Poemas neste tema
Outros
Nuno Júdice
Lilith
O que a faz viver? Pensa?
Ou sonha? Os olhos demoram-se
numa indecisão entre acordar
e adormecer; e sem os fechar,
é como se não visse nada,
para além dela. Mas
uma sombra enrola-se à volta
do seu pescoço, num abraço
de serpente; e os lábios
abrem-se num sorriso
leve, que nos prende,
com o veneno invisível
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 106 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Ou sonha? Os olhos demoram-se
numa indecisão entre acordar
e adormecer; e sem os fechar,
é como se não visse nada,
para além dela. Mas
uma sombra enrola-se à volta
do seu pescoço, num abraço
de serpente; e os lábios
abrem-se num sorriso
leve, que nos prende,
com o veneno invisível
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 106 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 290
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 292
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 292
Nuno Júdice
Uma imagem
Um rosto é feito de acordo com uma ciência,
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
Uma imagem
Um rosto é feito de acordo com uma ciência,
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 345
Martha Medeiros
Promessas matrimoniais
Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros
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Martha Medeiros
Definitivo
Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...
1 788
Nuno Júdice
Lume
Acordei com um anjo na cabeça. Batia
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 233
Cesare Pavese
Tens sangue, tens fôlego
Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
808
Cesare Pavese
Tens sangue, tens fôlego
Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
808
Edmir Domingues
Canção amarga II
Acender o cigarro que não fumo
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
693
Ricardo Redisch
Estilhaços
O amor é uma química poderosa,
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
mas de equilíbrio muito delicado.
Quando seus elementos se confundem
o conjunto pode voar pelos ares.
É a semântica então que se embaralha
num corredor de frases mutiladas,
e qualquer comunicação envolve
vários ressentimentos ofegantes.
Ao telefone, a fala é transportada
em longos fios de arame farpado,
numa sucessão de signos sem vida.
O discurso, então, deixa de ser pleno,
transforma-se num crispado murmúrio:
fenda que dói no corpo da palavra.
Do livro 'Sinergias', publicado em 2011 pela editora Livros de Safra
632
Cesare Pavese
você, vento de março
Você é a vida e a morte.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre –
O teu passo ligeiro
a reabriu.
Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.
Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.
Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.
A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre –
O teu passo ligeiro
a reabriu.
Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.
Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.
Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.
A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
933
Nuno Júdice
Pecado
Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 277
Nuno Júdice
Rosa
Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 77 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 77 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
742
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 295
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 295
Martha Medeiros
Strip-Tease
Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".
E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.
1 803
Nuno Júdice
Um lírio no vale
Nua, encosta-se ao que pode ser uma parede
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 333
Nuno Júdice
Um lírio no vale
Nua, encosta-se ao que pode ser uma parede
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 333
Nuno Júdice
Modelo no atelier do artista
As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
949
Nuno Júdice
Modelo no atelier do artista
As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
949
Nuno Júdice
Modelo no atelier do artista
As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
949
Nuno Júdice
Retrato com véu
Um espaço branco que se atravessa nos olhos de
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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