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Poemas neste tema

Arte

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Luar Para Alphonsus

Hoje peço uma lua diferente
para Ouro Preto
Conceição do Serro
Mariana.

Não venha a lua de Armstrong
pisada, apalpada
analisada em fragmentos pelos geólogos.

Há de ser a lua mágica e pensativa
a lua de Alphonsus
sobre as três cidades de sua vida.

Comemore-se o centenário do poeta
com uma lua de absoluta primeira classe
bem mineira no gelado vapor de julho
bem da Virgem do Carmo do Ribeirão
dos menestréis de serenata
bem simbolista bem medieval.

Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas
inundando as prefeituras
os bancos de investimento de Belo Horizonte
a própria polícia militar
de modo que ninguém se esqueça, ninguém possa alegar:

Eu não sabia
que ele fazia
cem anos.

Mas não é para soltar foguete nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.

É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.

Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos crentes
do amor e da morte, penetrando
o cerne doceamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change…)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.

E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.
O poeta faz cem anos no luar.
05/07/1970
1 804
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Festivais

I — DA CANÇÃO

Vinte canções, depois mais vinte
pedem licença à lei do ruído,
fazem soar, entre estampidos,
sua lição.
O Rio volta para a música
os seus ouvidos triturados.
O som é pobre? A letra, manca?
Não sejamos tão exigentes,
vamos ser francos:
o que se escuta, normalmente
pelas ruas sem pauta e solfa,
é o canto bárbaro de estouros
regougos pipocos roucos
melhor vertidos em quadrinhos:
Auch! Grunt! Grr! Tabuuum!
Plaft! Pow! Waham!
Eis que flui do Maracanãzinho
a melidoçura de uma valsa
de noite brasileira antiga
com beija-flores acordados
por Luciana de olhos marinhos.
E tem uma garota, Evinha,
no país dos diminutivos,
que parece nossa irmãzinha,
de tantos irmãos que irmana,
oi cantiguinha irmanadeira.
Ficam alguns a resmungar,
a debater, a perquirir
como que deve ser o jeito
da canção, mas todos os jeitos,
todas as vozes, acalantos,
alegrias, mensagens, prantos,
soledades, exaltações,
ternurina bobeira lírica,
nostalgias, ânsias futuras,
cotovelo-em-dor, abraço-em-transe
cabem no canto, são o canto.
Se não há festa no momento,
há festival
e entre faixas, flâmulas flamengas
e outras que tais
o povo escolhe, soberaníssimo,
seus ritmos ao tempo e ao vento.
Um sabor de voto percorre
a miniarena do Maraca
e a eleição, em dupla fase,
está mostrando a face clara:
o amor faz seu gol de letra
pelas letras do mundo inteiro:
Love is all, Love is all around
Mon enfant, mon amour
me has enseñado a conocer,
em beijo sideral,
lo que es el amor.
Je t’aime et la Terre est bleue.
(Não será tão bleue quanto queres,
mas há sempre um resto de arco-íris
na íris móbil das mulheres.)
Que importa se a melhor canção
não foi escrita nem sonhada?
Se não palpita em folha branca
e muda garganta?
Eu canto meu possível, neste
possível mundo
e uma alegria sem rataplã,
leve, redonda, sobra num mágico
voo andorinho,
das noites-dias do Maracanãzinho.
04/10/1969
II — DO CINEMA

GENEVIÈVE WAITE
Pálida Joaninha
pálida e loura, muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar mas falta céu em Londres enevoada.

NEDA ARNERIC
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.

BRASILEIRA
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?

O NOME
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro! —
diz num trinado
trêfega trintona.

LIQUIDAÇÃO
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.

TRÁFEGO
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.

VELHA GUARDA
Joseph von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.

MERCADO DE FILMES
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio,
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.

GENEALOGIA
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?

DESAFIO
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
que não será demonstrado.
25/03/1969
866
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
505
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A. B. C. Manuelino

Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.

Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.

Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.

De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.

Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.

Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.

Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.

Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.

Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.

Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.

K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.

Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.

Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.

Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.

O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.

Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.

Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.

Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime

sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,

tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.

Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.

Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?

Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.

Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,

zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 009
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
1 267
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Velho Amor

Mestre Rodrigo, o da DPHAN,
que me perdoe se neste canto
hoje canto a gentil balzaca
de seus encantos e quebrantos,
aquela que, noite após noite,
e dia após dia, inclusive
os domingos — outrora livres,
os feriados — antes gozados,
ele levava consigo como
a laranja leva no gomo
sua doce razão de ser,
ou, senão, como o peixe leva
em seu volteio pelas águas
a arte e ciência de nadar
(no seu caso, é arte de amar).
Oh, como vai nosso Rodrigo
M. F. de Andrade, atento
ao que possa fazer o vento,
intempérie, maldade, acaso,
a seu amor, e como luta,
bravo e sutil, em campo raso,
contra a solércia do inimigo!
Aqui vence um capoeira, adiante
um cartola, e outros, centenas
de investidas contra as serenas
feições e formas do seu love!
Merendava, de repente ouve
guai lancinante: “Aqui-del-rei!”
Corre presto a São Luís, Bahia,
São José ou São João del-Rei,
Parati — ao Brasil inteiro —,
pois essa bela — quem diria —
por toda parte anda e nem sempre
há a devida cortesia
nem o extasiado respeito
à dama que mora em seu peito.
De outro amante assim tão gamado
juro não sei, que este encanece
sem azedume em face à sorte
que tanto exige de ternura
e de defesa contra a morte
— morte, ruína, eterna ameaça
a pairar sobre sua amada.
Em velho paço, úmido beco,
numa igreja desmoronada
ou no pico de serra agreste,
ei-la que recebe a flechada,
o mortal insulto, mas chega
Rodrigo para defendê-la,
salvá-la, de carinho ungi-la.
E como sabe restituir-lhe
o viço perdido, a espontânea
graça do berço, sem disfarce!
“Batom não uses, minha filha,
que teus lábios ao natural
têm o desenho de uma ilha
feita do mais vivo coral.
Tira este excesso de pintura,
fruto de visível engano,
pois a original formosura
mais resplende a cada novo ano.
Nada de truques bossa-nova,
iê-iê-iê e pop-art, querida.
Nunca mais dormirei tranquilo
nem terá gosto minha vida
se adotares um novo estilo.”
Assim diz Rodrigo, e convoca
os mais argutos, credenciados
companheiros para o serviço
do seu bem, e todos acodem
a essa amável intimação:
Por Dom Rodrigo e sua dama!
Por aquela que ele mais ama
e a quem, entre naves e in-fólios,
deu a própria luz de seus olhos.
Alguém pergunta-me: “É paixão
que inflama e passa?” e eu lhe respondo:
Dura há trint’anos bem contados,
hoje completos, tão repletos,
que, pensando bem, são três séculos.
Já que pequei por indiscreto,
darei todo o serviço: o nome
da namorada rodriguiana,
essa imarcescível Roxana,
é a Arte Antiga do Brasil,
que com seu diadema de História
no dia 23 de abril
há trint’anos nele encontrou
o mais fiel e humilde escudeiro,
o que não aspira a maior glória
senão ir à Glória do Outeiro.
São trint’anos de luta vã?
Não e nunca, pois amanhã
todo o país, agradecido,
saberá louvar, por inteiro,
este casal Rodrigo-PHAN.
24/04/1966
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Jornal Em Verso

Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 318
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aqui, Ali

Cinco horas. Livraria São José.
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:

O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.

Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
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