Poemas neste tema
Outros
Ymah Théres
Canção para o Amigo Dormindo
(Em memória de SÉRGIO CAMPOS)
O pranto no rosto triste
enevoou teu sorriso
maltratou o teu silêncio
navegou no teu mar alto.
Pressentidos, os mistérios
foram todos desvendados
nos escaninhos da ofensa
que a vida inteira guardaste
como troféu, como glória,
como porto mais seguro
no berço da solidão.
E a morte bebeu-te inteiro
- flor consumida de arrimos
ao segredo de teu rumo -
foste chamado à resposta.
E eis que te busco e desvelo
nesse mirar de exilado:
trago boninas, de leve,
e um beijo puro aos teus dedos
que transitaram poemas.
O pranto no rosto triste
enevoou teu sorriso
maltratou o teu silêncio
navegou no teu mar alto.
Pressentidos, os mistérios
foram todos desvendados
nos escaninhos da ofensa
que a vida inteira guardaste
como troféu, como glória,
como porto mais seguro
no berço da solidão.
E a morte bebeu-te inteiro
- flor consumida de arrimos
ao segredo de teu rumo -
foste chamado à resposta.
E eis que te busco e desvelo
nesse mirar de exilado:
trago boninas, de leve,
e um beijo puro aos teus dedos
que transitaram poemas.
800
Ymah Théres
Canção para o Amigo Dormindo
(Em memória de SÉRGIO CAMPOS)
O pranto no rosto triste
enevoou teu sorriso
maltratou o teu silêncio
navegou no teu mar alto.
Pressentidos, os mistérios
foram todos desvendados
nos escaninhos da ofensa
que a vida inteira guardaste
como troféu, como glória,
como porto mais seguro
no berço da solidão.
E a morte bebeu-te inteiro
- flor consumida de arrimos
ao segredo de teu rumo -
foste chamado à resposta.
E eis que te busco e desvelo
nesse mirar de exilado:
trago boninas, de leve,
e um beijo puro aos teus dedos
que transitaram poemas.
O pranto no rosto triste
enevoou teu sorriso
maltratou o teu silêncio
navegou no teu mar alto.
Pressentidos, os mistérios
foram todos desvendados
nos escaninhos da ofensa
que a vida inteira guardaste
como troféu, como glória,
como porto mais seguro
no berço da solidão.
E a morte bebeu-te inteiro
- flor consumida de arrimos
ao segredo de teu rumo -
foste chamado à resposta.
E eis que te busco e desvelo
nesse mirar de exilado:
trago boninas, de leve,
e um beijo puro aos teus dedos
que transitaram poemas.
800
Wanda Cristina
Aliteração
Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
1 187
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
952
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
972
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
972
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
972
Valentim Magalhães
Íntimo
Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
990
Valentim Magalhães
Íntimo
Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
990
Eduardo Dominguez Trindade
O Sonho
Eu sigo a sombra fugaz de um sonho,
Eu sigo um lindo sonho que morreu…
Toda a força do meu corpo ponho
Na busca infinita do sonho meu!
Este fúlgido sonho que sigo
É o sonho do nosso amor passado;
É o sonho que sonhei contigo,
quando tu estavas ao meu lado…
No meu sonho, a vida era alegria:
Era poder ver-te todo dia;
Ver teu olhar límpido e risonho.
Mas hoje, só resta a saudade.
Minha única felicidade
É acreditar neste meu sonho!
3 de janeiro de 1996.
Eu sigo um lindo sonho que morreu…
Toda a força do meu corpo ponho
Na busca infinita do sonho meu!
Este fúlgido sonho que sigo
É o sonho do nosso amor passado;
É o sonho que sonhei contigo,
quando tu estavas ao meu lado…
No meu sonho, a vida era alegria:
Era poder ver-te todo dia;
Ver teu olhar límpido e risonho.
Mas hoje, só resta a saudade.
Minha única felicidade
É acreditar neste meu sonho!
3 de janeiro de 1996.
1 115
Maria Thereza Noronha
Finito e Infinito
Entre as folhas do outono
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
1 052
Vera Romariz
Sem Óculos
Na cama te quero
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais
Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais
Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais
Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais
Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais
1 295
Vitor Casimiro
Um Dia Rosa, no Outro Pétala
PétalaVem ao chão.Do Chão não volta maisJamais esquece,A pétala,A chance valiosaDe ter sido,Um dia,Rosa.
963
Valdir L. Queiroz
Dissertação
Tenho medo
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
780
Maria Thereza Noronha
Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
1 011
Maria Thereza Noronha
Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
1 011
Valdir L. Queiroz
Dissertação III
Também te vi sobre a colisão
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
922
Vitor L. Mendes
Solidão
Todos os dias, ao cair da noite,
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
719
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
781
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
781
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
781
Vitor Casimiro
Entre o Céu e a Terra
Antes éramos um ponto
Hoje não me contento
Estou rodeado
Por cimento
Vivemos em sociedades
Não somos primitivos
Ganhamos adjetivos
Enquanto perdemos qualidades
Será uma máquina,
Arranha-céu, ou fato extraordinário
capaz de apagar o cenário
bonito, do anil infinito?
Hoje não me contento
Estou rodeado
Por cimento
Vivemos em sociedades
Não somos primitivos
Ganhamos adjetivos
Enquanto perdemos qualidades
Será uma máquina,
Arranha-céu, ou fato extraordinário
capaz de apagar o cenário
bonito, do anil infinito?
948
Maria Thereza Noronha
Ontem
Ontem, partiu-se a lua em duas foices
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
1 046
Carlos Augusto Viana
Jorge Tuffic
I
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
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