Poemas neste tema
Outros
Carlos Drummond de Andrade
Aqui E Ali
Coroamento
Aleijadinho, simples mito?
Nunca existiu? Tanto melhor.
Shakespeare, também, e é infinito.
Homero é o tal. Fica maior.
Em preto e branco
“O padre e a moça” no cinema.
Emoção funda quem não há de
sentir ante este filme-poema?
Salve, Joaquim Pedro de Andrade!
O subversivo
Grande bossa, em Minas Gerais:
raspa-se a barba a Tiradentes.
(Com suas faces naturais,
não mete medo aos dirigentes.)
Com sede ao pote
General Silva afobou-se,
corre à frente de Mamede.
E se ele encontrar no doce
pimentinha posta adrede?*
07/01/1966
* Milagre: não havia pimenta.
Aleijadinho, simples mito?
Nunca existiu? Tanto melhor.
Shakespeare, também, e é infinito.
Homero é o tal. Fica maior.
Em preto e branco
“O padre e a moça” no cinema.
Emoção funda quem não há de
sentir ante este filme-poema?
Salve, Joaquim Pedro de Andrade!
O subversivo
Grande bossa, em Minas Gerais:
raspa-se a barba a Tiradentes.
(Com suas faces naturais,
não mete medo aos dirigentes.)
Com sede ao pote
General Silva afobou-se,
corre à frente de Mamede.
E se ele encontrar no doce
pimentinha posta adrede?*
07/01/1966
* Milagre: não havia pimenta.
1 127
Carlos Drummond de Andrade
Aos Atletas
Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 982
Carlos Drummond de Andrade
Aos Atletas
Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 982
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
700
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
700
Adélia Prado
A Invenção de Um Modo
Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
1 316
Adélia Prado
A Invenção de Um Modo
Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
1 316
Carlos Drummond de Andrade
Boato da Primavera
Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera! Então eu topo,
e no verso e na prosa eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu são Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço, e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Méier e na rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom, neste setembro),
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
É prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.
24/09/1969
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera! Então eu topo,
e no verso e na prosa eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu são Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço, e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Méier e na rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom, neste setembro),
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
É prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.
24/09/1969
899
Carlos Drummond de Andrade
Carrancas do Rio São Francisco
As carrancas do rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
2 189
Adélia Prado
Louvação Para Uma Cor
O amarelo faz decorrer de si os mamões e sua polpa,
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
2 320
Adélia Prado
Louvação Para Uma Cor
O amarelo faz decorrer de si os mamões e sua polpa,
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
2 320
Adélia Prado
Louvação Para Uma Cor
O amarelo faz decorrer de si os mamões e sua polpa,
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
2 320
Adélia Prado
Ovos da Páscoa
O ovo não cabe em si, túrgido de promessa,
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
1 625
Carlos Drummond de Andrade
Cariocas
Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 319
Carlos Drummond de Andrade
Cariocas
Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 319
Carlos Drummond de Andrade
Um Chamado João
João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
961
Carlos Drummond de Andrade
Um Chamado João
João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
961
Carlos Drummond de Andrade
Um Chamado João
João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
961
Carlos Drummond de Andrade
Poeta Emílio
Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 182
Carlos Drummond de Andrade
Poeta Emílio
Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 182
Carlos Drummond de Andrade
O Novo Homem
O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
1 273
Carlos Drummond de Andrade
Crônica de Janeiro
Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
938
Adélia Prado
Círculo
Na sala de janta da pensão
tinha um jogo de taças roxo-claro,
duas licoreiras grandes e elas em volta,
como duas galinhas com os pintinhos.
Tinha poeira, fumaça e a cor lilás.
Comíamos com fome, era 12 de outubro
e a Rádio Aparecida conclamava os fiéis
a louvar a Mãe de Deus, o que eu fazia
na cidade de Perdões, que não era bonita.
Plausível tudo.
As horas cabendo o dia,
a cristaleira os cristais
— resíduo pra esta memória —
sem uma palavra demais.
Foi quando disse e entendi:
cabe no tacho a colher.
Se um dia puder,
nem escrevo um livro.
tinha um jogo de taças roxo-claro,
duas licoreiras grandes e elas em volta,
como duas galinhas com os pintinhos.
Tinha poeira, fumaça e a cor lilás.
Comíamos com fome, era 12 de outubro
e a Rádio Aparecida conclamava os fiéis
a louvar a Mãe de Deus, o que eu fazia
na cidade de Perdões, que não era bonita.
Plausível tudo.
As horas cabendo o dia,
a cristaleira os cristais
— resíduo pra esta memória —
sem uma palavra demais.
Foi quando disse e entendi:
cabe no tacho a colher.
Se um dia puder,
nem escrevo um livro.
1 158
Carlos Drummond de Andrade
A. B. C. Manuelino
Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 010