NAUFRÁGIOS
Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
A VENDA POR DENTRO
Serengas, peixeiras,
vianas e naifas,
facões, lambedeiras
– as lâminas várias;
pregos, parafusos,
quinas, estreitezas
– o roxo mais puro,
a dor mais espessa;
o chumbo de fita,
o chumbo de caça
– o peso da vida,
o grão na garrafa;
os sacos de estopa,
as tais aniagens –
a mais suja estofa
serve de bagagem;
lata de eletrodo
e lata de tinta,
vassouras e rodos
– falta coisa ainda:
no baú de tampa,
açúcar, arroz,
feijão, a sustância
que só vem depois;
volumes, texturas,
cores, formas, cheiros –
nesse caos que açula
o pai é o ordeiro;
nesse labirinto,
a vida a varejo,
a Casa Bahiana
desse João Galego;
os tais viajantes,
suas promissórias,
o dever de ontem
vou saldar agora;
enxada, estrovenga,
pá, grosas e plainas,
as chaves de fenda,
verrumas, chibancas;
espátulas, tornos,
formões, discos, cintas,
cincerros, gangôlos
– falta coisa ainda:
foices, roçadeiras,
mata-pastos, lixas
– em dias de feira
o freguês capricha;
via de mão dupla –
toma lá, dá cá,
o freguês tem culpa?
E quem não terá?
Breu, painço, alpiste,
pacotes, sacolas,
os vários calibres
da mesma bitola;
cartucho, espoleta
(chamada de escorva),
da cinza e da preta
os tipos de pólvoras;
coloratos, bombas,
nitroglicerina,
dinamite assombra
– falta coisa ainda:
grifos, alicates,
torqueses e puas,
mas qual é a chave
da porta da rua?
o mundo das cordas,
nylons, piaçavas,
zinco pesa e corta
a mão destreinada;
anzóis, garateia,
o mundo das linhas,
pequena epopeia
da Venda e da Língua;
segunda a segunda,
domingo não falha,
o balcão circunda
nossa vida e fala;
balança: o ouro a fio,
o metro que finda,
serrotes, barril
– falta coisa ainda.
Quase Gregas - Oitava
Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
Quase Gregas - Sexta
Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
Quase Gregas - Primeira
Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
Quase Gregas - Nona
O fogo foi o menor dos teus roubos,
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
Quase Gregas - Sétima
O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.