Lista de Poemas
Carrasco
me repete: descansa,
e eu
descansar não poderia
senão como em sonho
latente,
como flecha que repousa
em sua aljava.
Cada dia
minhas horas
se tornam mais agudas,
mais ásperas,
desde que estou sufocada
e o sol me arde.
Conheço as palavras
cujo som
as portas voam como plumas
e o céu é uma almofada para os pés.
Conheço o castigo.
Conheço todos os castigos.
Mas hoje amanheci carrasco.
Não é um Poema
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de raiva,
raiva pelos olhos ocos,
pelas palavras torpes
que digo e que me dizem,
por baixar a cabeça
para ratos,
para cérebros cheios de mijo,
para mortos persistentes
que interrompem o ar do jardim.
Isto não é um poema:
é um pontapé universal,
um soco no estômago do céu,
uma enorme náusea
vermelha
como era o sangue antes de ser água.
Onde
Nos faz viver.
Só o mistério."
F. García Lorca
Abaixo a teoria da gestalt
as estatísticas anuais
o observador no pólo
os conselhos de controle.
Abaixo o sol meteorológico
o tetranitrato de pentaeritritol
a força motriz aproveitável
e o robô eletrônico.
Abaixo o predicado nominal
a glossemática de Hjelmslev
o catálogo de códigos e documentos
a patogenia do coma hepático.
Abaixo as categorias dimensionais
a soma dos ângulos interiores de um sonho
a cosmovisão do eu
os graus do amor cibernético
como seguir
o que ser
onde morrer
Sede
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
Aqui, Agora
a alegria se espalha
como o pólen
e que há tempos
os homens se erguem
como jardins definitivos.
Mas eu vivo aqui e agora
onde tudo é horrível
e tem dentes
e velhas unhas petrificadas.
Aqui e agora,
onde o ar sufoca
e o medo é impune.
Caminhos
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Vagueia entre gritos
anônimos,
entre multidões de fome,
sob céus estrangeiros.
Entre humildes,
Ecos desesperançados.
Onde é a saída?
Habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
Oração
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
Caos
de seus passos,
não têm mais que avançar
- o retrocesso os surpreenderá um dia -,
não á outra alternativa além de seguir adiante.
Sua culpa não nasceu,
isto que vem e tocam e tem todo ele
sabor de coisa digerida em sonhos.
São sinais de nada,
mostram com sons quase envelhecidos já
o progresso do variante símio.
Vão sozinhos.
Um grande cansaço não ajuda,
não convida ao caos, preparado como uma festa.
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