Poemas neste tema
Outros
Carlos Drummond de Andrade
Joan Crawford: In Memoriam
No firmamento apagado
não luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia incógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projetadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enquanto se esvazia o céu da Grécia
dentro de nós — azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto,
nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
não luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia incógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projetadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enquanto se esvazia o céu da Grécia
dentro de nós — azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto,
nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
1 272
Carlos Drummond de Andrade
História Natural
Cobras-cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no voo.
O mundo não é o que pensamos.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no voo.
O mundo não é o que pensamos.
2 122
Carlos Drummond de Andrade
A Paisagem No Limite
Este mundo não existente
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
778
Carlos Drummond de Andrade
A Paisagem No Limite
Este mundo não existente
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
778
Carlos Drummond de Andrade
A Paisagem No Limite
Este mundo não existente
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
778
Carlos Drummond de Andrade
Final de História
O quadro de formatura
foi pintado por Borsetti.
Borsetti, falsário exímio,
condenado por malfeitos,
aceita e avia encomendas
de todos os diplomandos
de academias mineiras.
Pintadas por trás de grades,
alegorias libertam-se,
vai Têmis e vai Hipócrates,
vão Mercúrio e saduceu
e vão sentenças latinas
cantando por toda parte
arte e engenho refinados
de montanhesa sapiência.
Meu Deus, formei-me deveras?
Sou eu, de beca alugada,
uma beca só de frente,
para uso fotográfico,
sou eu, ao lado de mestres
Ladeira, Laje, Roberto,
e do ínclito diretor
doutor Washington Pires?
Eu e meus nove colegas
mais essas três coleguinhas,
é tudo verdade? Vou
manipular as poções
que cortam a dor do próximo
e salvam os brasileiros
do canguari e do gálico?
Não posso crer. Interrogo
o medalhão do Amorim:
Companheiro, tu me salvas
do embrulho em que me meti?
Dou-te plenários poderes:
em tuas farmácias Luz
ou Santa Cecília ou Cláudia,
faze tudo que eu devia
fazer e que não farei
por sabida incompetência:
purgas, cápsulas, xaropes,
linimentos e pomadas,
aplica, meu caro, aplica
trezentas mil injeções,
atende, ajuda, consola
sê enfermeiro, sê médico,
sê padre na hora trevosa
da morte do pobre (a roça
exige de ti bem mais
que o nosso curso te ensina).
Vai, Amorim, sê por mim
o que jurei e não cumpro.
Fico apenas na moldura
do quadro de formatura.
foi pintado por Borsetti.
Borsetti, falsário exímio,
condenado por malfeitos,
aceita e avia encomendas
de todos os diplomandos
de academias mineiras.
Pintadas por trás de grades,
alegorias libertam-se,
vai Têmis e vai Hipócrates,
vão Mercúrio e saduceu
e vão sentenças latinas
cantando por toda parte
arte e engenho refinados
de montanhesa sapiência.
Meu Deus, formei-me deveras?
Sou eu, de beca alugada,
uma beca só de frente,
para uso fotográfico,
sou eu, ao lado de mestres
Ladeira, Laje, Roberto,
e do ínclito diretor
doutor Washington Pires?
Eu e meus nove colegas
mais essas três coleguinhas,
é tudo verdade? Vou
manipular as poções
que cortam a dor do próximo
e salvam os brasileiros
do canguari e do gálico?
Não posso crer. Interrogo
o medalhão do Amorim:
Companheiro, tu me salvas
do embrulho em que me meti?
Dou-te plenários poderes:
em tuas farmácias Luz
ou Santa Cecília ou Cláudia,
faze tudo que eu devia
fazer e que não farei
por sabida incompetência:
purgas, cápsulas, xaropes,
linimentos e pomadas,
aplica, meu caro, aplica
trezentas mil injeções,
atende, ajuda, consola
sê enfermeiro, sê médico,
sê padre na hora trevosa
da morte do pobre (a roça
exige de ti bem mais
que o nosso curso te ensina).
Vai, Amorim, sê por mim
o que jurei e não cumpro.
Fico apenas na moldura
do quadro de formatura.
1 649
Carlos Drummond de Andrade
Música Protegida
Santa Cecília, anterior aos sindicatos,
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
1 252
Carlos Drummond de Andrade
Música Protegida
Santa Cecília, anterior aos sindicatos,
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
1 252
Carlos Drummond de Andrade
Parceiro de Bach
A harpa de Rosa Ferraiol
apura ainda mais o Cravo temperadíssimo
em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.
Mas que há com as tercinas?
Não fluem fácil como fio d’água.
Som intempestivo criva a sala.
Há mal-estar, rostos inquietos,
entre os seletos do Municipal.
Não se dá conta Rosa deste agravo
à pureza de Bach, e vai levando
os stretti, as leves colcheias, os alados
acordes melancólicos ou gaios?
A plateia começa a resmungar:
— Assim não! Mas que coisa! Está demais!
Está demais o grilo subversivo
que no teatro cheio põe cricrilos
nos arpejos celestes.
O guarda percorre camarotes,
corredores, lanterninha na mão, à sua caça,
e o ruído da caça se acasala
com Bach e grilo e riso incontrolável
dos melômanos: a Polícia vai prender
o grilo, tem gaiola para isto?
Caro João Sebastião, desculpe: em Minas
até os grilos amam fazer música.
apura ainda mais o Cravo temperadíssimo
em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.
Mas que há com as tercinas?
Não fluem fácil como fio d’água.
Som intempestivo criva a sala.
Há mal-estar, rostos inquietos,
entre os seletos do Municipal.
Não se dá conta Rosa deste agravo
à pureza de Bach, e vai levando
os stretti, as leves colcheias, os alados
acordes melancólicos ou gaios?
A plateia começa a resmungar:
— Assim não! Mas que coisa! Está demais!
Está demais o grilo subversivo
que no teatro cheio põe cricrilos
nos arpejos celestes.
O guarda percorre camarotes,
corredores, lanterninha na mão, à sua caça,
e o ruído da caça se acasala
com Bach e grilo e riso incontrolável
dos melômanos: a Polícia vai prender
o grilo, tem gaiola para isto?
Caro João Sebastião, desculpe: em Minas
até os grilos amam fazer música.
1 021
Carlos Drummond de Andrade
Parceiro de Bach
A harpa de Rosa Ferraiol
apura ainda mais o Cravo temperadíssimo
em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.
Mas que há com as tercinas?
Não fluem fácil como fio d’água.
Som intempestivo criva a sala.
Há mal-estar, rostos inquietos,
entre os seletos do Municipal.
Não se dá conta Rosa deste agravo
à pureza de Bach, e vai levando
os stretti, as leves colcheias, os alados
acordes melancólicos ou gaios?
A plateia começa a resmungar:
— Assim não! Mas que coisa! Está demais!
Está demais o grilo subversivo
que no teatro cheio põe cricrilos
nos arpejos celestes.
O guarda percorre camarotes,
corredores, lanterninha na mão, à sua caça,
e o ruído da caça se acasala
com Bach e grilo e riso incontrolável
dos melômanos: a Polícia vai prender
o grilo, tem gaiola para isto?
Caro João Sebastião, desculpe: em Minas
até os grilos amam fazer música.
apura ainda mais o Cravo temperadíssimo
em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.
Mas que há com as tercinas?
Não fluem fácil como fio d’água.
Som intempestivo criva a sala.
Há mal-estar, rostos inquietos,
entre os seletos do Municipal.
Não se dá conta Rosa deste agravo
à pureza de Bach, e vai levando
os stretti, as leves colcheias, os alados
acordes melancólicos ou gaios?
A plateia começa a resmungar:
— Assim não! Mas que coisa! Está demais!
Está demais o grilo subversivo
que no teatro cheio põe cricrilos
nos arpejos celestes.
O guarda percorre camarotes,
corredores, lanterninha na mão, à sua caça,
e o ruído da caça se acasala
com Bach e grilo e riso incontrolável
dos melômanos: a Polícia vai prender
o grilo, tem gaiola para isto?
Caro João Sebastião, desculpe: em Minas
até os grilos amam fazer música.
1 021
Carlos Drummond de Andrade
Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
774
Carlos Drummond de Andrade
Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
774
Carlos Drummond de Andrade
Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
774
Carlos Drummond de Andrade
Orquestra
Foi o foxtrote que acordou
os peixinhos do lago, na sala de espera,
ou foram eles, os minúsculos, insones peixinhos,
que fizeram acordar Sweet Georgia Brown
entre Body and Soul, para o tea for two,
enquanto não se abrem, rascantes, as portas da segunda sessão?
os peixinhos do lago, na sala de espera,
ou foram eles, os minúsculos, insones peixinhos,
que fizeram acordar Sweet Georgia Brown
entre Body and Soul, para o tea for two,
enquanto não se abrem, rascantes, as portas da segunda sessão?
1 130
Carlos Drummond de Andrade
O Minuto Depois
Nudez, último véu da alma
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois do êxtase.
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois do êxtase.
1 180
Carlos Drummond de Andrade
Vitória
I
Como se eu quisesse
abater com o peito uma torre de ferro.
Como se eu esperasse
entrar dentro de seus olhos e me sorrir.
Como se eu sentisse
por mim o amor que ela não sente
e o fosse ela sentindo, à medida
em que o meu rosto se mostrasse amado.
Seis meses nesta batalha
perdida sem começar.
II
É, este amor não tem jeito.
Meu peito bate na laje.
A laje, não respondendo,
acrescenta meu amor.
É, este amor não tem jeito.
Seis meses enfim completos,
mereço chegar à boca
sorridente-negativa
que retumbalha em meu peito.
Foi naquele corredor.
Naquela tarde. Naquele
minuto sem uma flor
entre painéis burocráticos
de perfeito desamor.
Foi concessão de cansaço?
Prêmio de merecimento?
Sei lá o que foi. O amor
inebriou-se no beijo
que dei nela e que me dei
em sua boca gelada.
Valeu nada. Valeu tudo?
Como se eu quisesse
abater com o peito uma torre de ferro.
Como se eu esperasse
entrar dentro de seus olhos e me sorrir.
Como se eu sentisse
por mim o amor que ela não sente
e o fosse ela sentindo, à medida
em que o meu rosto se mostrasse amado.
Seis meses nesta batalha
perdida sem começar.
II
É, este amor não tem jeito.
Meu peito bate na laje.
A laje, não respondendo,
acrescenta meu amor.
É, este amor não tem jeito.
Seis meses enfim completos,
mereço chegar à boca
sorridente-negativa
que retumbalha em meu peito.
Foi naquele corredor.
Naquela tarde. Naquele
minuto sem uma flor
entre painéis burocráticos
de perfeito desamor.
Foi concessão de cansaço?
Prêmio de merecimento?
Sei lá o que foi. O amor
inebriou-se no beijo
que dei nela e que me dei
em sua boca gelada.
Valeu nada. Valeu tudo?
1 963
Carlos Drummond de Andrade
As Letras Em Jantar
Meu primeiro banquete literário.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
1 052
Carlos Drummond de Andrade
As Letras Em Jantar
Meu primeiro banquete literário.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
1 052
Carlos Drummond de Andrade
O Grande Filme
Vejo Intolerância, de Griffith,
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
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Carlos Drummond de Andrade
O Grande Filme
Vejo Intolerância, de Griffith,
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
1 029
Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Suíça
A baleira da Rua da Bahia
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
1 447
Carlos Drummond de Andrade
A Metafísica do Corpo
A Sonia von Brusky
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
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Carlos Drummond de Andrade
A Metafísica do Corpo
A Sonia von Brusky
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
1 287
Carlos Drummond de Andrade
O Príncipe Dos Poetas
Fazer.
É preciso fazer alguma coisa
que pelo menos risque um círculo
efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas,
João Alphonsus emite
seu sorriso enigmático,
Emílio, recém-chegado de galáxia,
aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser
ser eleitor, principalmente nós,
inelegíveis de nascença.
Pingam votos esparsos. Desconfiança.
Isso é brincadeira
de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos
para Belmiro Braga, o velho Augusto
de Lima e Noraldino e Mário Matos.
Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,
menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números,
mas se for escolhido vão dizer
que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal,
qual será, dos poetas, o mais nobre,
aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isso ou por aquilo.
Outro passou de moda. Outro é feroz
contemptor de experiências modernistas.
E um Príncipe hostil não apetece
à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond
em sua Barbacena roseiral
é altivo, discreto, bom poeta,
dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada
elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento,
sem recusar redondamente a láurea,
responde: “Eu, Príncipe? De quê?
Só se for, por distinção latina,
Princeps Promptorum”… E continua
sereno, silencioso,
em seu rosa-lar de Barbacena.
É preciso fazer alguma coisa
que pelo menos risque um círculo
efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas,
João Alphonsus emite
seu sorriso enigmático,
Emílio, recém-chegado de galáxia,
aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser
ser eleitor, principalmente nós,
inelegíveis de nascença.
Pingam votos esparsos. Desconfiança.
Isso é brincadeira
de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos
para Belmiro Braga, o velho Augusto
de Lima e Noraldino e Mário Matos.
Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,
menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números,
mas se for escolhido vão dizer
que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal,
qual será, dos poetas, o mais nobre,
aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isso ou por aquilo.
Outro passou de moda. Outro é feroz
contemptor de experiências modernistas.
E um Príncipe hostil não apetece
à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond
em sua Barbacena roseiral
é altivo, discreto, bom poeta,
dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada
elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento,
sem recusar redondamente a láurea,
responde: “Eu, Príncipe? De quê?
Só se for, por distinção latina,
Princeps Promptorum”… E continua
sereno, silencioso,
em seu rosa-lar de Barbacena.
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