Poemas neste tema
Outros
Diamond
Mosaico
Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
1 156
Deborah Brennand
Sem Preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
1 261
Deborah Brennand
Sem Preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
1 261
Carla Dias
Ar
Há de ficar olhando o mar
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
965
Debora Bottcher
Naufrágio
E quando te conheci
Descobri que tinhas medo da Vida,
Do mundo, do futuro.
Tinhas os pés no chão,
Pisavas em terra firme.
Nada de delírios, nem de paixões.
Mas, cruzei o teu caminho.
Assustado, comparavas-me ao Mar:
Azul e calmo, às vezes,
E cinza e intempestivo em outras.
Não lhe oferecia garantias
Como a Terra,
Mas te mostrei que era bem mais gostoso
Navegar...
Porém, não se pode ter a Terra e o Mar.
E então, fizestes tua escolha.
Deste então, neste Mar,
Nunca mais navegaram.
Por causa deste naufrágio...
Descobri que tinhas medo da Vida,
Do mundo, do futuro.
Tinhas os pés no chão,
Pisavas em terra firme.
Nada de delírios, nem de paixões.
Mas, cruzei o teu caminho.
Assustado, comparavas-me ao Mar:
Azul e calmo, às vezes,
E cinza e intempestivo em outras.
Não lhe oferecia garantias
Como a Terra,
Mas te mostrei que era bem mais gostoso
Navegar...
Porém, não se pode ter a Terra e o Mar.
E então, fizestes tua escolha.
Deste então, neste Mar,
Nunca mais navegaram.
Por causa deste naufrágio...
1 068
Diamond
Quarta-feira
sinistro e indiferente bisturi,
segue cortando e lambendo,
tranquilo e lento, de um ao outro lado,
com o ácido vai e vem, da fria lâmina de aço.
abundante cheiro de sangue,
antecipa meu final, ausente eu nada faço,
enquanto a linha não vem,
costurar de vez esse espaço.
a dor foi suprimida,
anestesia se antepõe a vida,
e a alma faz a sua despedida,
saindo, lentamente, pelo corte da ferida.
se morro perco essa luz,
vou para onde, eu não sei?
se for escuro, o medo,
se for o nada, também.
Quarta-feira, mórbida cirurgia.
segue cortando e lambendo,
tranquilo e lento, de um ao outro lado,
com o ácido vai e vem, da fria lâmina de aço.
abundante cheiro de sangue,
antecipa meu final, ausente eu nada faço,
enquanto a linha não vem,
costurar de vez esse espaço.
a dor foi suprimida,
anestesia se antepõe a vida,
e a alma faz a sua despedida,
saindo, lentamente, pelo corte da ferida.
se morro perco essa luz,
vou para onde, eu não sei?
se for escuro, o medo,
se for o nada, também.
Quarta-feira, mórbida cirurgia.
889
Dilercy Adler
Mulher
Corpo desnudo
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
979
Dilercy Adler
Mulher
Corpo desnudo
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
979
Donizete Galvão
Anil
Pedra tocada por Yves Klein,
em que borda do poço
se perdeu?
Em que veio de mina
ficou incrustada?
Por que a pálpebra se fechou
quando deveria estar aberta?
Por que não foi feita
a pergunta certa?
Onde o mantra
que faz surgir Tara,
caminhando hierática
sobre a muralha?
Em que noite adormeci verde
e acordei Saara?
em que borda do poço
se perdeu?
Em que veio de mina
ficou incrustada?
Por que a pálpebra se fechou
quando deveria estar aberta?
Por que não foi feita
a pergunta certa?
Onde o mantra
que faz surgir Tara,
caminhando hierática
sobre a muralha?
Em que noite adormeci verde
e acordei Saara?
1 037
Dimas Macedo
Subitamente
Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
949
Dutra e Melo
A Noite
Luminoso esteirão mal deixa ao longe,
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
1 159
Dutra e Melo
A Noite
Luminoso esteirão mal deixa ao longe,
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
1 159
Dimas Macedo
Palavras
Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
908
Dimas Macedo
Palavras
Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
908
Dimas Macedo
Poema
Há uma hora em que nos decompomos
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
1 076
Dimas Macedo
Poema
Há uma hora em que nos decompomos
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.
Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.
Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.
Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.
Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.
1 076
Dílson Catarino
Sina Sem Fim
minha sina é ser feliz
sinto pelo sino
que ouço de manhã;
sino batendo
lambendo os hormônios
é de manhã
frio aconchegante
caminhar pela brisa
arrepio estonteante
a guitarra que me falta
a voz que me falha
a falha que me luz
luz que me seduz
a falha que me
nada que me nada
tudo
me seduz
em nada
minha vida é suave
sem defesa
é
a sua beleza
que me fascina
é minha sina
você
é minha tinta
meu arrepio aconchegante
meu nada estonteante
é tudo
em um instante
você
é minha sina
minha sina é ser feliz
sinto por seu beijo, sua voz, sua luz
tudo em você me seduz
sina sem fim.
sinto pelo sino
que ouço de manhã;
sino batendo
lambendo os hormônios
é de manhã
frio aconchegante
caminhar pela brisa
arrepio estonteante
a guitarra que me falta
a voz que me falha
a falha que me luz
luz que me seduz
a falha que me
nada que me nada
tudo
me seduz
em nada
minha vida é suave
sem defesa
é
a sua beleza
que me fascina
é minha sina
você
é minha tinta
meu arrepio aconchegante
meu nada estonteante
é tudo
em um instante
você
é minha sina
minha sina é ser feliz
sinto por seu beijo, sua voz, sua luz
tudo em você me seduz
sina sem fim.
939
Dílson Catarino
Sina Sem Fim
minha sina é ser feliz
sinto pelo sino
que ouço de manhã;
sino batendo
lambendo os hormônios
é de manhã
frio aconchegante
caminhar pela brisa
arrepio estonteante
a guitarra que me falta
a voz que me falha
a falha que me luz
luz que me seduz
a falha que me
nada que me nada
tudo
me seduz
em nada
minha vida é suave
sem defesa
é
a sua beleza
que me fascina
é minha sina
você
é minha tinta
meu arrepio aconchegante
meu nada estonteante
é tudo
em um instante
você
é minha sina
minha sina é ser feliz
sinto por seu beijo, sua voz, sua luz
tudo em você me seduz
sina sem fim.
sinto pelo sino
que ouço de manhã;
sino batendo
lambendo os hormônios
é de manhã
frio aconchegante
caminhar pela brisa
arrepio estonteante
a guitarra que me falta
a voz que me falha
a falha que me luz
luz que me seduz
a falha que me
nada que me nada
tudo
me seduz
em nada
minha vida é suave
sem defesa
é
a sua beleza
que me fascina
é minha sina
você
é minha tinta
meu arrepio aconchegante
meu nada estonteante
é tudo
em um instante
você
é minha sina
minha sina é ser feliz
sinto por seu beijo, sua voz, sua luz
tudo em você me seduz
sina sem fim.
939
Donizete Galvão
O poeta em pânico
" Quem me ouvirá?
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
1 381
Dom Francisco Manuel de Melo
Soneto II
Alegria Custosa
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
1 325
Dílson Catarino
Eu Você
quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
1 000
Donizete Galvão
Anel Caucasiano
Olha para o anel de ferro
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
1 099
Donizete Galvão
Almanaque da Pedra
Roupa branca no quarador:
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
1 306
Carla Dias
O Estar Humano
Falta, e às vezes tanto,
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.
912