Lista de Poemas

ABERTURA

Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
785

NA NOITE FÍSICA

(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)


A luz do quarto apagada,na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
761

BANHISTA

Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
798

SOB O DUPLO INCÊNDIO

Sob o duplo incêndio
da lua e do neon,

sobre um parapeito de
mármore, entre duas cortinas

jogadas pela brisa marinha
que ao mesmo tempo às suas

coxas e costas dispensava
um hálito incontínuo,

inundando de rubro o restrito
perímetro de seu jarro em cerâmica

e contrastando imemorial com a
transitoriedade de tudo ali

hotel, amor, dia, noite, carros,
uma flor alheia a símbolos

atingia seu ponto máximo
de beleza.
687

NOVA PASSANTE

1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
       te dedicaria
um concerto
            para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
703

RÓI

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
720

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Carlito Azevedo é um poeta, tradutor e editor brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro.

Infância e formação

Ainda não há informações detalhadas sobre sua infância e formação.

Percurso literário

Carlito Azevedo iniciou sua trajetória na poesia com uma obra que se destaca pela concisão e pela força imagética. Além de poeta, é reconhecido por sua atuação como tradutor e editor, o que demonstra um envolvimento multifacetado com o universo literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua poesia explora temas recorrentes como a memória, o cotidiano, a efemeridade do tempo e a complexidade das relações humanas. O estilo de Azevedo caracteriza-se por uma linguagem direta, mas carregada de sugestão, com um tom que transita entre a melancolia e a ironia. A precisão na escolha das palavras e a economia verbal são marcas de seu lirismo. Suas obras poéticas incluem títulos que refletem essa estética. Como tradutor, tem um trabalho relevante, trazendo para o público brasileiro obras de autores estrangeiros.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlito Azevedo insere-se no cenário da poesia brasileira contemporânea, dialogando com as tendências e questões estéticas de seu tempo. Sua atuação como editor também contribui para a formação e difusão de novas vozes poéticas no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre sua vida pessoal ainda não são amplamente divulgadas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sua obra tem sido gradualmente reconhecida no meio literário brasileiro pela originalidade e pela qualidade de sua escrita poética. A atuação como tradutor e editor também lhe confere um lugar de destaque.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Carlito Azevedo podem ser percebidas em sua abordagem temática e estilística, que dialoga com a tradição poética, mas a reinterpreta de forma pessoal. Seu legado se constrói tanto na sua própria obra poética quanto na contribuição para a circulação de ideias e textos literários através de seu trabalho editorial e de tradução.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Carlito Azevedo convida a reflexões sobre a natureza da experiência humana, a fragilidade da memória e a busca por sentido em um mundo em constante transformação. Sua linguagem convida a múltiplas leituras, explorando a ambiguidade e a profundidade do sentir.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ainda não há informações disponíveis sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos de sua vida ou obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Carlito Azevedo está vivo e em plena atividade literária.