Poemas neste tema
Beleza
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 026
Charles Bukowski
O Amante da Flor
nas Montanhas Valquíria
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
1 066
Charles Bukowski
Conheci Um Gênio
conheci um gênio hoje no
trem
tinha uns 6 anos,
sentou-se a meu lado
e enquanto o trem
seguia ao longo da costa
nos deparamos com o oceano
e então ele me olhou
e disse,
não é bonito.
foi a primeira vez em que me dei
conta
disso.
trem
tinha uns 6 anos,
sentou-se a meu lado
e enquanto o trem
seguia ao longo da costa
nos deparamos com o oceano
e então ele me olhou
e disse,
não é bonito.
foi a primeira vez em que me dei
conta
disso.
1 685
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 129
Charles Bukowski
A Bela Jovem Passando Pelo Cemitério –
paro meu carro no semáforo
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
1 184
Charles Bukowski
Garotas de Meia-Calça
estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
1 139
Charles Bukowski
Uma Assassina
a consistência é impressionante:
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros
ela segue de homem em homem
oferecendo carícias
ela fala de amor
então submete os homens
à sua vontade
boca fedorenta
podre por dentro
vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás
sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros
ela segue de homem em homem
oferecendo carícias
ela fala de amor
então submete os homens
à sua vontade
boca fedorenta
podre por dentro
vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás
sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
1 176
Charles Bukowski
A Garota No Banco da Parada de Ônibus
eu a vi quando eu estava na pista da esquerda
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
1 186
Charles Bukowski
Texana
ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.
ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
1 270
Manuel Bandeira
Discurso em Louvor da Aeromoça
Aeromoças, aeromoças,
Que pisais o chão
Com donaire novo,
Não pareceis baixar de céus atuais
Mas dos antigos,
Quando na Grécia os deuses ainda vinham se misturar com os homens.
Píndaro gostaria de cantar o vosso quotidiano heroísmo, tão simples, a vossa graça, a vossa bondade.
No entanto, nada mais moderno do que vós, ó sorrisos bonitos de chegada e partida nos aeroportos.
Quem sem verdade e sem alma vos classificou de aeroviárias
A vós autênticas aeronautas, irmãs intrépidas dos aviadores?
Em nome dos sonhos frustrados de Clícia Zorovich,
Em nohmne da vida frustrada de Clícia
Reivindiquemos para vós a condição de tripulantes,
Ó flores da altura,
Insensíveis à vertigem e ao medo.
Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus e advogada nossa,
Dai um dia do vosso mês,
Cedei o último dia do vosso mês
Para que nele cantemos, louvemos, festejemos, agradeçamos
O quotidiano heroísmo, a graça, a bondade das aeromoças.
Alô, Alô, Aerovias Brasil, Linha Aérea Transcontinental Brasileira, Linhas Aéreas Paulistas, Lóide Aéreo Nacional, Nacional Transportes Aéreos, Panair do Brasil, Real Sociedade Anônima de Transportes Aéreos, Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, Varig, Vasp, Viabrás.
Melhorai a condição da aeromoça!
Poeta Vinícius de Morais, Sunset Boulevard 6.606, Los Ângeles,
Tu, que celebraste com tanto amor as arquivistas,
Vem agora celebrar comigo a aeromoça.
Poeta e futuro senador Augusto Frederico Schmidt,
Escrevei no Correio da Manhã sobre a aeromoça,
Mandai flores da Gávea Pequena
Para a aeromoça.
Passageiros para São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém do Pará,
Pedi todos, a Deus e aos homens,
Pela aeromoça.
Que pisais o chão
Com donaire novo,
Não pareceis baixar de céus atuais
Mas dos antigos,
Quando na Grécia os deuses ainda vinham se misturar com os homens.
Píndaro gostaria de cantar o vosso quotidiano heroísmo, tão simples, a vossa graça, a vossa bondade.
No entanto, nada mais moderno do que vós, ó sorrisos bonitos de chegada e partida nos aeroportos.
Quem sem verdade e sem alma vos classificou de aeroviárias
A vós autênticas aeronautas, irmãs intrépidas dos aviadores?
Em nome dos sonhos frustrados de Clícia Zorovich,
Em nohmne da vida frustrada de Clícia
Reivindiquemos para vós a condição de tripulantes,
Ó flores da altura,
Insensíveis à vertigem e ao medo.
Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus e advogada nossa,
Dai um dia do vosso mês,
Cedei o último dia do vosso mês
Para que nele cantemos, louvemos, festejemos, agradeçamos
O quotidiano heroísmo, a graça, a bondade das aeromoças.
Alô, Alô, Aerovias Brasil, Linha Aérea Transcontinental Brasileira, Linhas Aéreas Paulistas, Lóide Aéreo Nacional, Nacional Transportes Aéreos, Panair do Brasil, Real Sociedade Anônima de Transportes Aéreos, Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, Varig, Vasp, Viabrás.
Melhorai a condição da aeromoça!
Poeta Vinícius de Morais, Sunset Boulevard 6.606, Los Ângeles,
Tu, que celebraste com tanto amor as arquivistas,
Vem agora celebrar comigo a aeromoça.
Poeta e futuro senador Augusto Frederico Schmidt,
Escrevei no Correio da Manhã sobre a aeromoça,
Mandai flores da Gávea Pequena
Para a aeromoça.
Passageiros para São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém do Pará,
Pedi todos, a Deus e aos homens,
Pela aeromoça.
1 132
Manuel Bandeira
Poema Encontrado Por Thiago de Mello no Itinerário de Pasárgada
Vênus luzia sobre nós tão grande
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.
1 203
Charles Bukowski
Sandra
é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
1 361
Manuel Bandeira
Madrigal Epitalâmico
Ady Marinho,
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
1 103
Manuel Bandeira
Carla
Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
659
Manuel Bandeira
Madrigal Muito Fácil
Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
1 421
Manuel Bandeira
Dois Anúncios
I- RONDÓ DE EFEITO
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
1 112
Manuel Bandeira
Imagens de Juiz de Fora
I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
1 107
Manuel Bandeira
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 232
Manuel Bandeira
Edmée
Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
1 143
Manuel Bandeira
Raquel
Raquel, angélica flor
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
1 158
Manuel Bandeira
Helena Maria
Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
1 417
Manuel Bandeira
Mônica Maria
Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
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