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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Casa de Deus

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras do pedreiro
Mãos hábeis do carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens a constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrevi As Navegações

Na longa viagem, à ida, de madrugada, quando as cortinas ainda estavam corridas, e a cabine estava ainda na penumbra, ouvi o microfone dizer a meia voz:
— Estamos a sobrevoar a costa do Vietname.
Corri uma cortina e vi um ar fulgurantemente azul e lá em baixo um mar ainda mais azul. E, perto de uma longa costa verde, vi no mar três ilhas de coral azul-escuro, cercadas por lagunas de uma transparência azulada.
Pensei naqueles que ali chegaram sem aviso prévio, sem mapas, ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver.
Escrevi os primeiros poemas simultaneamente a partir da minha imaginação, desse primeiro olhar, e a partir do meu próprio maravilhamento. As portas da Ásia abriram-se naquele preciso azul de que fala Dante no Purgatório:
«Dolce color d’oriental zaffiro».
Mas estavam neste mundo.
Como já disse na revista Prelo, há nas Navegações um intrincado jogo de invocações e ecos mais ou menos explícitos. E também através dos poemas navega a frase em que algures Maria Velho da Costa se refere aos «visionários do visível».
À medida que os poemas iam surgindo ia-se decidindo em mim a vontade de os editar ao lado dos mapas da época, os mapas onde ainda é visível o espanto do olhar inicial, o deslumbramento perante a diferença, perante a multiplicidade do real, a veemência do real mais belo que o imaginado, o maravilhamento perante os coqueiros, os elefantes, as ilhas, os telhados arqueados dos pagodes. E também a revelação de um outro rosto do humano e do sagrado.
Levei algum tempo a encontrar o editor que entendesse o meu desejo. Finalmente recorri à Imprensa Nacional, à qual estou em extremo grata por ter feito a edição que eu sonhei e quis.
Para mim o tema das Navegações não é apenas o feito, a gesta, mas fundamentalmente o olhar, aquilo a que os gregos chamavam aletheia, a desocultação, o descobrimento. Aquele olhar que às vezes está pintado à proa dos barcos.
(Discurso proferido na entrega do Prémio do Centro Português da Associação de Críticos Literários, em 1984.)
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Childe Harold — Canto Quarto

I

Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido

Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto

Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II

Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida

Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim

Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III

À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava

D. Juan foi em Veneza sua máscara

— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão

Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV

Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
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