Poemas neste tema
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António Ramos Rosa
Um Obscuro Jardim
Lembro-me ou esqueço um obscuro jardim,
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
1 201
António Ramos Rosa
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
981
António Ramos Rosa
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
981
António Ramos Rosa
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
981
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 130
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 130
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 059
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 059
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 059
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 059
António Ramos Rosa
A Mulher Dilacerada
Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
1 114
António Ramos Rosa
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
1 191
António Ramos Rosa
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
1 191
António Ramos Rosa
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
1 191
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 072
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 072
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 234
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 234
António Ramos Rosa
Não Fosforesce Essa Mão Que Mal Se Move
Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
919
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
1 151
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
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António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
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Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
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Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
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António Ramos Rosa
Na Cinza Última
Será possível despertar? Será possível vibrar? Esta é a cinza última do ser. Talvez eu venha a renascer aqui, no silêncio labiríntico, ouvindo sobre uma árvore branca a tranquila voz do mar. O gérmen sairá da cal e eu escreverei a corola do alento intacto. Serei ainda a cinza imóvel, mas também o vento que a levanta, num abraço de sede, e no vazio iluminado vai erguendo as figuras vivas do desejo ou as surpreendentes palavras cintilantes.
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António Ramos Rosa
Na Cinza Última
Será possível despertar? Será possível vibrar? Esta é a cinza última do ser. Talvez eu venha a renascer aqui, no silêncio labiríntico, ouvindo sobre uma árvore branca a tranquila voz do mar. O gérmen sairá da cal e eu escreverei a corola do alento intacto. Serei ainda a cinza imóvel, mas também o vento que a levanta, num abraço de sede, e no vazio iluminado vai erguendo as figuras vivas do desejo ou as surpreendentes palavras cintilantes.
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