se distrai, me esquece,
dá entrevistas pernósticas.
Um ovo de duas gemas
ao mais frio dos homens há de comover,
não a mim, não hoje,
que não quero saber da barra grega.
Desenho mal, é verdade,
mas precisava irmã Guida
exibir-se às minhas custas?
Se Brígida me provocar
vou lhe dizer assim como um doutor:
o mal que você faz é inconsciente, Brígida.
Só isto vai humilhá-la tanto quanto desejo,
limpar a gosma destes versos horrendos:
‘rubor, febre, pudicícia,
minha honra feminina em convulsão,
percutindo em meu peito, ultrassônica,
a retornada, cíclica paixão’.
Sai, travesti poético. Arre! Credo!
Mas, como ia dizendo,
vem, Jonathan,
qualquer hora é hora,
o que vale é ser feliz,
mais vale um pássaro na mão,
vem, ó galante, do que dois avoando,
imploro-te,
mas vem logo, desgraçado,
senão eu te furo
e não tou nem aí.
Vestida de noiva,
vais me achar discursando
com um repolho na mão:
Querida massa, excelentíssima massa...
vais ficar tão bonito no caixão!
Só uma coisinha à toa me detém:
se cometer o crime,
como será depois,
quando me deparar com o desmazelo,
sua desgraciosa, humílima, utilíssima forma?
E a quem servirá a palavra de Isaías
que escreveu para mim o seu oráculo?
“Deem força aos joelhos vacilantes,
o coxo saltará como um cabrito.”
Hein, Jonathan? Responde.
meti a cabeça no poste,
sangrou, solucei, dormi,
sonhei com astros movendo-se
e formas vegetais humanizadas.
O corpo é pagão e assim deve ficar
para que lembre Deus constantemente
Seu dever de salvar-nos.
Me desgosta este harpejo de líquidos
no seu abdômen branco,
homem mortal e cruel.
Sai pra lá, cachorrinha imbecil,
vai passar fome hoje,
o osso é meu.
As más companhias te perdem, meu amor,
e exaurem teu poder de construir bons versos.
Você se distrai, me esquece,
dá entrevistas pernósticas.
Um ovo de duas gemas
ao mais frio dos homens há de comover,
não a mim, não hoje,
que não quero saber da barra grega.
Desenho mal, é verdade,
mas precisava irmã Guida
exibir-se às minhas custas?
Se Brígida me provocar
vou lhe dizer assim como um doutor:
o mal que você faz é inconsciente, Brígida.
Só isto vai humilhá-la tanto quanto desejo,
limpar a gosma destes versos horrendos:
‘rubor, febre, pudicícia,
minha honra feminina em convulsão,
percutindo em meu peito, ultrassônica,
a retornada, cíclica paixão’.
Sai, travesti poético. Arre! Credo!
Mas, como ia dizendo,
vem, Jonathan,
qualquer hora é hora,
o que vale é ser feliz,
mais vale um pássaro na mão,
vem, ó galante, do que dois avoando,
imploro-te,
mas vem logo, desgraçado,
senão eu te furo
e não tou nem aí.
Vestida de noiva,
vais me achar discursando
com um repolho na mão:
Querida massa, excelentíssima massa...
vais ficar tão bonito no caixão!
Só uma coisinha à toa me detém:
se cometer o crime,
como será depois,
quando me deparar com o desmazelo,
sua desgraciosa, humílima, utilíssima forma?
E a quem servirá a palavra de Isaías
que escreveu para mim o seu oráculo?
“Deem força aos joelhos vacilantes,
o coxo saltará como um cabrito.”
Hein, Jonathan? Responde.
2 359
Adélia Prado
A Santa Ceia
Começou dizendo: o amor...
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
1 364
Adélia Prado
O Sacrifício
Não tem mar, nem transtorno político,
nem desgraça ecológica
que me afastem de Jonathan.
Vinte invernos não bastaram
pra esmaecer sua imagem.
Manhã, noite, meio-dia,
como um diamante,
meu amor se perfaz, indestrutível.
Eu suspiro por ele.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso.
Dias há em que meu desejo é vingar-me,
proferir impropérios: maldito, maldito.
Mas é a mim que maldigo,
pois vive dentro de mim
e talvez seja Deus fazendo pantomimas.
Quero ver Jonathan
e com o mesmo forte desejo
quero adorar, prostrar-me,
cantar com alta voz Panis Angelicus.
Desde a juventude canto.
Desde a juventude desejo e desejo
a presença que para sempre me cale.
As outras meninas bailavam,
eu estacava querendo
e só de querer vivi.
Licor de romãs,
sangue invisível pulsando na presença Santíssima.
Eu canto muito alto:
Jonathan é Jesus.
nem desgraça ecológica
que me afastem de Jonathan.
Vinte invernos não bastaram
pra esmaecer sua imagem.
Manhã, noite, meio-dia,
como um diamante,
meu amor se perfaz, indestrutível.
Eu suspiro por ele.
Casar, ter filhos,
foi tudo só um disfarce, recreio,
um modo humano de me dar repouso.
Dias há em que meu desejo é vingar-me,
proferir impropérios: maldito, maldito.
Mas é a mim que maldigo,
pois vive dentro de mim
e talvez seja Deus fazendo pantomimas.
Quero ver Jonathan
e com o mesmo forte desejo
quero adorar, prostrar-me,
cantar com alta voz Panis Angelicus.
Desde a juventude canto.
Desde a juventude desejo e desejo
a presença que para sempre me cale.
As outras meninas bailavam,
eu estacava querendo
e só de querer vivi.
Licor de romãs,
sangue invisível pulsando na presença Santíssima.
Eu canto muito alto:
Jonathan é Jesus.
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