Poemas neste tema
Outros
Oliveira Roma
Em u’a Festa Matuta
Nhá Quitéra! Nhá Quitéra!
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
1 049
Ona Gaia
Água
Água
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
936
Otávio Ramos
O Gato
O gato é a peça mais instigante do jogo de xadrez.
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
1 210
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 356
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 356
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 356
Oliveira Roma
Avante!
Ao operário brasileiro
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
990
Pedro de Alcântara
A Imperatriz
Corda que estala em harpa mal tangida,
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
1 966
Olegario Schmitt
Imagens
Naquele prado verde
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
925
Papiniano Carlos
Cântico
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
1 937
Papiniano Carlos
Cântico
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
1 937
Olegario Schmitt
O Nasimento
À Cecília Meirelles
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
894
Olegario Schmitt
O Nasimento
À Cecília Meirelles
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
894
Olegario Schmitt
O Nasimento
À Cecília Meirelles
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
894
Olegario Schmitt
As Letras
abcdefghijlmnopqrstuvxz
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
980
Olegario Schmitt
As Letras
abcdefghijlmnopqrstuvxz
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
Me perguntas como é que se faz poesia.
Pois bem, junte isso que está aí em cima e que por definição
se chama alfabeto, reuna isso que por definição se chama de letra,
em qualquer quantia, na ordem que quiseres, durante o tempo que
quiseres,
e aí está a poesia...
Poesias são reuniões que as letras fazem
pra tomar o chá das cinco. E é isso apenas o que sei e que te posso
ensinar,
o resto tudo é fofoca dessas tias curucacas.
980
Ona Gaia
Cacófato Mental
Não importa a marca
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
1 049
Olinda Marques de Azevedo
Verão
Suco de manga
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
925
Oliveira Neto
Trovas
Sou poeta e fui vaqueiro
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
1 169
Oliveira Neto
Trovas
Sou poeta e fui vaqueiro
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
1 169
José Olimpio
Sou Alentejano
Sou alentejano
poeta e cantor
filho dos montados
neto de uma flor.
Não tive lições
de livros doirados
não usei nos dedos
anéis brasonados.
Nasci entre as dobras
de ventos e trigos
- nunca traí os amigos.
Sou alentejano
poeta e cantor
só falo das coisas
que falem de amor:
das rosas, dos rios,
dos velhos maiorais...
Das águias altivas
dos tristes pardais
das lendas e loas
de ritos antigos...
- nunca traí os amigos.
Sou alentejano.
Um homem não mais
com pulsos de feno
sangue de pinhais.
Não fui às estrelas
senão a sonhar.
Não tive castelos
senão de luar.
Andei pelos montes
dormi em abrigos
- Nunca traí os amigos
poeta e cantor
filho dos montados
neto de uma flor.
Não tive lições
de livros doirados
não usei nos dedos
anéis brasonados.
Nasci entre as dobras
de ventos e trigos
- nunca traí os amigos.
Sou alentejano
poeta e cantor
só falo das coisas
que falem de amor:
das rosas, dos rios,
dos velhos maiorais...
Das águias altivas
dos tristes pardais
das lendas e loas
de ritos antigos...
- nunca traí os amigos.
Sou alentejano.
Um homem não mais
com pulsos de feno
sangue de pinhais.
Não fui às estrelas
senão a sonhar.
Não tive castelos
senão de luar.
Andei pelos montes
dormi em abrigos
- Nunca traí os amigos
428
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 047
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 047
Noel Rosa
Cidade Mulher
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
980