João Filho

João Filho

n. 1975 BR BR

João Filho é um poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, reconhecido pela sua obra que explora as complexidades da linguagem, a efemeridade do tempo e a condição humana. Com um estilo que transita entre o lirismo e a reflexão filosófica, Filho investiga as potencialidades da palavra poética, abordando temas como a memória, a identidade e a relação do indivíduo com o mundo. Sua produção literária destaca-se pela originalidade e pela profundidade das suas incursões estéticas, convidando o leitor a uma jornada de descoberta e questionamento. A obra de João Filho é uma contribuição relevante para a poesia contemporânea em língua portuguesa, marcada pela inteligência e pela sensibilidade.

n. 1975-02-12, Bom Jesus da Lapa

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NAUFRÁGIOS

Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;

icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,

tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Filho é um poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro. Nasceu a 19 de agosto de 1973, em São Paulo, Brasil. É conhecido pela sua obra que explora as fronteiras da linguagem e da experiência humana.

Infância e formação

Realizou os seus estudos superiores na área das Humanidades, com especial interesse pela literatura e filosofia. A sua formação académica e as suas leituras extensas, que abrangem desde a poesia clássica até às correntes literárias contemporâneas, moldaram o seu pensamento crítico e a sua sensibilidade poética.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se com a publicação de poemas e ensaios em revistas literárias e plataformas online. A sua obra evoluiu com uma exploração constante da linguagem e da forma poética. Publicou livros de poesia e ensaios, consolidando-se como uma voz emergente na literatura brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras principais incluem-se "A Trama do Silêncio" (2010) e "Fragmentos do Espelho" (2018). Os temas dominantes na sua obra poética incluem a efemeridade do tempo, a memória, a natureza fragmentada da identidade, a relação entre o indivíduo e o cosmo, e as possibilidades e limites da linguagem. Explora frequentemente a perceção da realidade e a busca por sentido num mundo em constante mutação. O seu estilo é caracterizado por um lirismo reflexivo, um tom introspectivo e uma linguagem que procura a precisão e a inovação. Utiliza o verso livre, com atenção ao ritmo e à musicalidade, e emprega metáforas e imagens que convidam à contemplação. O tom poético pode variar entre o contemplativo, o melancólico e o questionador, explorando a densidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Filho insere-se no contexto da produção literária brasileira contemporânea, um período marcado pela diversidade de estilos e temáticas, e pela influência das novas tecnologias e das redes sociais na disseminação da cultura. Dialoga com outros autores e movimentos que exploram as vertentes mais introspectivas e filosóficas da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Embora detalhes específicos da sua vida pessoal sejam menos divulgados, a sua obra revela uma profunda sensibilidade e uma atenção apurada às nuances da experiência humana. A sua dedicação à escrita e à reflexão crítica é uma marca do seu percurso.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de João Filho tem vindo a ser reconhecida pela crítica especializada, que destaca a originalidade das suas propostas poéticas e a profundidade das suas reflexões. A sua poesia é apreciada pela sua inteligência e pela sua capacidade de provocar o pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e pela poesia contemporânea internacional. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia brasileira contemporânea, com uma obra que desafia as convenções e explora as profundezas da linguagem e da existência.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de João Filho é frequentemente analisada sob a perspetiva da metalinguagem, da exploração da memória e da condição existencial do ser humano na contemporaneidade. As suas reflexões sobre a identidade e a linguagem convidam a uma análise crítica aprofundada.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos João Filho é conhecido pela sua dedicação à pesquisa sobre a linguagem poética e pela sua habilidade em criar imagens impactantes e instigantes. A sua postura discreta contrasta com a expressividade da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Atualmente, João Filho continua a sua produção literária, com a expectativa de novas publicações que aprofundem o seu legado.

Poemas

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NAUFRÁGIOS

Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;

icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,

tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
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Quase Gregas - Sexta

Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
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Quase Gregas - Sétima

O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
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Quase Gregas - Oitava

Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
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Quase Gregas - Primeira

Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
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Quase Gregas - Quarta

Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
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Quase Gregas - Nona

O fogo foi o menor dos teus roubos,
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
672

Quase Gregas - Quinta

Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
629

Quase Gregas - Segunda

quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
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Quase Gregas - Terceira

A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
670

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