Poemas neste tema
Outros
Susana Thénon
Habitante do Nada
Vivo entre pedras
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
738
Nuno Júdice
Luta de classes
Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
1 226
Nuno Júdice
Luta de classes
Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
1 226
Susana Thénon
Um
Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
965
Susana Thénon
Mais Além
Remontar teu violento mistério
além do sangue,
além do esquecimento,
longe, até o confim do tempo.
Saber-te amanhecendo
na tarde sonora,
no profundo sabor de tuas pernas
subindo meu beijo
até sua boca indefesa,
abrindo tuas portas
lambendo tuas praias secretas
com furor de ressaca do mar .
Descobrindo a rosa em tua língua,
tua bandeira vermelha.
Arrancando do coágulo as horas,
nascendo em segredo.
além do sangue,
além do esquecimento,
longe, até o confim do tempo.
Saber-te amanhecendo
na tarde sonora,
no profundo sabor de tuas pernas
subindo meu beijo
até sua boca indefesa,
abrindo tuas portas
lambendo tuas praias secretas
com furor de ressaca do mar .
Descobrindo a rosa em tua língua,
tua bandeira vermelha.
Arrancando do coágulo as horas,
nascendo em segredo.
967
Sophia de Mello Breyner Andresen
Senhora da Saúde
Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia
2 240
Susana Thénon
Minuto
Em todo instante
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
789
Susana Thénon
O Dançarino
O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
937
Susana Thénon
O Dançarino
O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
937
Nuno Júdice
Última ceia
Com que monotonia penso em mim;
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.
(E se disser que não como?)
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
sentimento distante, que me põem à frente,
na mesa, já frio e sem gosto. Mas vou
comendo, sem pressa, este prato
indigesto; e, a cada garfada, antecipo
a dor de estômago que me irá encher
de pesadelos a noite. Eu: pesada
refeição que não desejo,
mas me puseram à frente.
(E se disser que não como?)
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 470
Nuno Júdice
Soneto 3
Duvido dos espelhos, não sei ler os reflexos.
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
618
Nuno Júdice
Soneto 3
Duvido dos espelhos, não sei ler os reflexos.
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
Ponho-me de joelhos à procura dos nexos
e é tudo disperso. Há sentidos que estão gastos
no percurso do verso; ecos ocos e vastos.
Falam-me da música, mas não a procuro.
O que escrevo tem um tom grave e escuro.
Dir-me-ão que devo satisfazer o desejo,
pôr-me de rstos, esquecer o pejo;
passar a estrofe como quem derruba um muro.
Poderei acaso esquecer o que vejo?
A poesia é um continente submerso,
falta-me o ar para continuar a nadar.
Entra-me água nos pulmões por um furo
e as rimas asfixiam-me no fundo do mar
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 52 | Na regra do jogo, 1982
618
Nuno Júdice
Zoologia: o porco
O porco vive como os homens
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.
Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.
Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.
Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.
Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.
Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.
Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.
Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.
Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 667
Nuno Júdice
Hino
Reconheço a voz errante e longínqua, o sopro
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
1 260
Nuno Júdice
Hino
Reconheço a voz errante e longínqua, o sopro
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
1 260
Susana Thénon
O Morto
Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
819
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
1 083
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
1 083
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
1 083
Susana Thénon
Amor
Agora conhece o que assovia o sangue
à noite
como a escura serpente extraviada.
à noite
como a escura serpente extraviada.
937
Nuno Júdice
Enigma ornitológico
Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 387
Nuno Júdice
Enigma ornitológico
Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 387
Nuno Júdice
Chuva
Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
Nuno Júdice | "Um Canto na Espessura do Tempo", 1992
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
Nuno Júdice | "Um Canto na Espessura do Tempo", 1992
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