Poemas neste tema
Outros
Carlos Drummond de Andrade
A Morte a Cavalo
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.
A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.
A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
2 678
Carlos Drummond de Andrade
Ó Tu, Sublime Puta Encanecida
Ó tu, sublime puta encanecida,
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,
agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.
E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.
Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,
agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.
E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.
Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
1 233
Carlos Drummond de Andrade
Oh Minha Senhora Ó Minha Senhora
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pelos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...
1 480
Carlos Drummond de Andrade
O Boi
Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.
Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.
Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.
Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.
Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
1 498
Carlos Drummond de Andrade
O Boi
Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.
Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.
Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
entre gritos, o ermo profundo.
Ó solidão do boi no campo,
ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
a escuridão rompe com o dia.
Ó solidão do boi no campo,
homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
e as casas não têm sentido algum.
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
1 498
Carlos Drummond de Andrade
Era Bom Alisar Seu Traseiro Marmóreo
Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.
Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor de outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.
Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor de outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.
1 005
Carlos Drummond de Andrade
Nascer de Novo
Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.
A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.
A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
1 369
Carlos Drummond de Andrade
O Que o Bairro Peixoto
O que o Bairro Peixoto
sabe de nós, e esqueceu!
Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares,
nos espiando,
fingem que não?)
O calçadão na penumbra
andança que vai e volta
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.
O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.
5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevenidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis
de alheias dedicatórias
pedacinhos.
Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.
Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.
Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?
Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.
Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?
Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.
sabe de nós, e esqueceu!
Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares,
nos espiando,
fingem que não?)
O calçadão na penumbra
andança que vai e volta
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.
O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.
5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevenidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis
de alheias dedicatórias
pedacinhos.
Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.
Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.
Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?
Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.
Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?
Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.
926
Carlos Drummond de Andrade
Ainda Que Mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
1 256
Carlos Drummond de Andrade
Eterno
E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.
(Le silence eternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternicíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.
(Le silence eternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternicíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.
1 457
Carlos Drummond de Andrade
Moinho
A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.
Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.
Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.
Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.
Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
1 725
Carlos Drummond de Andrade
A Língua Francesa
À margem de LaDéfense et
illustration de la Langue
Française, de Joachim Du Bellay,
e De la Préexcellence du
langage français, de Henri Estienne
A língua francesa
desvenda o que resta
(a fina agudeza)
da noite em floresta.
Mas sem esquecer,
num lance caprídeo,
de ler e tresler
a arte de Ovídio.
illustration de la Langue
Française, de Joachim Du Bellay,
e De la Préexcellence du
langage français, de Henri Estienne
A língua francesa
desvenda o que resta
(a fina agudeza)
da noite em floresta.
Mas sem esquecer,
num lance caprídeo,
de ler e tresler
a arte de Ovídio.
964
Carlos Drummond de Andrade
A Língua Francesa
À margem de LaDéfense et
illustration de la Langue
Française, de Joachim Du Bellay,
e De la Préexcellence du
langage français, de Henri Estienne
A língua francesa
desvenda o que resta
(a fina agudeza)
da noite em floresta.
Mas sem esquecer,
num lance caprídeo,
de ler e tresler
a arte de Ovídio.
illustration de la Langue
Française, de Joachim Du Bellay,
e De la Préexcellence du
langage français, de Henri Estienne
A língua francesa
desvenda o que resta
(a fina agudeza)
da noite em floresta.
Mas sem esquecer,
num lance caprídeo,
de ler e tresler
a arte de Ovídio.
964
Carlos Drummond de Andrade
Canto Órfico
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
1 963
Carlos Drummond de Andrade
Canto Órfico
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
1 963
Carlos Drummond de Andrade
Canto Órfico
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
1 963
Carlos Drummond de Andrade
Canto Órfico
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
1 963
Carlos Drummond de Andrade
Canto Órfico
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar-te. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave, tua ausência
ainda retumba^ em nós, e estremecemos,
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, refine-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trismegista, aberta ao mundo.
1 963
Carlos Drummond de Andrade
Tenho Saudades de Uma Dama
Tenho saudades de uma dama
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.
Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.
No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.
Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.
Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.
No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.
Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.
1 275
Carlos Drummond de Andrade
Quase Elegia
No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
1 247
Carlos Drummond de Andrade
Palavras No Mar
Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os naúfragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
— do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
a palavra Encanto
balança os naúfragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
— do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.
A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.
1 253
Carlos Drummond de Andrade
Adeus, Camisa de Xanto
Pobre camisa, chora...
Eugénio de Castro, “A camisa de Xanto”
Adeus, camisa de Xanto!
Adeus, camisa de Vênus!
O sêmen fluiu. Nem pranto
nem riso. Estamos serenos.
Baixou a noite seu manto
sobre a cansada virilha.
(Sexo e noite formam ilha.)
Adeus, camisa de Vênus,
adeus, camisa de Xanto!
Já gozamos. Já morremos.
E o tempo masca, em seu canto,
a garupa da novilha.
Que graça mais andarilha
tinhas na cama. Eram fenos
roçados num acalanto.
Era a fava da baunilha
que se abria num momento
e que se cerrava: trilha
do demônio ao lugar santo.
Era um desmaio na orilha
da praia de gozo e espanto.
Adeus, camisa de Xanto,
renda de calça, presilha.
Adeus, peiticos morenos,
e o que brilhava e não brilha
no mais úmido recanto.
Adeus, camisa de Vênus,
amargo caucho, pastilha,
que de tudo nem ao menos
(seria tão bom, no entanto)
ficou um filho, uma filha.
Adeus, camisa de Xanto!
Eugénio de Castro, “A camisa de Xanto”
Adeus, camisa de Xanto!
Adeus, camisa de Vênus!
O sêmen fluiu. Nem pranto
nem riso. Estamos serenos.
Baixou a noite seu manto
sobre a cansada virilha.
(Sexo e noite formam ilha.)
Adeus, camisa de Vênus,
adeus, camisa de Xanto!
Já gozamos. Já morremos.
E o tempo masca, em seu canto,
a garupa da novilha.
Que graça mais andarilha
tinhas na cama. Eram fenos
roçados num acalanto.
Era a fava da baunilha
que se abria num momento
e que se cerrava: trilha
do demônio ao lugar santo.
Era um desmaio na orilha
da praia de gozo e espanto.
Adeus, camisa de Xanto,
renda de calça, presilha.
Adeus, peiticos morenos,
e o que brilhava e não brilha
no mais úmido recanto.
Adeus, camisa de Vênus,
amargo caucho, pastilha,
que de tudo nem ao menos
(seria tão bom, no entanto)
ficou um filho, uma filha.
Adeus, camisa de Xanto!
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Carlos Drummond de Andrade
Verão
Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
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Carlos Drummond de Andrade
Noturno Oprimido
A água cai na caixa com uma força,
com uma dor! A casa não dorme, estupefata.
Os móveis continuam prisioneiros
de sua matéria pobre, mas a água parte-se,
a água protesta. Ela molha toda a noite
com sua queixa feroz, seu alarido.
E sobre nossos corpos se avoluma
o lago negro de não sei que infusão.
Mas não é o medo da morte do afogado,
o horror da água batendo nos espelhos,
indo até os cofres, os livros, as gargantas.
É o sentimento de uma coisa selvagem,
sinistra, irreparável, lamentosa.
Oh vamos nos precipitar no rio espesso
que derrubou a última parede
entre os sapatos, as cruzes e os peixes cegos do tempo.
com uma dor! A casa não dorme, estupefata.
Os móveis continuam prisioneiros
de sua matéria pobre, mas a água parte-se,
a água protesta. Ela molha toda a noite
com sua queixa feroz, seu alarido.
E sobre nossos corpos se avoluma
o lago negro de não sei que infusão.
Mas não é o medo da morte do afogado,
o horror da água batendo nos espelhos,
indo até os cofres, os livros, as gargantas.
É o sentimento de uma coisa selvagem,
sinistra, irreparável, lamentosa.
Oh vamos nos precipitar no rio espesso
que derrubou a última parede
entre os sapatos, as cruzes e os peixes cegos do tempo.
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