Poemas neste tema
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António Ramos Rosa
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
1 083
António Ramos Rosa
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
1 083
António Ramos Rosa
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
1 083
António Ramos Rosa
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
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António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
1 295
António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
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António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
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António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
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António Ramos Rosa
Mais Raso
Mais raso
onde não é aqui
e o que vibra apenas vibra
ou nada vibra
quase ou já o limiar
incessante
que requer o limite ou o obstáculo
contra o grito
Aqui quando se diz
aqui
o desejo e o espaço
a palavra limite e não limite
do vazio
onde não é aqui
e o que vibra apenas vibra
ou nada vibra
quase ou já o limiar
incessante
que requer o limite ou o obstáculo
contra o grito
Aqui quando se diz
aqui
o desejo e o espaço
a palavra limite e não limite
do vazio
1 162
António Ramos Rosa
Entre Desejo E Sombra
entre desejo e sombra
umas pálidas pernas uma fugaz
fornalha o som
do orvalho
como te quero não sei
este veneno puro
esta alga incerta
são os números do fogo
corro com as perguntas e
as pedras ferozes
entravo o ritmo das
aves tempestuosas
que súbitas tenazes
vêm rodopiando
sobre a terra dos nomes
sobre o fogo dos caminhos
como renascer hoje
com uma imperícia atroz
o flanco esquerdo ferido
e a moribunda lua
seguirei este atalho
de formigas e fósseis
até ao anel de pedra
ao vislumbre da vespa
umas pálidas pernas uma fugaz
fornalha o som
do orvalho
como te quero não sei
este veneno puro
esta alga incerta
são os números do fogo
corro com as perguntas e
as pedras ferozes
entravo o ritmo das
aves tempestuosas
que súbitas tenazes
vêm rodopiando
sobre a terra dos nomes
sobre o fogo dos caminhos
como renascer hoje
com uma imperícia atroz
o flanco esquerdo ferido
e a moribunda lua
seguirei este atalho
de formigas e fósseis
até ao anel de pedra
ao vislumbre da vespa
612
António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
1 055
António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
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António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
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António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
1 055
António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
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António Ramos Rosa
A Sede do Silêncio
A sede do silêncio é um fruto do silêncio. A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra que (não) se perde na palavra. Distância, deserto, de árvore em árvore, a eterna sede, a sede do eterno, da frugal transparência do efémero. Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. A página é deserto e caminho errante, obstinado. O horizonte do deserto anula a miragem, nega o imaginário. A sede da página é sede da ausência e sede da palavra do horizonte. A ausência é a segunda dimensão do dia, o outro lábio da terra, a verdadeira voz do vocábulo.
1 145
António Ramos Rosa
A Sede do Silêncio
A sede do silêncio é um fruto do silêncio. A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra que (não) se perde na palavra. Distância, deserto, de árvore em árvore, a eterna sede, a sede do eterno, da frugal transparência do efémero. Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. A página é deserto e caminho errante, obstinado. O horizonte do deserto anula a miragem, nega o imaginário. A sede da página é sede da ausência e sede da palavra do horizonte. A ausência é a segunda dimensão do dia, o outro lábio da terra, a verdadeira voz do vocábulo.
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António Ramos Rosa
A Sede do Silêncio
A sede do silêncio é um fruto do silêncio. A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra que (não) se perde na palavra. Distância, deserto, de árvore em árvore, a eterna sede, a sede do eterno, da frugal transparência do efémero. Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. A página é deserto e caminho errante, obstinado. O horizonte do deserto anula a miragem, nega o imaginário. A sede da página é sede da ausência e sede da palavra do horizonte. A ausência é a segunda dimensão do dia, o outro lábio da terra, a verdadeira voz do vocábulo.
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António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 073
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 073
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
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António Ramos Rosa
A Transparência
a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
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António Ramos Rosa
A Transparência
a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
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António Ramos Rosa
Ignorância do Caminho
Ignoro o caminho, a mais pura ciência de viver. Não importa já a razão dominadora com o seu cerco que expulsa o silêncio e disseca o próprio ar que se respira. A palavra só existe em função da realidade que cria e à qual se furta. A palavra viva é a impossível nudez do corpo, a lâmpada do silêncio, o retorno ao aqui. Estar aqui, voltar aqui é recomeçar o começo, é começar o que ainda e sempre está por começar. Todas as palavras são pedras de um exílio e todas nos abrem os lábios da ferida. Todo o vocábulo é nascimento e morte. O branco é cúmplice do exílio e do milagre da linguagem. Nenhuma sombra poderia respirar se não fosse a ficção nula da brancura da página. A página acende o obscuro sangue de uma lâmpada, de um corpo ou de um silêncio, e logo o apaga para reavivar a mesma chama de silêncio, a própria língua do corpo.
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