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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Rostos Imóveis

A Otto Maria Carpeaux

Pai morto, namorada morta.
Tia morta, irmão nascido morto.
Primos mortos, amigo morto.
Avô morto, mãe morta
(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).
Conhecidos mortos, professora morta.

Inimigo morto.

Noiva morta, amigas mortas.
Chefe de trem morto, passageiro morto.
Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho?
Cão morto, passarinho morto.
Roseira morta, laranjeiras mortas.
Ar morto, enseada morta.
Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos.

Homem morto. Luzes acesas.
Trabalha à noite, como se fora vivo.

Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo).

Morto sem notícia, morto secreto.
Sabe imitar fome, e como finge amor.

E como insiste em andar, e como anda bem.
Podia cortar casas, entra pela porta.

Sua mão pálida diz adeus à Rússia.
O tempo nele entra e sai sem conta.

Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los.
Mal um se despede, outro te cutuca.

Acordei e vi a cidade:
eram mortos mecânicos,
eram casas de mortos,
ondas desfalecidas,
peito exausto cheirando a lírios,
pés amarrados.
Dormi e fui à cidade:
toda se queimava,
estalar de bambus,
boca seca, logo crispada.
Sonhei e volto à cidade.
Mas já não era a cidade.
Estavam todos mortos, o corregedor-geral verificava etiquetas nos cadáveres.
O próprio corregedor morrera há anos, mas sua mão continuava implacável.
O mau cheiro zumbia em tudo.

Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos.
Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo, quero detê-la, serei mordido?
Olho meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
Olho tudo e faço a conta, nada sobrou, estou pobre, pobre, pobre,
mas não posso entrar na roda,
não posso ficar sozinho,
a todos beijarei na testa,
flores úmidas esparzirei,
depois... não há depois nem antes.
Frio há por todos os lados,
e um frio central, mais branco ainda.

Mais frio ainda...
Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras e amargos...
Sentir-me tão claro entre vós, beijar-vos e nenhuma poeira em boca ou rosto.
Paz de finas árvores,
de montes fragílimos lá embaixo, de ribeiras tímidas, de gestos que já não podem mais irritar,
doce paz sem olhos, no escuro, no ar.
Doce paz em mim,
em minha família que veio de brumas sem corte de sol
e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas,
na minha rua, no meu tempo — afinal — conciliado,
na minha cidade natal, no meu quarto alugado,
na minha vida, na vida de todos, na suave e profunda morte de mim e de todos.
1 383
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
864
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Balanço de Agosto

Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.

Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.

O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.

Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.

Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.

Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.

Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.

Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.

Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove

sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.

Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?

Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.

E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.

Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
719
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Balanço de Agosto

Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.

Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.

O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.

Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.

Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.

Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.

Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.

Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.

Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove

sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.

Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?

Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.

E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.

Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
719
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 076
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 128
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
707
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
707
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
707