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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rio Em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente para
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignolli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)
Iúca! Iúca, meu amor deste verão,
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.

A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
— Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?).
— Vela de pureza, outra acrescenta.
— Lanceta é que se chama. — Não, baioneta.
— Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants,
que em toda a sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar, para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

22/01/1980
2 648
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rio Em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente para
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignolli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)
Iúca! Iúca, meu amor deste verão,
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.

A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
— Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?).
— Vela de pureza, outra acrescenta.
— Lanceta é que se chama. — Não, baioneta.
— Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants,
que em toda a sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar, para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

22/01/1980
2 648
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
1 298
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Praia Palma Paz

A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.

Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.

Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo

como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?

Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?

Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?

Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.

Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.

E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.

Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.

Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,

já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.

És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?

Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo

civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?

Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira

ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.

Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.

Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!

Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,

melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.

Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!

Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?

Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.

E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,

embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.

Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo

e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.

Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.

28/10/1972
1 284
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Festival Em Verso

Geneviève Waïte
Pálida Joaninha
pálida e loura muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar, mas falta céu em Londres
enevoada.


Arnevic
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.


Brasileira
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?


O nome
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro!
diz num trinado
trêfega trintona.

Liquidação
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.


Tráfego
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.


Velha guarda
Josef von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.


Mercado de filmes
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim,
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.

Genealogia
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?


Desafio
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
nunca jamais demonstrado.

25/o3/1969
873
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana Foi Assim

A semana? Passou que nem corisco,
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.

18/10/1969
1 158
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana Foi Assim

A semana? Passou que nem corisco,
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.

18/10/1969
1 158
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Alceu, Radiante Espelho

Lá se vai Alceu, voltado para o futuro,
para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado,
que para ele tinha a forma de um casarão azul,
e sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
os acordes da Sonata para piano e violino de César Frank,
que ele tanto amava.
Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.

Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
no paraíso de sensualidade das palavras
que substituem coisas e sentimentos,
diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
de uma insondável, solene realidade
de que muitos tentam aproximar-se
com a cegueira de seus pontos de vista
e a avidez da insatisfação.
Alceu chega bem perto do fogo incandescente
e não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
de humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
de que a justiça não continue uma dor e um escândalo
de incrível raridade,
e sim atmosfera do ato de viver
em liberdade e comunhão.

Lá se vai Alceu, gentil presença,
convívio militante entre solidões de ideias
cada vez mais fechadas — e ele aberto
aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
anseio de instituir a paz interior
no regaço da paz exterior:
anseio de homens
desencontrados, tontos, malferidos
no horror da vida escrava do azinhavre
de moedas viciadas no poder da Terra.
Alceu tão frágil no seu grande corpo
que não comanda os rumos da aventura,
mas adverte, ensina, faz o gesto
que anima a prosseguir e a procurar
a mais exata explicação do homem.
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
servo do amor, que é cúmplice de Deus.
1 442
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Alceu, Radiante Espelho

Lá se vai Alceu, voltado para o futuro,
para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado,
que para ele tinha a forma de um casarão azul,
e sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
os acordes da Sonata para piano e violino de César Frank,
que ele tanto amava.
Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.

Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
no paraíso de sensualidade das palavras
que substituem coisas e sentimentos,
diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
de uma insondável, solene realidade
de que muitos tentam aproximar-se
com a cegueira de seus pontos de vista
e a avidez da insatisfação.
Alceu chega bem perto do fogo incandescente
e não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
de humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
de que a justiça não continue uma dor e um escândalo
de incrível raridade,
e sim atmosfera do ato de viver
em liberdade e comunhão.

Lá se vai Alceu, gentil presença,
convívio militante entre solidões de ideias
cada vez mais fechadas — e ele aberto
aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
anseio de instituir a paz interior
no regaço da paz exterior:
anseio de homens
desencontrados, tontos, malferidos
no horror da vida escrava do azinhavre
de moedas viciadas no poder da Terra.
Alceu tão frágil no seu grande corpo
que não comanda os rumos da aventura,
mas adverte, ensina, faz o gesto
que anima a prosseguir e a procurar
a mais exata explicação do homem.
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
servo do amor, que é cúmplice de Deus.
1 442
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Rua São José

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

11/08/1973
1 170
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Carnaval Chegando

A vitória

A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.


Turista

— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?


Tantos anos depois

O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.


Confidência

— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.


Previsão

Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.


Lacuna carioca

Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.


Pronunciamento

— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.

09/02/1974
1 247