Poemas neste tema
Outros
Jorge Viegas
Interlúdio
Partículas
de silêncio
Superficialmente emocionado
Florescem na noite das constelações
Ritmos inalteráveis
De fragmentos de luz
Resistem à reconciliação do vazio.
A cor dos significados
Irrompe deliciosamente
Pela fronteira do silêncio
A sede eterna
Venerável e temperamental
Invade a alegria transparente
No infinito lago azul celestial
Emergem gotas ofuscantes
Criando a luz do tempo apagado
Tu dentro de mim
Criaste o vermelho flamejante
Onde as emoções navegam triunfantes
de silêncio
Superficialmente emocionado
Florescem na noite das constelações
Ritmos inalteráveis
De fragmentos de luz
Resistem à reconciliação do vazio.
A cor dos significados
Irrompe deliciosamente
Pela fronteira do silêncio
A sede eterna
Venerável e temperamental
Invade a alegria transparente
No infinito lago azul celestial
Emergem gotas ofuscantes
Criando a luz do tempo apagado
Tu dentro de mim
Criaste o vermelho flamejante
Onde as emoções navegam triunfantes
1 085
Almandrade
IV
O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
979
Regina Souza Vieira
A Abóbora Menina
Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
1 127
Jorge Viegas
Estrada do Silêncio
Apalpo os
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
1 262
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
944
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
944
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
944
Almandrade
II
O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
1 049
Silvaney Paes
Psiu Disse o Verbo
A mulher,
voltada para o Altíssimo,
sorvia luz, e clamava:
Responde-me Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Era desocultação
a mulher,
e também dúvidas.
Nada lhe dizia O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Vai-se O Altíssimo.
a mulher divaga,
chora e grita.
Abandonou-me Verbo?
Mais o que seja O Verbo, era silêncio.
Retorna O Verbo,
trás consigo um menino.
Pensa a mulher:
Não é tão grande O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Deposita ali o menino,
faminto, entristecido,
e parte
parecendo órfão de Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Escuta a mulher,
algo frágil, baixo.
não tem voz de trovão,
não parece ser O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu,
diz o menino:
tenho fome, frio...
É tu O Verbo?
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
A Mulher
olha sob o nariz,
acolhe o menino,
sentindo-se Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu...
era tudo o que falava
o silêncio
do que seja O Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio!
Agora a mulher,
o menino,
eram o silêncio do Verbo.
Sabiam!...
Todos nós somos O Verbo.
voltada para o Altíssimo,
sorvia luz, e clamava:
Responde-me Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Era desocultação
a mulher,
e também dúvidas.
Nada lhe dizia O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Vai-se O Altíssimo.
a mulher divaga,
chora e grita.
Abandonou-me Verbo?
Mais o que seja O Verbo, era silêncio.
Retorna O Verbo,
trás consigo um menino.
Pensa a mulher:
Não é tão grande O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Deposita ali o menino,
faminto, entristecido,
e parte
parecendo órfão de Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Escuta a mulher,
algo frágil, baixo.
não tem voz de trovão,
não parece ser O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu,
diz o menino:
tenho fome, frio...
É tu O Verbo?
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
A Mulher
olha sob o nariz,
acolhe o menino,
sentindo-se Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu...
era tudo o que falava
o silêncio
do que seja O Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio!
Agora a mulher,
o menino,
eram o silêncio do Verbo.
Sabiam!...
Todos nós somos O Verbo.
1 153
Silvaney Paes
Sol
De desconforto
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
1 084
Armindo Trevisan
O Círculo
Que ela
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
956
Regina Souza Vieira
Eis de Repente
..... eis de repente
do Lépi a chuva densa
alturas de Nambunagongo
Silongo de Mandume
Chanas que pisei no leste
Maiombe de lendas infindáveis
O ar livre de poeiras dos escombros
Reabre sonhos escondidos na agonia
A velha da tchimanda
Dá o nome de David
E o da Miete
Aos meninos que encontrou
Na estrada
No Tchinguluma
Ouvem-se as abelhas zumbir
Em torno das cores perto do rio
Também viram no Mufupu
Jeremias a cobrir a casa
Com capim novo da chama
Lukau vinda do norte
Trouxe abacates no pano e ofereceu-os
Olhos brilhantes húmidos felizes
Disseram-me hoje
Há folhas verdes outra vez
Nos ramos da loncha da Emanha
Nas mangueiras do salundo
Vozes falam do milho a germinar
No Huma e na Cativa
Passaram os anos em que a morte
Venceu todas as batalhas
Finalmente agora pouco a pouco
Começa a vida a vencer a guerra.
do Lépi a chuva densa
alturas de Nambunagongo
Silongo de Mandume
Chanas que pisei no leste
Maiombe de lendas infindáveis
O ar livre de poeiras dos escombros
Reabre sonhos escondidos na agonia
A velha da tchimanda
Dá o nome de David
E o da Miete
Aos meninos que encontrou
Na estrada
No Tchinguluma
Ouvem-se as abelhas zumbir
Em torno das cores perto do rio
Também viram no Mufupu
Jeremias a cobrir a casa
Com capim novo da chama
Lukau vinda do norte
Trouxe abacates no pano e ofereceu-os
Olhos brilhantes húmidos felizes
Disseram-me hoje
Há folhas verdes outra vez
Nos ramos da loncha da Emanha
Nas mangueiras do salundo
Vozes falam do milho a germinar
No Huma e na Cativa
Passaram os anos em que a morte
Venceu todas as batalhas
Finalmente agora pouco a pouco
Começa a vida a vencer a guerra.
978
Jorge Viegas
O Fio da Vida
Recordações,
Electrizantes momentos vividos
No espaço intimo das emoções
Sensações,
Esvoaçantes desejos sentidos
No caminho das ilusões.
Fascínios,
Naturais brilhos íntimos
Que iluminam a melodia da vida.
Propostas,
Para o voo rasante
Do sonho perfumado e musical.
Respostas,
Para a luz embriagante
Da estrada da sombra sensual.
O tempo,
Espaço translúcido viajante
De silêncios inspiradores.
O vento,
Cântico azul navegante
De sentidos arrebatadores.
Impérios,
De gestos puros anunciados
E virgens almas esculpidas.
Mistérios,
Cobertos de perfumes iluminados
E doces sombras adormecidas.
Electrizantes momentos vividos
No espaço intimo das emoções
Sensações,
Esvoaçantes desejos sentidos
No caminho das ilusões.
Fascínios,
Naturais brilhos íntimos
Que iluminam a melodia da vida.
Propostas,
Para o voo rasante
Do sonho perfumado e musical.
Respostas,
Para a luz embriagante
Da estrada da sombra sensual.
O tempo,
Espaço translúcido viajante
De silêncios inspiradores.
O vento,
Cântico azul navegante
De sentidos arrebatadores.
Impérios,
De gestos puros anunciados
E virgens almas esculpidas.
Mistérios,
Cobertos de perfumes iluminados
E doces sombras adormecidas.
1 174
Regina Souza Vieira
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
726
Regina Souza Vieira
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
726
Regina Souza Vieira
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
726
Silvaney Paes
Visita
Seja bem-vinda
a minha casa,
Pois de há muito que esperada,
Tão culta amiga!
Mais não demores,
Não fique na porta aí parada.
Adentra!
Anseio pelo vosso abraço,
Mais que ele não lhe seja estranho.
Desculpa-me!
Se não vier com o aperto esperado,
É que me vejo vexado,
Encabulado!
De um certo cheiro que vai nele impregnado,
Do suor do labor de meu trabalho.
Assenta-te!
Não nessa cadeira,
Ela traz uma das pernas amputadas.
Nesta outra.
Que foi especialmente para esta visita reservada,
Fazendo do simples de minha pobre casa,
A minha melhor prata.
Aceita um café, uma água?
É tudo que se tem em toda casa,
E que agrada.
Reparaste na minha modesta morada?
Ela não tem todas as paredes rebocadas.
E como a minha alma.
Mais nela mora dignidade,
Tristeza, saudade e também felicidade.
Trouxeste algo?
Não precisava! Já tenho tudo que me faltava,
Nesta visita a minha casa.
a minha casa,
Pois de há muito que esperada,
Tão culta amiga!
Mais não demores,
Não fique na porta aí parada.
Adentra!
Anseio pelo vosso abraço,
Mais que ele não lhe seja estranho.
Desculpa-me!
Se não vier com o aperto esperado,
É que me vejo vexado,
Encabulado!
De um certo cheiro que vai nele impregnado,
Do suor do labor de meu trabalho.
Assenta-te!
Não nessa cadeira,
Ela traz uma das pernas amputadas.
Nesta outra.
Que foi especialmente para esta visita reservada,
Fazendo do simples de minha pobre casa,
A minha melhor prata.
Aceita um café, uma água?
É tudo que se tem em toda casa,
E que agrada.
Reparaste na minha modesta morada?
Ela não tem todas as paredes rebocadas.
E como a minha alma.
Mais nela mora dignidade,
Tristeza, saudade e também felicidade.
Trouxeste algo?
Não precisava! Já tenho tudo que me faltava,
Nesta visita a minha casa.
1 091
Regina Souza Vieira
Luanda
Aqui reside tudo
E todos
Germinam as raízes todas
Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo
Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas
Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem
No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida
Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país.
E todos
Germinam as raízes todas
Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo
Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas
Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem
No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida
Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país.
789
Agostina Akemi Sasaoka
Gênese
O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
891
Jorge Viegas
Navegando nas Emoções
Ao brilho
do luar
Abrem-se as campânulas de silencio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.
De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.
Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.
As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.
do luar
Abrem-se as campânulas de silencio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.
De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.
Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.
As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.
1 061
Silvaney Paes
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
760
Emídia Felipe
Alfabeto
Tenho que
aprender a desconfiar de quem é confiante
Ter a certeza de que tudo é incerto
E que tudo para nós nunca será o bastante
Não quero saber mais de meus erros
Suas conseqüências já me bastam
E a verdade que me acompanha é a mentira que vivo
São só coisas sem sentido
Mas que sentido há nas coisas deste mundo?
Tentar seguir estas regras vazias é engano
Antecipar sofrimentos é atrasar a vida
Abrir os olhos e seguir em frente é poder então saber
Que a missão cumprida está acontecendo
aprender a desconfiar de quem é confiante
Ter a certeza de que tudo é incerto
E que tudo para nós nunca será o bastante
Não quero saber mais de meus erros
Suas conseqüências já me bastam
E a verdade que me acompanha é a mentira que vivo
São só coisas sem sentido
Mas que sentido há nas coisas deste mundo?
Tentar seguir estas regras vazias é engano
Antecipar sofrimentos é atrasar a vida
Abrir os olhos e seguir em frente é poder então saber
Que a missão cumprida está acontecendo
857
Emídia Felipe
Alfabeto
Tenho que
aprender a desconfiar de quem é confiante
Ter a certeza de que tudo é incerto
E que tudo para nós nunca será o bastante
Não quero saber mais de meus erros
Suas conseqüências já me bastam
E a verdade que me acompanha é a mentira que vivo
São só coisas sem sentido
Mas que sentido há nas coisas deste mundo?
Tentar seguir estas regras vazias é engano
Antecipar sofrimentos é atrasar a vida
Abrir os olhos e seguir em frente é poder então saber
Que a missão cumprida está acontecendo
aprender a desconfiar de quem é confiante
Ter a certeza de que tudo é incerto
E que tudo para nós nunca será o bastante
Não quero saber mais de meus erros
Suas conseqüências já me bastam
E a verdade que me acompanha é a mentira que vivo
São só coisas sem sentido
Mas que sentido há nas coisas deste mundo?
Tentar seguir estas regras vazias é engano
Antecipar sofrimentos é atrasar a vida
Abrir os olhos e seguir em frente é poder então saber
Que a missão cumprida está acontecendo
857
Hugo Pires
Milénio
Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
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