Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Beber a vida num trago, e nesse trago
Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas, boas, más,
Trabalhos e prazeres, e ofícios,
Todos lugares, viagens, explorações
Crimes, lascívias, decadências todas.
D'antes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa ideia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer,
Mudando sempre
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
Quero
Afogar em bulício, em Luz, em vozes,
— Tumultuárias coisas usuais (
O sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.
Folgaria
De encher num dia, numa hora, num trago
A medida dos vícios ainda mesmo
Que fosse condenado eternamente (
Loucura — ao tal inferno.
A um inferno real.
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas, boas, más,
Trabalhos e prazeres, e ofícios,
Todos lugares, viagens, explorações
Crimes, lascívias, decadências todas.
D'antes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa ideia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer,
Mudando sempre
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
Quero
Afogar em bulício, em Luz, em vozes,
— Tumultuárias coisas usuais (
O sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.
Folgaria
De encher num dia, numa hora, num trago
A medida dos vícios ainda mesmo
Que fosse condenado eternamente (
Loucura — ao tal inferno.
A um inferno real.
1 473
Fernando Pessoa
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir...
Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei?
Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,
[Toque de vigias, suspiros do porto?]
(...)
Lenços a acenarem-me do cais em que ficam...
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora,
Até o (...)
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir...
Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei?
Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,
[Toque de vigias, suspiros do porto?]
(...)
Lenços a acenarem-me do cais em que ficam...
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora,
Até o (...)
1 413
Fernando Pessoa
ADEUS...
O navio vai partir, sufoco o pranto
Que na alma faz nascer cruel saudade;
Só me punge a lembrança que em breve há-de
Fugir ao meu olhar o teu encanto.
Não mais ao pé de ti, fruindo santo
Amor em sonho azul; nem a amizade
De amigos me dará felicidade
Igual à que gozei contigo tanto.
Dentro do peito frio meu coração
Ardendo está co'a força da paixão,
Qual mártir exilado em gelo russo...
Vai largando o navio p'ra largo giro:
Eu meu «adeus» lhe envio n'um suspiro,
Ela um adeus me envia n'um soluço.
Que na alma faz nascer cruel saudade;
Só me punge a lembrança que em breve há-de
Fugir ao meu olhar o teu encanto.
Não mais ao pé de ti, fruindo santo
Amor em sonho azul; nem a amizade
De amigos me dará felicidade
Igual à que gozei contigo tanto.
Dentro do peito frio meu coração
Ardendo está co'a força da paixão,
Qual mártir exilado em gelo russo...
Vai largando o navio p'ra largo giro:
Eu meu «adeus» lhe envio n'um suspiro,
Ela um adeus me envia n'um soluço.
2 794
Fernando Pessoa
A Consciência de existir, a raiz
A Consciência de existir, a raiz
Do ilimitado, omnímodo mistério
Que tem tronco de Ser, folhas de vida
Flores de sentimento e sofrimento
E frutos do pensar, podres depressa.
A Consciência de existir, tormento
Primeiro e último do raciocínio
Que, porém, filho dela, a não atinge.
A Consciência de existir me esmaga
Com todo o seu mistério e a sua força
De compreendida incompreensão profunda,
Irreparavelmente circunscrita.
Do ilimitado, omnímodo mistério
Que tem tronco de Ser, folhas de vida
Flores de sentimento e sofrimento
E frutos do pensar, podres depressa.
A Consciência de existir, tormento
Primeiro e último do raciocínio
Que, porém, filho dela, a não atinge.
A Consciência de existir me esmaga
Com todo o seu mistério e a sua força
De compreendida incompreensão profunda,
Irreparavelmente circunscrita.
1 345
Fernando Pessoa
O mistério ruiu sobre a minha alma
O mistério ruiu sobre a minha alma
E soterrou-a... Morro Consciente!
Quem sou? Não sei. Cego vou
P'la noite sem mesmo a ver...
Sou eu e habito o que sou
Alheio ao meu próprio ser.
Vivo outra vida que a minha,
Nem sei o que é o vivê-la.
E soterrou-a... Morro Consciente!
Quem sou? Não sei. Cego vou
P'la noite sem mesmo a ver...
Sou eu e habito o que sou
Alheio ao meu próprio ser.
Vivo outra vida que a minha,
Nem sei o que é o vivê-la.
1 387
Fernando Pessoa
Quisera ter
Quisera ter
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem (...) até a história
Em modalizações(...)
Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem (...) até a história
Em modalizações(...)
Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
990
Fernando Pessoa
15a Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
[XVa]
Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.
O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.
Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.
O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.
1 439
Fernando Pessoa
Foi numa das minhas viagens...
Foi numa das minhas viagens...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
1 451
Fernando Pessoa
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
1 302
Fernando Pessoa
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
1 302
Fernando Pessoa
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
1 302
Fernando Pessoa
FAUSTO (na taberna)
Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
(Alto)
Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...
Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!
(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
(Alto)
Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...
Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!
(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
2 083
Fernando Pessoa
Cidades, com seus comércios (...)
Cidades, com seus comércios (...)
Tudo é mesmamente estranho, mesmamente
Descomunal ao pensamento fundo
Estranhamente incompreendido.
Tudo é mistério, tudo é transcendente
Na sua complexidade enorme,
Um raciocínio visionado e exterior;
Uma ordeira misteriosidade,
Silêncio interior cheio de som.
Tudo é mesmamente estranho, mesmamente
Descomunal ao pensamento fundo
Estranhamente incompreendido.
Tudo é mistério, tudo é transcendente
Na sua complexidade enorme,
Um raciocínio visionado e exterior;
Uma ordeira misteriosidade,
Silêncio interior cheio de som.
964
Fernando Pessoa
O que é haver ser
O que é haver ser, o que é haver seres, o que é haver coisas,
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
1 060
Fernando Pessoa
Creio que irei morrer.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
939
Fernando Pessoa
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
1 422
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 518
Fernando Pessoa
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
1 266
Fernando Pessoa
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
1 266
Fernando Pessoa
O medo intelectual da «morte»
O medo intelectual da «morte»
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
1 846
Fernando Pessoa
Quanto mais fundamente penso, mais
Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar,
Mesmo quem sabe muito nada sabe.
Quanto mais fundamente penso, sim,
Mais fundamente me sinto ignorar,
Mais fundamente sinto alguma coisa
Além do que profundamente penso.
E é isto que dizer me faz: eu penso
Profundamente.
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar,
Mesmo quem sabe muito nada sabe.
Quanto mais fundamente penso, sim,
Mais fundamente me sinto ignorar,
Mais fundamente sinto alguma coisa
Além do que profundamente penso.
E é isto que dizer me faz: eu penso
Profundamente.
1 799
Fernando Pessoa
Quando acorda p'ra vida o pensamento
Quando acorda p'ra vida o pensamento
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
1 189
Fernando Pessoa
Quando acorda p'ra vida o pensamento
Quando acorda p'ra vida o pensamento
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
1 189
Fernando Pessoa
ON DEATH
When I consider how each day's career
Doth with its footstep dark [?] yet heavy tread
Approach my soul to those great regions dread
And bring my youth to timeless death more near,
Though strange and sad to one it doth appear
That I (who now feel life) must soon he dead
Some vague, uncertain sorrow weighs my head
And whelms my coward mind with lengthless fear.
Nevertheless through sorrow, rage and tear,
My heart yet each moment's boon shall sense.
And shake rude laughter from each heart-felt moan:
Not without hope is most extreme despair,
I know not death and think it no release -
The bad, indeed, is better than the unknown.
Doth with its footstep dark [?] yet heavy tread
Approach my soul to those great regions dread
And bring my youth to timeless death more near,
Though strange and sad to one it doth appear
That I (who now feel life) must soon he dead
Some vague, uncertain sorrow weighs my head
And whelms my coward mind with lengthless fear.
Nevertheless through sorrow, rage and tear,
My heart yet each moment's boon shall sense.
And shake rude laughter from each heart-felt moan:
Not without hope is most extreme despair,
I know not death and think it no release -
The bad, indeed, is better than the unknown.
1 912