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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Viajante

Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 198
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 406
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 113
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Jornal Em Verso

Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
506
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
506
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
571
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
571
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
571
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
571
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 066
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epístola

E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
998
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conversa Informal Com o Menino

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?

Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.

E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?

Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.

Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.

Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.

Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.

Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.

Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.

Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.

Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.

Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)

Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.

Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
1 345
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conversa Informal Com o Menino

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?

Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.

E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?

Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.

Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.

Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.

Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.

Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.

Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.

Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.

Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.

Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)

Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.

Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
1 345
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 322
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 322
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 322
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aqui, Ali

Cinco horas. Livraria São José.
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:

O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.

Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
677
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aqui, Ali

Cinco horas. Livraria São José.
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:

O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.

Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
677
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Isto E Aquilo

“Zefa, chegou o inverno”, diz o Poeta.
Chegou mesmo? chegada tão discreta
que pouca gente viu e tomou nota.
Esse frio que aí está não vale um iota.
O tempo, como tudo, anda inseguro,
até parece o Lott, que seu futuro
indaga en effeuillant la marguerite:
“Aceito ou não aceito esse convite
que o Último de Carvalho me apresenta
para a pátria salvar, firme, em 60?
Que dizem os partidos?” (Os partidos
disfarçaram, com seus rabos torcidos.)
E para seduzir o PSD,
o PTB e o P não sei o quê,
redige-se um anúncio longo e exato:
“Quem quer um marechal pra candidato?
Não é muito falante nem grandíloquo,
mas a gente contrata um bom ventríloquo.
Se ele é meio zangado? Ora, com jeito
se leva quem nos quer levar no peito.
E é hora de aprender a regra esconsa:
quem não tem mesmo cão caça com onça”.
Os pobres dos partidos, assustados,
quanto mais inquiridos, mais calados,
e, quanto mais calados, mais partidos
em mil pedaços, mil indecisões
de outras tantas mimosas ambições.
JK, pairando alto, em serenata,
deixa cair, sob o luar de prata,
uma jura de amor, meiga, solene,
por sobre a donzelice da UDN.
A Bahia e o Palácio da Alvorada
namoram-se da noite na calada.
Pra casar ou pra quê? Altos mistérios,
elucidai-os vós, cronistas sérios.
Medita Jango uma reforma agrária
em que, graças à Empresa Funerária,
seja a terra de todos — loteamento
com casinhas de mármore e cimento
em lugares tranquilos, onde grilos
não irrompam munidos de escrituras.
Votantes, ocupai as sepulturas!
E que mais, na semana? Amigo, se
a água te falta, vai a Meriti,
leva tua moringa, fura um cano,
e volta ao Rio, abastecido e ufano.
Eu bebo de outra fonte, linfa eterna,
e curvo-me à Poesia: não governa
o mundo hostil, mas torna a vida cheia
de suave tremor. Fino Correia,
nobre Raimundo, salve: nos teus versos
há mágicos, ocultos universos
de musical melancolia errante…
Penso em ti com ternura, neste instante.
17/05/1959
1 610