Lista de Poemas

Histórias de Magia

Um garoto espera
que o mar o alcance.
Quer ser o garoto
ausente, à hora do passeio.
Se cobre de areia.
É um barco naufragado.
Um administrador para
e pensa, quatro vezes quis demasiado.
(Os números celestes determinam
aos números sujos de terra
em Cannes, nos porões violentos
de Cannes, e em
todos todos os presságios de amor).
Um louco estende a mão
e pede água, é cinza
a água com o cristal, com a parede,
com a tarde
esparramada no relógio de sol.
Um sacerdote pensa, sou um homem
com altura e pele de cepa:
Minha rosa vive ainda,
enlouquece debaixo da túnica.
Sou um sino de luto.
Um homem de sentará e dirá estou cansado
Um homem se estenderá ao sol e dirá por quê
Um homem será o bastante para dizê-lo
Um homem pulará o muro
e dirá não.
952

Ser

Morder teu significado
Nesta escala de magnitudes
Inateráveis.
Ser, ao extremo
de teu meridiano,
um ponto,
um breve sinal
peregrino por tuas fronteiras.
Desfazer teu limite,
afundar em tua sonora latitude,
reconhecer um por um teus portos
e nomeá-los por seus nomes.
906

Nomes

Na desolação do meu sangue,
sob a angústia que me cega
eu busco nomes para meu amor:
meu amo quase ódio,
apenas sol.
778

A Sós

É certo:
A seriedade de seu sorriso.
Imagina-se a sós
com tanto grito à sua volta?
O tempo caminha entre os perfumes,
destampa um frasco, perde minutos a deixar morrer
entre os trajes para meio vivos,
como recém afogados.
Compreendo:
os gritos silenciados,
os peixes, nascimento perpétuo.
Antes, uma vez...
Ninguém nunca saberá.
Imagina-se a sós
com tanto abismo à sua volta?
577

O Morto

Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
797

O Dançarino

O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
903

Eu

Eu vivo o tempo,
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
749

Ela

Pela madrugada
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
799

Resto

Ficam os movimentos elementares
do sangue
e o rosto, espelho cego
onde se precipita o meio-dia.
Ficam as mãos, apenas,
suavemente desenhadas
nas costas negras do ar.
Ficam as palavras, não a música,
não o rumor equidistante do sol
quando faz noite, dor e medo.
Ficam os animaizinhos cansados
de golpear, cara e estio,
em sua jaula de ossos.
707

Poema

"Eu creio nas noites".
R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica
o amor que se afoga desaforadamente em minha boca
e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo,
nenhuma tarde com mais sol que de costume
é o bastante para formar a sílaba,
o sussurro esperado como um bálsamo,
noite e noite.
Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe
quando o não, o adeus,
o minuto morto agora, irreparável,
se levantam inesperadamente e cega,
até morrermos em todo o corpo, infinitos.
Como uma fome, como um sorriso, penso,
deve ser a solidão
assim nos engana bem e entra
e assim a surpreendemos uma tarde
reclinada sobre nós.
Como uma mão, como um canto simples
e sombrio
deveria ser o amor
para tê-lo perto e não renegá-lo
cada vez que nos invade o sangue.
Não há silêncio nem canção que justifiquem
esta morte tão lenta,
este assassinato que nada condena.
Não há liturgia nem fogo nem exorcismo
para deter o fracassar ridículo
dos idiomas que conhecemos.
A verdade é que não me afogo sem lamentar,
pelo menos tenho resistido ao engano:
não participei da festa mansa, nem do ar cúmplice,
nem da metade da noite.
Mordo entretanto e ainda que pouco o bastante
meu sorriso guarda um amor que assustaria a deus.
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Identificação e contexto básico

Susana Thénon foi uma escritora argentina, conhecida principalmente por sua poesia experimental e de vanguarda. Utilizou a linguagem de forma subversiva e inovadora, explorando o humor, a ironia e a crítica social. Foi uma figura importante na literatura argentina do século XX, associada a movimentos de renovação estética.

Infância e formação

Pouco se sabe publicamente sobre sua infância e formação inicial, mas sua obra revela uma formação intelectual robusta e um profundo conhecimento da linguagem e de suas potencialidades. Sua escrita demonstra uma relação complexa com as normas e a tradição.

Percurso literário

O início de sua carreira literária foi marcado pela publicação de obras que a distinguiram pela originalidade e pela ruptura com os padrões estabelecidos. Ela desenvolveu um estilo próprio, experimental e irreverente, que a consolidou como uma voz singular na poesia argentina. Sua obra evoluiu em termos de experimentação e profundidade crítica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Susana Thénon incluem "Oção" (1970), "Círculo de Fogo" (1974), "El huésped" (1978) e "El ojo de la cerradura" (1981). Seus temas centrais abordam a identidade, o corpo, a loucura, a opressão social e a crítica ao patriarcado. Thénon é conhecida por sua experimentação com a linguagem, a criação de neologismos, o uso de diferentes registros linguísticos e a incorporação de elementos da cultura popular e da mídia. Ela emprega o humor negro, a ironia e a paródia para desestabilizar o leitor e questionar as estruturas de poder. Sua voz poética é transgressora, desafiadora e profundamente engajada com as questões sociais e existenciais. O estilo é fragmentado, enérgico e muitas vezes agressivo, rompendo com a musicalidade tradicional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sua obra se desenvolveu em um período de intensa turbulência política e social na Argentina, incluindo a ditadura militar. Thénon navegou nesse contexto com uma poesia que, de forma oblíqua e subversiva, questionava a ordem estabelecida e a repressão. Ela participou de círculos literários de vanguarda, buscando novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Susana Thénon manteve uma vida pessoal discreta, mas sua obra reflete uma profunda preocupação com as experiências individuais e coletivas, o corpo e a psique.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra tenha sido desafiadora e por vezes controversa, Susana Thénon é hoje amplamente reconhecida como uma das vozes mais originais e importantes da poesia argentina contemporânea. Sua ousadia formal e sua crítica social a tornaram uma referência para novas gerações de escritores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra dialoga com a tradição da poesia de vanguarda e experimental, e seu legado reside na sua capacidade de subverter a linguagem para questionar o status quo e explorar as complexidades da experiência humana. Ela influenciou poetas que buscam a experimentação formal e a crítica social em suas obras.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Thénon é frequentemente analisada por sua abordagem da linguagem como um campo de batalha, por sua crítica ao poder e pela exploração da subjetividade em um contexto de opressão.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua abordagem irreverente e experimental da poesia, muitas vezes marcada por um humor ácido e cortante, a distingue de muitos de seus contemporâneos. Ela desafiou as expectativas do que a poesia deveria ser.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Susana Thénon faleceu em Buenos Aires. Sua obra continua a ser redescoberta e celebrada por sua força inovadora e sua relevância social.