Poemas neste tema
Beleza
Manuel Bandeira
Soneto Parnasiano e Acróstico em Louvor de Helena Oliveira
Houve na Grécia antiga uma beleza rara
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
999
Manuel Bandeira
Mag
Só mesmo um santo
(Que eu nada valho)
Pode pintar
O jeito, o encanto,
Esse carinho
Posto no rosto
(Por Deus foi posto),
Posto no olhar,
No olhar gordinho
De Mag Bicalho.
(Que eu nada valho)
Pode pintar
O jeito, o encanto,
Esse carinho
Posto no rosto
(Por Deus foi posto),
Posto no olhar,
No olhar gordinho
De Mag Bicalho.
1 111
Manuel Bandeira
Rosalina
Rosalina,
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
882
Manuel Bandeira
Sara
Sara de olhar meigo e bom,
Sara de voz meiga e rara,
Sara, discípula cara,
Sara, rosa de Saron.
Sara de voz meiga e rara,
Sara, discípula cara,
Sara, rosa de Saron.
1 317
Manuel Bandeira
Josefina
Em Josefina
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
1 317
Manuel Bandeira
Sílvia Amélia
Tudo quanto é puro e cheira:
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
1 713
Manuel Bandeira
Sílvia Maria
Muitas vezes, de repente,
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente.
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente.
1 082
Manuel Bandeira
Urânia Maria
Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
1 202
Manuel Bandeira
Maria da Glória
Glória, Maria da Glória.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
1 341
Manuel Bandeira
Keats
A thing of beauty is a joy
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.
1 134
Manuel Bandeira
Leda Letícia
Leda Letícia, delícia
Dos olhos de quem a vê,
Triste de quem não a vê,
Pois não sabe o que é a delícia
Maior dos olhos, Letícia!
— Um beijo para você.
Dos olhos de quem a vê,
Triste de quem não a vê,
Pois não sabe o que é a delícia
Maior dos olhos, Letícia!
— Um beijo para você.
963
Manuel Bandeira
Joanita
Não é Joe, não é Joana,
Nem Juanita: é Joanita.
A diferença é pequena,
Mas nessa diferencita,
Que em suma é tão pequenina,
Há a graça que não está dita,
Que é privilégio da dona,
Que já toda a gente cita
E assim talvez não reúna
Nenhuma moça bonita.
Nem Juanita: é Joanita.
A diferença é pequena,
Mas nessa diferencita,
Que em suma é tão pequenina,
Há a graça que não está dita,
Que é privilégio da dona,
Que já toda a gente cita
E assim talvez não reúna
Nenhuma moça bonita.
1 079
Manuel Bandeira
Francisca
Francisca, me dá
Tudo aquilo que
Não gostas em ti.
E eu farei com isso
Um prazer tão grande
— Mais lindo que as nuvens
Da alvorada clara!
Mais doce que a brisa
Da alvorada fresca!
Francisca, Francisca!
Tudo aquilo que
Não gostas em ti.
E eu farei com isso
Um prazer tão grande
— Mais lindo que as nuvens
Da alvorada clara!
Mais doce que a brisa
Da alvorada fresca!
Francisca, Francisca!
911
Manuel Bandeira
John Talbot
John Talbot, John Talbot,
He's not very tall, but
He's a baby so sweet, so nice.
He looks like-a bird
And I never have heard
Of such kind, such lovely blue eyes.
He's not very tall, but
He's a baby so sweet, so nice.
He looks like-a bird
And I never have heard
Of such kind, such lovely blue eyes.
1 131
Manuel Bandeira
Magu
Magu, Magu, maga magra,
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
732
Manuel Bandeira
Ana Margarida
Fosse eu Rubén Darío e mil
Versos faria de seguida
Chamando-te, Ana Margarida,
"La nifia bella del Brasil".
Versos faria de seguida
Chamando-te, Ana Margarida,
"La nifia bella del Brasil".
1 141
Manuel Bandeira
Madrigal Tão Engraçadinho
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.
1 729
Manuel Bandeira
Água-forte
O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.
Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?
No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inúteis
Por duas feridas.
Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.
Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?
No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inúteis
Por duas feridas.
Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.
1 420
Manuel Bandeira
Mulheres
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
1 257
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 003
Manuel Bandeira
Rio de Janeiro
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
1 484
Manuel Bandeira
Rondó dos Cavalinhos
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minh'alma — anoitecendo!
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minh'alma — anoitecendo!
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!
1 604
Manuel Bandeira
Ad Instar Delphini
Teus pés são voluptuosos: é por isso
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?
Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!
Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,
Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?
Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!
Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,
Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!
1 035
Manuel Bandeira
Variações Sérias em Forma de Soneto
Vejo mares tranquilos, que repousam,
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham, mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
Nos recantos dos lábios se lhes pousam
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso âquelas bocas sérias.
Em que pensais, meninas, se repousam
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam
Entrar paragens tristes de tão sérias!
Mas poderei dizer-vos que eles ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias.
Lustrar pecados que jamais repousam?
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham, mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
Nos recantos dos lábios se lhes pousam
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso âquelas bocas sérias.
Em que pensais, meninas, se repousam
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam
Entrar paragens tristes de tão sérias!
Mas poderei dizer-vos que eles ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias.
Lustrar pecados que jamais repousam?
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