Poemas neste tema
Outros
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 633
Cláudio Alex
Por João Quental
Uma das maiores dificuldades da moderna poesia brasileira é falar sobre o amor. Isso se deve, em parte, a uma saturação provocada pela poesia romântica do século XIX. Seus excessos acabaram por abrir dois caminhos bastante distintos em nossa literatura, criando assim muitas vezes violentos antagonismos. Se por um lado a poesia “séria” (e o adjetivo aqui traz implicações, de ordem estética, extremamente perigosos) abandonou quase de vez o tema da paixão, considerando-o exaurido e indigno da modernidade, por outro uma tradição mais “popular” perpetuou o gosto da expressão amorosa. Em ambos os casos, percebemos a dificuldade que o tema apresenta, e pode-se até dizer que nosso século vive uma angústia especial no que se refere ao amor na literatura.
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
1 080
Cláudio Alex
Por João Quental
Uma das maiores dificuldades da moderna poesia brasileira é falar sobre o amor. Isso se deve, em parte, a uma saturação provocada pela poesia romântica do século XIX. Seus excessos acabaram por abrir dois caminhos bastante distintos em nossa literatura, criando assim muitas vezes violentos antagonismos. Se por um lado a poesia “séria” (e o adjetivo aqui traz implicações, de ordem estética, extremamente perigosos) abandonou quase de vez o tema da paixão, considerando-o exaurido e indigno da modernidade, por outro uma tradição mais “popular” perpetuou o gosto da expressão amorosa. Em ambos os casos, percebemos a dificuldade que o tema apresenta, e pode-se até dizer que nosso século vive uma angústia especial no que se refere ao amor na literatura.
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
1 080
Cláudio Alex
Por João Quental
Uma das maiores dificuldades da moderna poesia brasileira é falar sobre o amor. Isso se deve, em parte, a uma saturação provocada pela poesia romântica do século XIX. Seus excessos acabaram por abrir dois caminhos bastante distintos em nossa literatura, criando assim muitas vezes violentos antagonismos. Se por um lado a poesia “séria” (e o adjetivo aqui traz implicações, de ordem estética, extremamente perigosos) abandonou quase de vez o tema da paixão, considerando-o exaurido e indigno da modernidade, por outro uma tradição mais “popular” perpetuou o gosto da expressão amorosa. Em ambos os casos, percebemos a dificuldade que o tema apresenta, e pode-se até dizer que nosso século vive uma angústia especial no que se refere ao amor na literatura.
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
1 080
Cláudio Alex
Poesia Diária
- Um digest diário sobre poesia em português.
O que traz este digest:
- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;
- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;
- poesias inéditas e novos poetas;
- ensaios, críticas sobre poesia;
- textos em prosa poética;
- biografias;
- notícias sobre prêmios e concursos;
- dicas sobre novos lançamentos em poesia;
- dicas para quem está começando a escrever;
- dicas sobre a poesia na Internet.
Se você gosta de poesia terá sempre contato com
uma seleção criteriosa e bem cuidada...
Se você é poeta, já tem trabalhos reconhecidos,
o Poesia Diária traz a oportunidade de troca de
experiências e conhecer os novos rumos...
Se você está começando agora, está querendo mostrar
seus poemas, integrar-se em grupos de poesia, conhecer
o caminho da poesia...
Se você é crítico de literatura precisa estar em
contato com o meio veloz da poesia cibernética...
Se você é editor, não pode deixar de atentar para
os novos talentos...
Existem várias razões para assinar Poesia Diária
e juntar-se a um grupo de 500 assinantes situados
em todos os cantos do mundo.
---
Como assinar:
============
Escreva um mail para:
- [email protected]
dizendo, simplesmente:
inscreva poesia.
O que traz este digest:
- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;
- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;
- poesias inéditas e novos poetas;
- ensaios, críticas sobre poesia;
- textos em prosa poética;
- biografias;
- notícias sobre prêmios e concursos;
- dicas sobre novos lançamentos em poesia;
- dicas para quem está começando a escrever;
- dicas sobre a poesia na Internet.
Se você gosta de poesia terá sempre contato com
uma seleção criteriosa e bem cuidada...
Se você é poeta, já tem trabalhos reconhecidos,
o Poesia Diária traz a oportunidade de troca de
experiências e conhecer os novos rumos...
Se você está começando agora, está querendo mostrar
seus poemas, integrar-se em grupos de poesia, conhecer
o caminho da poesia...
Se você é crítico de literatura precisa estar em
contato com o meio veloz da poesia cibernética...
Se você é editor, não pode deixar de atentar para
os novos talentos...
Existem várias razões para assinar Poesia Diária
e juntar-se a um grupo de 500 assinantes situados
em todos os cantos do mundo.
---
Como assinar:
============
Escreva um mail para:
- [email protected]
dizendo, simplesmente:
inscreva poesia.
1 177
Aleilton Fonseca
o(fí)cio
há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
1 222
Aleilton Fonseca
o(fí)cio
há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
1 222
Aleilton Fonseca
o(fí)cio
há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
1 222
Alfredo José Assunção
Lembranças
Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
1 070
Alexandre Marino
Avoagem
o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
983
Alexandre Marino
Avoagem
o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
983
Cláudio Alex
Quem é aquela mulher?
Deixe que eu te leve no sonho.
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
881
Aleilton Fonseca
motivo
calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
1 365
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nem é esta a mesma rua que passo
Nem é esta a mesma rua que passo
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
794
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Pressentida Saudade
Pressentida saudade
Deste presente
Nos longes do meu futuro.
Corpo que apalpo
E que enlaço
E que prevejo a perda.
A saudade futura
Me oprime o presente
Que vivo.
Deste presente
Nos longes do meu futuro.
Corpo que apalpo
E que enlaço
E que prevejo a perda.
A saudade futura
Me oprime o presente
Que vivo.
973
André Ricardo Aguiar
Ancoradouros
lembrança boa
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
964
André Ricardo Aguiar
Ancoradouros
lembrança boa
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
964
Cláudio Alex
Para Ana
Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
818
Cláudio Alex
Para Ana
Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
818
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
895
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
895
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
895
Cláudio Alex
Metamorfose Blues
O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
751