Poemas neste tema
Outros
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 066
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 066
António Ramos Rosa
Caminhando
Um passo largo
que me enche
de ar
uma certeza rápida
e fresca
sem memória
a face gasta
sob os pés
um solo de grãos onde trepida o branco
que me enche
de ar
uma certeza rápida
e fresca
sem memória
a face gasta
sob os pés
um solo de grãos onde trepida o branco
1 055
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 024
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 008
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 008
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
971
António Ramos Rosa
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
1 303
António Ramos Rosa
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
1 303
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 052
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 052
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 052
António Ramos Rosa
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
1 038
António Ramos Rosa
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
1 038
António Ramos Rosa
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 179
António Ramos Rosa
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 179
António Ramos Rosa
Imagens
O fogo que aparece
por cima do horizonte
A vela deslizando sobre a terra
papéis que estalam brancos
um punhado de sol no ar
por cima do horizonte
A vela deslizando sobre a terra
papéis que estalam brancos
um punhado de sol no ar
1 060
António Ramos Rosa
Neste Campo
Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
1 055
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 104
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 104
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
1 020
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
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