Noel Rosa

Noel Rosa

1910–1937 · viveu 26 anos BR BR

Noel Rosa foi um dos mais importantes compositores e poetas da música popular brasileira, conhecido por sua genialidade em retratar o cotidiano carioca com humor, ironia e lirismo. Sua obra transcende o tempo, capturando a essência da vida urbana, as relações humanas e as transformações sociais do Brasil na primeira metade do século XX. Com uma linguagem coloquial e musicalidade ímpar, Noel Rosa deixou um legado que reverbera até os dias de hoje.

n. 1910-12-11, Rio de Janeiro · m. 1937-05-04, Rio de Janeiro

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Até amanhã

Até amanha, se Deus quiser
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo

O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Noel de Medeiros Rosa, conhecido como Noel Rosa, foi um compositor, cantor e poeta brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1910. Pseudônimo: "O Poeta da Vila". Filho de pais de origem humilde, cresceu no bairro da Vila Isabel. Foi um dos maiores nomes da era de ouro do rádio e da música popular brasileira, vivendo e compondo no contexto do samba e do início do modernismo no Brasil.

Infância e formação

Noel Rosa teve uma infância marcada pela boemia e pela atmosfera musical do Rio de Janeiro. Iniciou os estudos no Colégio Metropolitano e depois no Ginásio Queiroz, mas sua verdadeira formação ocorreu nas ruas e nos bares da Vila Isabel, onde absorveu a cultura popular e desenvolveu seu talento para a música e a poesia. Suas leituras iniciais e as influências musicais de artistas como Pixinguinha foram fundamentais.

Percurso literário

O percurso literário de Noel Rosa confunde-se com sua carreira musical. Desde jovem, demonstrava aptidão para a composição, escrevendo suas primeiras músicas ainda na adolescência. Sua ascensão se deu nas rádios e em gravações, com sucessos como "Com que roupa?". Evoluiu de forma notável, passando de letras mais simples para composições de grande complexidade poética e temática, tornando-se um cronista aguçado do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Noel Rosa é vasta e multifacetada, composta por sambas, marchinhas e canções que retratam o cotidiano carioca, o amor, a boemia e as críticas sociais. Seus temas dominantes incluem a vida urbana, as relações interpessoais, a malandragem, o futebol e as transformações sociais do Brasil. Utilizava frequentemente o verso livre e formas musicais adaptadas às suas letras, com um ritmo contagiante e uma musicalidade ímpar. Sua linguagem é coloquial, irônica e repleta de gírias, mas também de profunda sensibilidade lírica. Noel inovou ao trazer para o samba temas do dia a dia e uma poesia mais elaborada, dialogando com a tradição do gênero e com as vanguardas modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Noel Rosa viveu em um período de grande efervescência cultural no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. A era do rádio, o desenvolvimento do samba como gênero nacional e as transformações sociais e políticas do país, como a ascensão do Estado Novo, foram pano de fundo para sua obra. Ele frequentava círculos boêmios e literários, sendo amigo de outros artistas como Ary Barroso e Cartola.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Noel Rosa era conhecido por sua personalidade boêmia e seu estilo de vida desregrado, o que, infelizmente, contribuiu para sua saúde fragilizada. Teve relações afetivas significativas, como o casamento com Dora Farias. Sua amizade com outros músicos e compositores foi intensa, embora houvesse também rivalidades artísticas. Sua saúde debilitada, decorrente da vida noturna e de uma tuberculose, marcou seus últimos anos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Noel Rosa foi um artista de imensa popularidade em vida, com suas músicas tocadas em todas as rádios e cantadas por todo o país. Seu reconhecimento como um dos maiores compositores da MPB é unânime. Recebeu diversas homenagens e sua obra é objeto de estudo acadêmico e reverenciada por músicos e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Noel Rosa foi influenciado por compositores como Pixinguinha e Sinhô, e por sua vez, influenciou gerações de músicos e poetas da MPB, como Chico Buarque e Tom Jobim. Seu legado reside na forma como elevou o samba à categoria de arte poética, com letras que são verdadeiros retratos de uma época e da alma brasileira. Sua obra é um pilar fundamental da identidade musical do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Noel Rosa é rica em nuances, permitindo leituras sobre a identidade carioca, a crítica social velada, o lirismo amoroso e a condição humana. Sua poesia é frequentemente analisada sob a ótica da modernidade, da oralidade e da influência do pensamento da época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Noel Rosa era conhecido por suas "guerras de sambas" com outros compositores, em forma de canções de provocação. Era um observador atento do cotidiano, anotando ideias em guardanapos e bilhetes. Apesar de sua fama, viveu de forma simples e modesta. Seus manuscritos e letras originais são tesouros de valor inestimável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Noel Rosa faleceu prematuramente, aos 26 anos, em 4 de maio de 1937, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose. Sua morte precoce gerou grande comoção nacional. Suas composições continuam sendo gravadas e interpretadas, mantendo viva sua memória e seu legado eterno para a música brasileira.

Poemas

7

Até amanhã

Até amanha, se Deus quiser
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo

O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.

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Amor de Parceria

Saibam primeiro
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.

Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.

Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.

Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.

Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão

E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.

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Capricho de Rapaz Solteiro

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando.
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer.
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro,
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro.

A mulher é um achado
Que nos perde e nos atrasa:
Não há malandro casado,
Pois malandro não se casa.
Com a bossa que eu te der,
Orgulhoso eu vou gritando:
Nunca mais esta mulher,
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!

Antes de descer ao fundo
Perguntei ao escafandro
Se o mar é mais profundo
Que as idéias do malandro.
Vou, enquanto eu puder,
Meus caprichos sustentando.
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando.

894

Chuva de Vento

Quem nunca viu
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!

Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva - céu cinzento
Casamento de viúva

Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação

Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!

Um Zé Pau-dágua
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
"Viva Deus e chova arroz!"
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!

1 057

Cansei de Implorar

Já cansei de implorar
Pra você desguiar
Dizendo que a minha filha
Ainda é muito moça pra namorar
Meu Deus, que teimosia
Desista de insistir
Na delegacia você vai residir

Casar sem exibir credenciais
E sem dizer o nome dos seus pais
Não pode ser conversa para mim que sou doutor
Vá-se embora, por favor
Quem casa sem ter casa não se cria
Amor sem nota não tem mais valia
Você me diz que é advogado de valor
Mas eu também sou doutor.

891

Cem Mil-Réis

Você me pediu cem mil-réis
Pra comprar um soirée
E um tamborim
O organdi anda barato pra cachorro
E um gato lá no morro
Não é tão caro assim

Não custa nada
Preencher formalidade
Tamborim pra batucada
Soirée pra sociedade
Sou bem sensato
Seu pedido atendi
Já tenho a pele do gato
Falta o metro de organdi

Sei que você
Num dia faz um tamborim
Mas ninguém faz um soirée
Com meio metro de cetim
De soirée
você num baile se destaca
Mas não quero mais você
Porque não sei vestir casaca.

1 010

Cidade Mulher

Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.

970

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