Poemas neste tema
Beleza
Eucanaã Ferraz
A LEITORA
Ali está ela, atenta.
Mas, repara: lê
como se levitasse.
O escrito pouco importa.
É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira
que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,
serena, não dá por isso.
Ou mais que:
não lê. Vê
as páginas,
como se da janela
a paisagem
e pousasse os olhos
na orla das páginas
sem saber
onde vão as palavras.
Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,
a árvore
que o livro foi um dia.
Mas, repara: lê
como se levitasse.
O escrito pouco importa.
É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira
que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,
serena, não dá por isso.
Ou mais que:
não lê. Vê
as páginas,
como se da janela
a paisagem
e pousasse os olhos
na orla das páginas
sem saber
onde vão as palavras.
Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,
a árvore
que o livro foi um dia.
676
Eucanaã Ferraz
VERDE-CLARO
Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
656
Manuel Gusmão
O rio divide-te
O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
772
Júlio Maria dos Reis Pereira
Quieta
Passaste
subtil
na tarde quieta.
O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.
Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…
Inúteis tentativas!…
Tudo passou…
Tudo queimou
o tempo vil…
Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
subtil
na tarde quieta.
O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.
Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…
Inúteis tentativas!…
Tudo passou…
Tudo queimou
o tempo vil…
Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
705
Eucanaã Ferraz
VALSA PARA GRAÇA
Abra-se tudo
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração de fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista e
por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália que
as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração de fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista e
por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália que
as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
906
Carlito Azevedo
SOB O DUPLO INCÊNDIO
Sob o duplo incêndio
da lua e do neon,
sobre um parapeito de
mármore, entre duas cortinas
jogadas pela brisa marinha
que ao mesmo tempo às suas
coxas e costas dispensava
um hálito incontínuo,
inundando de rubro o restrito
perímetro de seu jarro em cerâmica
e contrastando imemorial com a
transitoriedade de tudo ali
hotel, amor, dia, noite, carros,
uma flor alheia a símbolos
atingia seu ponto máximo
de beleza.
da lua e do neon,
sobre um parapeito de
mármore, entre duas cortinas
jogadas pela brisa marinha
que ao mesmo tempo às suas
coxas e costas dispensava
um hálito incontínuo,
inundando de rubro o restrito
perímetro de seu jarro em cerâmica
e contrastando imemorial com a
transitoriedade de tudo ali
hotel, amor, dia, noite, carros,
uma flor alheia a símbolos
atingia seu ponto máximo
de beleza.
709
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
722
Carlito Azevedo
ABERTURA
Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
810
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
587
Everardo Norões
a música
Para Isaac Duarte
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
741
Grazia Deledda
Cai uma folha
Cai uma folha que parece
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
845
Maria da Felicidade do Couto Browne
Que triste fim
Que triste fim, belas flores,
N’esse vaso vos espera?
Embora d’ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!
Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
Inda mais acelerar?
Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.
As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.
N’esse vaso vos espera?
Embora d’ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!
Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
Inda mais acelerar?
Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.
As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.
835
Charles Bukowski
Maldito Rimbaud
foi em Santa Fé.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
1 832
Charles Bukowski
Maja Thurup
Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 529
Charles Bukowski
Prato Feito
levei minha amiga à sua última leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
1 124
Charles Bukowski
acordando pra vida como fogo
em grave divindade meu gato
vagueia sem rumo
ele vagueia sem rumo e sem parar
com rabo elétrico e
olhos de
botão de apertar
ele é
vivo e
sedoso e
definitivo como um pé
de ameixa
nem eu nem ele entendemos
catedrais ou
o homem lá fora
molhando seu
gramado
se eu fosse tanto homem
quanto ele é gato - se
existissem homens assim
o mundo poderia
começar
ele pula em cima do sofá
e atravessa
pórticos da minha
admiração.
vagueia sem rumo
ele vagueia sem rumo e sem parar
com rabo elétrico e
olhos de
botão de apertar
ele é
vivo e
sedoso e
definitivo como um pé
de ameixa
nem eu nem ele entendemos
catedrais ou
o homem lá fora
molhando seu
gramado
se eu fosse tanto homem
quanto ele é gato - se
existissem homens assim
o mundo poderia
começar
ele pula em cima do sofá
e atravessa
pórticos da minha
admiração.
1 122
Charles Bukowski
Um Para a Dente-Acavalado
conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades –
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
597
Charles Bukowski
A Travessura da Expiração
eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mão
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
1 079
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 162
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 191
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 188
Charles Bukowski
Texsun
ela é do Texas e pesa
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
1 174
Charles Bukowski
Simples Assim
uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 177
Charles Bukowski
Qual a Função de Um Título?
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
1 058