Poemas neste tema
Outros
Carlos Drummond de Andrade
A. B. C. Manuelino
Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 010
Carlos Drummond de Andrade
A. B. C. Manuelino
Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
Festivo repique o sino
em honra deste menino.
Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.
Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.
De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.
Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.
Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.
Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.
Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.
Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.
Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.
K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.
Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.
Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.
Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.
O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.
Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.
Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.
Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime
sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,
tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.
Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.
Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?
Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.
Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,
zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 010
Carlos Drummond de Andrade
Os Pacifistas
Na Cinelândia, pela tarde,
em bancos vulgares e amigos,
sentam-se homens malvestidos.
Não mostram pressa de voltar
para casa ou para o trabalho.
Sentam-se em honra de uma vida
que vige dentro de suas vidas
corriqueiras, pardas e tristes,
e lá ficam a ver as pombas
em torno à estátua de Floriano
catando milho distribuído
por um deus amigo das aves,
o deus que no baixar à terra
preferiu o simples disfarce
de empregado administrativo.
Bicam as pombas, esvoaçam
por entre mármores do Teatro,
do Museu e da Biblioteca,
não que lhes interessem óperas,
livros, telas, artes humanas.
Brincam as pombas: pena, cor,
lampejo entre árvores, tranquilo
ser-existir infenso ao trágico
mundo que se foi modelando
entre gritos, gagos regougos,
lágrimas, cóleras, solércias,
à custa do mundo essencial.
Libertados de todo peso,
deixam-se os homens existir
desprevenidos face às pombas.
Silenciosos e circunspectos,
são talvez os homens melhores
do nosso tempo assim parados.
Não pleiteiam bens ou poderes
mais que o bem e o poder de um banco
alteado no chão de pedrinhas.
Não transportam a guerra n’alma,
não vendem ódio, não tocaiam
nem sofismam quem tem razão
entre sem-razões deste instante.
O voo não viajeiro basta-lhes
para alimento das retinas
e, ao mirar as pombas, remiram
uma harmonia que perdemos.
Na Cinelândia, aves e homens
redescobrem a paz, em vida.
28/10/1962
em bancos vulgares e amigos,
sentam-se homens malvestidos.
Não mostram pressa de voltar
para casa ou para o trabalho.
Sentam-se em honra de uma vida
que vige dentro de suas vidas
corriqueiras, pardas e tristes,
e lá ficam a ver as pombas
em torno à estátua de Floriano
catando milho distribuído
por um deus amigo das aves,
o deus que no baixar à terra
preferiu o simples disfarce
de empregado administrativo.
Bicam as pombas, esvoaçam
por entre mármores do Teatro,
do Museu e da Biblioteca,
não que lhes interessem óperas,
livros, telas, artes humanas.
Brincam as pombas: pena, cor,
lampejo entre árvores, tranquilo
ser-existir infenso ao trágico
mundo que se foi modelando
entre gritos, gagos regougos,
lágrimas, cóleras, solércias,
à custa do mundo essencial.
Libertados de todo peso,
deixam-se os homens existir
desprevenidos face às pombas.
Silenciosos e circunspectos,
são talvez os homens melhores
do nosso tempo assim parados.
Não pleiteiam bens ou poderes
mais que o bem e o poder de um banco
alteado no chão de pedrinhas.
Não transportam a guerra n’alma,
não vendem ódio, não tocaiam
nem sofismam quem tem razão
entre sem-razões deste instante.
O voo não viajeiro basta-lhes
para alimento das retinas
e, ao mirar as pombas, remiram
uma harmonia que perdemos.
Na Cinelândia, aves e homens
redescobrem a paz, em vida.
28/10/1962
1 314
Carlos Drummond de Andrade
A Outra Face
Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 274
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 396
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 396
Carlos Drummond de Andrade
De Ontem, de Hoje
E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
993
Carlos Drummond de Andrade
De Ontem, de Hoje
E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
993
Carlos Drummond de Andrade
De Ontem, de Hoje
E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
993
Carlos Drummond de Andrade
Um, Dois, Três
Escrever é difícil: pena dura,
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
1 052
Carlos Drummond de Andrade
Em Cinza E Em Verde
Êta semana triste! Os cavalinhos,
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
1 011
Carlos Drummond de Andrade
Lira de Jornal
E lá se foi Nehru — a cinza leve
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
1 030
Carlos Drummond de Andrade
Lira de Jornal
E lá se foi Nehru — a cinza leve
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
1 030
Carlos Drummond de Andrade
Em Versiprosa
Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 026
Carlos Drummond de Andrade
Relatório
Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
701
Carlos Drummond de Andrade
Relatório
Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
701
Carlos Drummond de Andrade
Relatório
Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
701
Carlos Drummond de Andrade
Do Voto Ao Verso
A cozinheira quis sair mais cedo
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
1 082
Carlos Drummond de Andrade
Libertação
Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.
Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.
Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.
Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.
O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.
JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.
Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!
Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.
À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas
(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.
Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.
Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.
Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?
Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.
Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.
Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.
Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.
Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.
Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)
Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.
Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.
Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.
Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.
O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.
JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.
Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!
Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.
À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas
(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.
Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.
Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.
Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?
Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.
Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.
Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.
Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.
Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.
Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)
Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
844
Carlos Drummond de Andrade
A Tartaruga
No abismo do terciário
a tartaruga gigante
tem um mínimo de pássaro
que se pusesse a rastejar,
no anel de placa óssea dos olhos,
na ausência pacífica de dentes,
testudo gigas emergindo
de Brejo dos Sonhos,
lá vem trazendo seu recado
de plena paz por entre guerras.
Tão fiel a si mesma, que o retrato
da moça tartaruga do Amazonas
repete o essencial do figurino.
Esta é a elefantina,
por gracioso artifício, que não muda
a linha imemorial,
e esta, sem vaidade, a grega,
e esta outra a mauritânia,
tão suave e lembrada de seus pagos,
que onde quer que a deixem volta sempre
a um apelo de flauta ou de jardim.
O cacto, o líquen seco
nutre as últimas netas dos colossos
vizinhos do Hominídeo
e na solidão dos Galápagos
vai mirrando essa imagem de grandeza,
delicado organismo,
blindada flor que filosofa e pensa
o mundo sem rancor, e nos ensina
que a rude carapaça mais protege
o amor do que o repele.
Lição que nada vale,
pois o que sabe ao paladar corrupto
não é da tartaruga o calmo ser
e florescer à flor da areia ou n’água,
mas a carne fechada
em seu fundo segredo,
a carne monacal
de tanto se vestir de solitude.
E vem a tartaruga de avião
para os ritos da morte em nobre estilo.
Fotografada, anunciada, promovida,
será sopa amanhã, por entre árvores
de velho parque onde quisera
antes viver seu tempo meditado.
Levam-na ao Top Clube para exame
de olhos gulosos,
prévia degustação, de faz de conta.
Uma cidade inteira quer comê-la,
mas poucos a merecem por seu preço.
Comer a tartaruga é ato bento
e pobres já desmorrem com sua morte.
Mas vale, vale a pena
matar para ajudar?
Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo,
leva-se a tartaruga para a Urca
em compasso de espera. O tempo urge,
esta tartaruga vai morrer,
de qualquer jeito matemo-la, que o fim
é nobre, e sua sopa uma delícia.
A tevê entrevista a pobrezinha,
que mantém um silêncio de andorinha.
Lya Cavalcanti, a sempre alerta
em defesa do vivo e sofredor,
ergue a voz comovida: dois partidos
se enfrentam, linha dura
e linha humanitária.
A tartaruga, sem uma ruga
no pétreo manto além do seu riscado
multissecular, tão pomba e mansa
em seu dulçor de frágil fortaleza,
vê chegado o momento da tortura,
mas eis que uma criança,
que com ela brincou e soube ver
a maravilha do ato de existir,
se levanta da relva e pede em pranto
à mãe, na hora fatal:
“Não deixa ela morrer!” — e a tartaruga
é salva, por encanto.
08/11/1964
a tartaruga gigante
tem um mínimo de pássaro
que se pusesse a rastejar,
no anel de placa óssea dos olhos,
na ausência pacífica de dentes,
testudo gigas emergindo
de Brejo dos Sonhos,
lá vem trazendo seu recado
de plena paz por entre guerras.
Tão fiel a si mesma, que o retrato
da moça tartaruga do Amazonas
repete o essencial do figurino.
Esta é a elefantina,
por gracioso artifício, que não muda
a linha imemorial,
e esta, sem vaidade, a grega,
e esta outra a mauritânia,
tão suave e lembrada de seus pagos,
que onde quer que a deixem volta sempre
a um apelo de flauta ou de jardim.
O cacto, o líquen seco
nutre as últimas netas dos colossos
vizinhos do Hominídeo
e na solidão dos Galápagos
vai mirrando essa imagem de grandeza,
delicado organismo,
blindada flor que filosofa e pensa
o mundo sem rancor, e nos ensina
que a rude carapaça mais protege
o amor do que o repele.
Lição que nada vale,
pois o que sabe ao paladar corrupto
não é da tartaruga o calmo ser
e florescer à flor da areia ou n’água,
mas a carne fechada
em seu fundo segredo,
a carne monacal
de tanto se vestir de solitude.
E vem a tartaruga de avião
para os ritos da morte em nobre estilo.
Fotografada, anunciada, promovida,
será sopa amanhã, por entre árvores
de velho parque onde quisera
antes viver seu tempo meditado.
Levam-na ao Top Clube para exame
de olhos gulosos,
prévia degustação, de faz de conta.
Uma cidade inteira quer comê-la,
mas poucos a merecem por seu preço.
Comer a tartaruga é ato bento
e pobres já desmorrem com sua morte.
Mas vale, vale a pena
matar para ajudar?
Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo,
leva-se a tartaruga para a Urca
em compasso de espera. O tempo urge,
esta tartaruga vai morrer,
de qualquer jeito matemo-la, que o fim
é nobre, e sua sopa uma delícia.
A tevê entrevista a pobrezinha,
que mantém um silêncio de andorinha.
Lya Cavalcanti, a sempre alerta
em defesa do vivo e sofredor,
ergue a voz comovida: dois partidos
se enfrentam, linha dura
e linha humanitária.
A tartaruga, sem uma ruga
no pétreo manto além do seu riscado
multissecular, tão pomba e mansa
em seu dulçor de frágil fortaleza,
vê chegado o momento da tortura,
mas eis que uma criança,
que com ela brincou e soube ver
a maravilha do ato de existir,
se levanta da relva e pede em pranto
à mãe, na hora fatal:
“Não deixa ela morrer!” — e a tartaruga
é salva, por encanto.
08/11/1964
1 785
Carlos Drummond de Andrade
Dominicália
Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
862
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 174
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
654
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
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