NAUFRÁGIOS
Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
Quase Gregas - Oitava
Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
Quase Gregas - Terceira
A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
Quase Gregas - Primeira
Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
Quase Gregas - Nona
O fogo foi o menor dos teus roubos,
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
Quase Gregas - Sétima
O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
A VENDA POR DENTRO
Serengas, peixeiras,
vianas e naifas,
facões, lambedeiras
– as lâminas várias;
pregos, parafusos,
quinas, estreitezas
– o roxo mais puro,
a dor mais espessa;
o chumbo de fita,
o chumbo de caça
– o peso da vida,
o grão na garrafa;
os sacos de estopa,
as tais aniagens –
a mais suja estofa
serve de bagagem;
lata de eletrodo
e lata de tinta,
vassouras e rodos
– falta coisa ainda:
no baú de tampa,
açúcar, arroz,
feijão, a sustância
que só vem depois;
volumes, texturas,
cores, formas, cheiros –
nesse caos que açula
o pai é o ordeiro;
nesse labirinto,
a vida a varejo,
a Casa Bahiana
desse João Galego;
os tais viajantes,
suas promissórias,
o dever de ontem
vou saldar agora;
enxada, estrovenga,
pá, grosas e plainas,
as chaves de fenda,
verrumas, chibancas;
espátulas, tornos,
formões, discos, cintas,
cincerros, gangôlos
– falta coisa ainda:
foices, roçadeiras,
mata-pastos, lixas
– em dias de feira
o freguês capricha;
via de mão dupla –
toma lá, dá cá,
o freguês tem culpa?
E quem não terá?
Breu, painço, alpiste,
pacotes, sacolas,
os vários calibres
da mesma bitola;
cartucho, espoleta
(chamada de escorva),
da cinza e da preta
os tipos de pólvoras;
coloratos, bombas,
nitroglicerina,
dinamite assombra
– falta coisa ainda:
grifos, alicates,
torqueses e puas,
mas qual é a chave
da porta da rua?
o mundo das cordas,
nylons, piaçavas,
zinco pesa e corta
a mão destreinada;
anzóis, garateia,
o mundo das linhas,
pequena epopeia
da Venda e da Língua;
segunda a segunda,
domingo não falha,
o balcão circunda
nossa vida e fala;
balança: o ouro a fio,
o metro que finda,
serrotes, barril
– falta coisa ainda.
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.