Poemas neste tema
Outros
Luís Miguel Nava
Em Sintra
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
1 380
Luís Miguel Nava
Em Sintra
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
1 380
Luís Miguel Nava
Em Sintra
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
1 380
Rose Ausländer
Ainda estás aqui
Lança teu medo
aos ares
Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui
Sê o que és
Dá o que tens
Noch bist du da
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
bald
wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast
865
Edoardo Sanguineti
de Reisebilder
à funcionária da aduana em minissaia, que me escolheu com seus
[olhos de sibila
e de pomba, de dentro de uma fila interminável de viajantes em
[trânsito, eu disse
toda a verdade, confinado num séparé-confessionário de madeira
compensada:
.................disse que tenho um filho que estuda russo e alemão;
que Bonjour les amis, curso de língua francesa em 4 volumes, era
para minha mulher;
.................e estava pronto a dizer mais: sabia que foi
[Rosa Luxemburgo
quem lançou a palavra de ordem "socialismo ou barbárie"; e podia
fazer disso um madrigal estrepitoso:
........................mas suava, vasculhando os bolsos,
buscando em vão a conta do Operncafé; e então você irrompeu
arrastando atrás de si até os meninos, maravilhosos e maravilhados:
(a expulsávamos com os mesmos gestos duros, eu e minha beatriz
democrática de farda):
.................mas para mim o irreparável já se tinha consumado,
ali, na fronteira entre as duas Berlins: quarentão aos pés da guarda.
(tradução de Maurício Santana Dias)
606
Roberto Piva
Uma tarde
.......Uma tarde
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
1 524
Roberto Piva
Uma tarde
.......Uma tarde
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani.... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado... provado...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue& os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte
1 524
Antidio Cabal
Epitáfio de Indalecio Xunto, vulgo O Total
Chamavam-me de Deus porque eu não tinha forma, era gordo, pensei que Deus me havia feito gordo por ter me escolhido.
806
Antidio Cabal
Epitáfio de Réndez Merodes, vulgo O Vigilante
Espero que esta seja a última vez que morro,
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.
705
Tadeusz Rózewicz
Reabilitação post-mortem
Os mortos lembram-se
de nossa indiferença
Os mortos lembram-se
de nosso silêncio
Os mortos lembram-se
de nossas palavras
Os mortos veem as nossas caras
distendidas de orelha a orelha
Os mortos veem os nossos
corpos que se esfregam
os mortos veem as nossas mãos
prontas para aplaudir
Os mortos leem os nossos livros
ouvem os nossos discursos
pronunciados há muito tempo
os mortos ouvem
o ruído de nossas línguas
os mortos analisam os relatórios
participam de discussões
já encerradas
os mortos enxergam estádios
corais conjuntos em escansão
Todos os vivos são culpados
culpadas são as crianças pequenas
que entregavam buquês de flores
culpados são os amantes
culpados são os poetas
culpados são aqueles que fugiram
e aqueles que ficaram
aqueles que disseram sim
aqueles que disseram não
e aqueles que falaram
os mortos estão contandos os vivos
os mortos não haverão e reabilitar-nos
(tradução de Aleksandr Jovanovic)
648
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
734
Heiner Müller
Olhar estranho: despedida de Berlim
De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
1 043
Heiner Müller
Olhar estranho: despedida de Berlim
De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
1 043
Vasko Popa
- No começo
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
657
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 290
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 290
Vasko Popa
- Diante do final
Onde iremos agora
Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos
O que faremos lá
Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada
De que lhes servimos nós
Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos
762
Vesna Parun
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Sempre sempre expostas à seca e ao vento
Desde a era bíblica as velhas oliveiras
Já vêm embalando a paz mítica no ventre
Oliveiras filhas do mar atarracadas
Todo o sofrimento humano nelas está
Deitaram raízes no penhasco grávidas
Oliveiras berço do sol e leito do ar
Oliveiras minhas irmãs no oceano
Passam os seus dias vazios descontentes
Feito nossos avós túmidas de ruína
Escuras e negras com seus mementos tristes
Oliveiras vocês são empedrada gente
Nossas amarguras nossos duros pesares
Dos seus seios jorra um dourado azeite
E a vida transborda como nos velhos livros
(tradução de Aleksandr Jovanovic, in Céu Vazio: 63 poetas eslavos, São Paulo: Hucitec, 1996).
.
.
.
876
Vasko Popa
No suspiro
Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
782
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
698
Bob Cobbing
poética do barulho doméstico
poética do barulho doméstico
tecido do dia-a-dia
uma língua silenciosa soando
um olho esquadrinhando
não terá uma duração uma página em branco
barulho ou silêncio
nós a articulamos com os olhos
pele polifônica de evento
em reservatórios da siderúrgica do significado
delir ativo do senso comum existente
interrogando fronteiras convencionais
por gesto e postura
por predisposição e por manipulação
humanos em sociedade como enxame coloquial
amorfia de indefinição comunitária
populações multiplicidades territórios
a parte feminina da linguagem
candidatas num concurso de beleza
corpus de sua obra
reprodução do eu preferencial
gosto aspirante
no mercado das palavras
desorientação erode ao redor como um abismo
o barulho sobrecarrega
(tradução de Ricardo Domeneck)
570
Bob Cobbing
poética do barulho doméstico
poética do barulho doméstico
tecido do dia-a-dia
uma língua silenciosa soando
um olho esquadrinhando
não terá uma duração uma página em branco
barulho ou silêncio
nós a articulamos com os olhos
pele polifônica de evento
em reservatórios da siderúrgica do significado
delir ativo do senso comum existente
interrogando fronteiras convencionais
por gesto e postura
por predisposição e por manipulação
humanos em sociedade como enxame coloquial
amorfia de indefinição comunitária
populações multiplicidades territórios
a parte feminina da linguagem
candidatas num concurso de beleza
corpus de sua obra
reprodução do eu preferencial
gosto aspirante
no mercado das palavras
desorientação erode ao redor como um abismo
o barulho sobrecarrega
(tradução de Ricardo Domeneck)
570
Pierre Albert-Birot
Nada
Ai perdoe as quatro letras a mais
Nem mesmo nada
E já é demais
Haveria que começar a História
Antes de seu começo
Creiamos que ela de fato começou
No branco a preceder este nada
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Rien
Pierre Albert-Birot
Oh pardon c´est quatre lettres de trop
Pas même rien
Et c´est encore trop
Il faudrait commencer l´Histoire
Avant son commencement
Qu´on veuille bien croire qu´elle commence en effet
Dans le blanc qui precède ce rien
769
Essex Hemphill
Casamento americano
Na América,
eu ponho meu anel
no seu pau
que é o lugar dele.
Nenhum cavaleiro
trazendo o terror
ou soldado apocalíptico
há de chegar
e chagar nossa união.
Eles estão ocupados
demais pilhando
a terra para nos ver.
Eles não sabem
que nos precisamos
criticamente.
Esperam que tiremos licença médica,
fiquemos a noite toda perante a TV,
morramos por nossas próprias mãos.
Eles não sabem
que estamos reunindo forças.
A cada beijo
confirmamos o novo mundo.
O que a rosa sussurra
antes de abrir
prometo a você.
Eu dou a você meu coração,
uma casa segura.
Eu dou a você promessas outras que
leite, mel, liberdade.
Eu presumo que você sempre
será um homem livre com um sonho.
Na América,
eu coloco o seu anel
no meu pau
que é o lugar dele.
Que vivamos muito
para libertar este sonho.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
American Wedding
Essex Hemphill
In America,
I place my ring
on your cock
where it belongs.
No horsemen
bearing terror,
no soldiers of doom
will swoop in
and sweep us apart.
They’re too busy
looting the land
to watch us.
They don’t know
we need each other
critically.
They expect us to call in sick,
watch television all night,
die by our own hands.
They don’t know
we are becoming powerful.
Every time we kiss
we confirm the new world coming.
What the rose whispers
before blooming
I vow to you.
I give you my heart,
a safe house.
I give you promises other than
milk, honey, liberty.
I assume you will always
be a free man with a dream.
In America,
place your ring
on my cock
where it belongs.
Long may we live
to free this dream.
.
.
.
879