Poemas neste tema
Outros
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
749
Leonardo Martinelli
Sweet Lou Reed
Sattelite's gone up to the skies
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
640
Leonardo Martinelli
Sweet Lou Reed
Sattelite's gone up to the skies
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
640
Leonardo Martinelli
Sweet Lou Reed
Sattelite's gone up to the skies
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
640
Vasko Popa
- Depois do começo
O que faremos agora
Realmente o que faremos
Agora jantaremos a medula
Comemos a medula no almoço
Agora o oco dói em mim
Pois toquemos música
Gostamos de música
O que faremos quando os cães vierem
Eles gostam de ossos
Entalaremos em suas gargantas
E gozaremos
592
Marina Tsvetaeva
Ensaio de ciúme
Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
.
.
.
Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
.
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
.
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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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1 595
André Pieyre de Mandiargues
O incêndio
O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
1 008
André Pieyre de Mandiargues
O incêndio
O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
1 008
Amiri Baraka
Em memória do rádio
Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)
Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?
Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação & dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight
& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.
Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!
O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”
(tradução de Dirceu Villa)
Nota do tradutor:
Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.
:
In Memory of Radio
Amiri Baraka
Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.)
What can I say?
It is better to haved loved and lost
Than to put linoleum in your living rooms?
Am I a sage or something?
Mandrake's hypnotic gesture of the week?
(Remember, I do not have the healing powers of Oral Roberts...
I cannot, like F. J. Sheen, tell you how to get saved & rich!
I cannot even order you to the gaschamber satori like Hitler or Goddy Knight)
& love is an evil word.
Turn it backwards/see, see what I mean?
An evol word. & besides
who understands it?
I certainly wouldn't like to go out on that kind of limb.
Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his undersea folk.
At 11, Let's Pretend
& we did
& I, the poet, still do. Thank God!
What was it he used to say (after the transformation when he was safe
& invisible & the unbelievers couldn't throw stones?) "Heh, heh, heh.
Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows."
O, yes he does
O, yes he does
An evil word it is,
This Love.
781
Vasko Popa
- Debaixo da terra
Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
676
Frank O'Hara
Três árias
para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
1 181
Vasko Popa
Trepadeira
Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos
901
Pedro Casariego Córdoba
16de julho
mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
689
Konstantínos Kaváfis
Nos Arrabaldes de Antióquia
Ficámos siderados em Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
1 308
Leonardo Martinelli
Três torres, dois séculos, um dia
A primeira tornou-se mito
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806
As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806
As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
647
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
885
Pedro Casariego Córdoba
Esta solidão
esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis
os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome
o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides
através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono
no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas
agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro
as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar
agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda
eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde
mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
AJANTA É ÀS 6.
EUSOU O GARÇOM.
:
ESTASOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo elvicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y delos pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman unespacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua/ para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es unmisterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas// a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba elprincipio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevansilencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la telametálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienendinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva/ alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a latela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio delcielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera nopuedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOYEL CAMARERO.
725
Jean-Joseph Rabearivelo
Ler
Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 282
Jean-Joseph Rabearivelo
Ler
Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 282
Blanca Varela
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
da terra rumo ao inferno ou à estrela de sucata que te
leva diante de outro muro cheio de espelhos e de gestos,
endiabrados gestos sem dono e tu atrás deles, só, feliz
proprietário de uma boca escarlate que muge.
Cola o ouvido à terra que insiste em se levantar e respirar.
Acaricia-a como se fosse carne, pele humana capaz de
te comover, capaz de te rejeitar.
Aceita a espera que nem sempre há lugar no caos.
Aceita a porta fechada, o muro cada vez mais alto, o
pulinho, a imagem que te mostra a língua.
Não subas sobre os ombros dos fantasmas que é
ridículo cair de bunda with music in your soul.
tradução de Angélica Freitas
696
Mario Wirz
Autorretrato
Dos muitos
que eu sou
desconheço
todos eles
só de boato
conheço eu
este aqui
aquele ali
de passagem
eu permaneço
por mim
na busca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Selbstbild
Von den vielen
die ich bin
sind alle
mir unbekannt
nur vom Hörensagen
kenne ich
den einen
die andere
flüchtig
bleibe ich
mir
auf der Spur
.
.
.
817
Heiner Müller
O pai
I.
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
1 406
Vasko Popa
- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
663
Marina Tsvetaeva
Tentativa de ciúme
Como vai você com a outra?
Fácil, não é? — Um golpe de remo! —
E de pronto a linha da costa
Se foi e você já nem se lembra
De mim, ilha flutuante
(No céu, por certo, não no mar)!
Almas! Almas! — antes amar
Como irmãs, não como amantes!
Como vai você com a mulher
Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer
Um trono (você foi o assassino),
Como vai, meu bem? Tudo a gosto?
E o dia-a-dia — sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?
"Mil sobressaltos, incertezas —
Basta! Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja —
O eleito pelo meu afeto?
A comida é melhor, mais familiar?
Diga a verdade. Como vai
Você com a imitação vulgar —
Você, que subiu ao Sinai?
Como é viver com uma estranha?
Você a ama? Não disfarce.
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?
E a saúde, vai bem? Que tal
A vida — uma canção? A ferida
Da consciência imortal
Como a suporta, meu querido?
Como vai você com o adereço
De feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó do gesso
Depois do mármor de Carrara?
(Deus talhado em barro, termina
Em pedaços!) Como é o convívio
Com a milionésima da fila
Pra quem já conheceu Lilit?
As novidades de feira
Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto
Sentido? Vamos, tudo cor
De rosa? Ou não? Aí, nesse oco
Sem fundo, amor, como vai? Pior
Ou igual a mim com outro?
(tradução de Augusto de Campos)
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