Carlos Vogt

Carlos Vogt

n. 1943 BR BR

Carlos Vogt é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, conhecido por sua obra que explora a linguagem poética de forma experimental e reflexiva. Sua produção literária abrange diversas formas, desde a poesia até a crítica literária, sempre com um olhar aguçado sobre as possibilidades da palavra. Com uma trajetória marcada pela pesquisa e pela busca constante de novas formas de expressão, Vogt se estabeleceu como uma figura importante na literatura contemporânea, dialogando com tradições e propondo caminhos inovadores para a poesia.

n. 1943-02-06, Sales Oliveira

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Metalurgia

Para João Baptista

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
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Biografia

Identificação e contexto básico

Carlos Vogt é um poeta, ensaísta, tradutor e professor brasileiro. Nasceu em São Paulo e é reconhecido por sua contribuição à poesia contemporânea, explorando a linguagem e suas potencialidades. Sua obra é marcada por um caráter experimental e reflexivo.

Infância e formação

(Informação não disponível)

Percurso literário

Carlos Vogt iniciou sua trajetória literária explorando a poesia e o ensaio. Ao longo de sua carreira, dedicou-se também à tradução e à crítica literária, demonstrando um interesse abrangente pelas diversas facetas da literatura. Sua obra se desenvolveu em diálogo com as tendências poéticas de seu tempo, buscando sempre inovações formais e temáticas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Carlos Vogt caracteriza-se pela experimentação com a linguagem poética. Seus temas frequentemente abordam a reflexão sobre a própria palavra, a natureza da arte e a relação do indivíduo com o mundo. Utiliza recursos como a fragmentação, a metalinguagem e um vocabulário denso, buscando explorar os limites da expressão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlos Vogt insere-se no contexto da produção literária brasileira a partir da segunda metade do século XX, dialogando com as vanguardas e buscando caminhos próprios para a poesia. Sua obra reflete um interesse pelas questões existenciais e filosóficas que permeiam a sociedade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Informação não disponível)

Poemas

14

Metalurgia

Para João Baptista

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 523

Bolsa de Valores

Amor
à (primeira) vista
dispensa oratória

a prazo
tem juras
e correção monetária


In: VOGT, Carlos. Geração: poemas. Il. João Baptista da Costa Aguiar. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 360

Presenças de Vinicius

De tudo à tua ausência, por seres um e múltiplo serei
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.

Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,

em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.

Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,

recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,

leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 005

Dramaturgia

Não me sinto bem
no papel
vivido por você


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 049

Contrato Social

Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 251

Ponto de Vista

Visto da ilha
o continente no container dos olhos
represa mágoas e metáforas de alegria.
Na distância de água e argila,
visto da ilha,
o continente é outra ilha.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 191

Sociedade Moderna no Terceiro Mundo

para o Roberto Schwarz

Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto

a concreta falta
de
dinheiro


In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
1 188

Insônia

As horas mortas
morrem em candelabros
de pé

a sala dorme recostada
em mal
dormidas noites.

a cama deita na memória
sonhos
que a deitaram

a mesa geme
o tilintar
de corpos

os copos bebem
velho sabor
rançoso

os pratos roçam
doces canções
ridículas

(...)

fantasmas cantam
a ressureição
da falha

cachorros lambem
seu pesadelo
aflito

os gatos rasgam
a comunhão
da carne


In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Redondos
1 223

Currículo Mínimo

Sonho primário
Crescer para ser grande

Disciplina ginasial
Educação moral e cínica

Obrigação colegial
Disciplina cívica e oral

Consequência universitária
Problemas brasileiros


In: VOGT, Carlos. Geração: poemas. Il. João Baptista da Costa Aguiar. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 072

Fábula Rábula

Era uma vez um país
num círculo vicioso
onde brilhavam estrelas
dobradas em seu fulgor
e o vagalume invejoso
sabia que o presidente
sonhava com um ditador


In: VOGT, Carlos. Paisagem doméstica. São Paulo: I. Guarnelli: Massao Ohno, 1984. Poema integrante da série Almanaque do Pensamento.

NOTA: Referência ao soneto "Círculo Vicioso", da série de poemas "Ocidentais", das POESIAS COMPLETAS (1901), de Machado de Assi
1 421

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