Everardo Norões

Everardo Norões

n. 1944 BR BR

Everardo Norões foi um poeta brasileiro, conhecido por sua obra marcada pela intensidade lírica e pela exploração profunda de temas existenciais e sociais. Sua poesia se distingue pela força expressiva, pela sonoridade e pela reflexão sobre a condição humana em um contexto de transformações. A obra de Norões é um convite à contemplação da vida, do amor, da política e da efemeridade, utilizando uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito. É um autor cuja escrita permanece relevante pela sua capacidade de tocar em questões universais com uma voz autêntica.

n. 1944-03-20, Crato

7 962 Visualizações

A RUA DO PADRE INGLÊS

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.

Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.

(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).

De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.

Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...

(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).

O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)

Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.

(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)

Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.

{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}

São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...

O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.

O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...

(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).

Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Everardo Norões foi um poeta brasileiro, nascido em Pernambuco. Não há registos públicos de pseudónimos ou heterónimos utilizados por ele. A sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita principal era o português.

Infância e formação

Everardo Norões teve uma infância e formação marcadas pela vivência no Nordeste brasileiro, um contexto cultural rico que, sem dúvida, influenciou a sua visão de mundo e a sua sensibilidade poética. Detalhes específicos sobre a sua educação formal ou autodidatismo não são amplamente divulgados, mas a sua obra demonstra um repertório cultural vasto.

Percurso literário

O percurso literário de Everardo Norões iniciou-se com uma produção poética que rapidamente o destacou pela sua força e originalidade. Ao longo da sua carreira, Norões explorou diferentes facetas da experiência humana, desde o lirismo mais íntimo até à crônica social e política, evoluindo estilisticamente sem perder a sua identidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Everardo Norões abrange uma vasta gama de temas, incluindo o amor, a morte, a memória, a política, a natureza e a própria poesia. O seu estilo é caracterizado pela intensidade lírica, pela musicalidade dos versos e por uma linguagem potente, que frequentemente mescla o coloquial com o erudito. Utiliza metáforas e imagens fortes, com um tom que pode variar do elegíaco ao irónico e combativo. Norões é reconhecido por introduzir uma voz autêntica e engajada na poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Everardo Norões viveu e produziu em um período significativo da história brasileira, marcado por transformações sociais e políticas. A sua obra reflete essa realidade, dialogando com os acontecimentos do seu tempo e com os debates intelectuais e culturais. Pertenceu a uma geração de poetas que buscava reinventar a poesia brasileira, conectando-a com as urgências do presente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Everardo Norões, como relações afetivas, familiares, amizades, profissões paralelas ou crenças, não são amplamente documentadas em fontes públicas, embora se saiba do seu envolvimento com o meio cultural e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Everardo Norões é valorizada pela crítica e por leitores que apreciam a poesia de forte cunho lírico e reflexivo. Embora o reconhecimento em larga escala possa ter sido gradual, a sua contribuição para a poesia brasileira é inegável, consolidando-se como um autor de referência.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Everardo Norões foi influenciado por grandes nomes da poesia brasileira e universal. O seu legado reside na originalidade da sua voz e na profundidade com que abordou temas universais e questões da sua época, influenciando gerações posteriores de poetas pela sua coragem temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Everardo Norões oferece um campo fértil para análise crítica, explorando a complexidade das emoções humanas, as tensões sociais e políticas, e a própria natureza da existência. A sua obra pode ser interpretada como um testemunho poético de seu tempo e um convite à reflexão sobre a vida em suas diversas manifestações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da personalidade e obra de Everardo Norões, bem como episódios curiosos da sua vida, não são amplamente documentados em fontes acessíveis ao público geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Detalhes sobre as circunstâncias da morte de Everardo Norões e possíveis publicações póstumas não são amplamente documentados em fontes acessíveis.

Poemas

10

A RUA DO PADRE INGLÊS

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.

Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.

(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).

De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.

Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...

(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).

O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)

Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.

(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)

Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.

{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}

São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...

O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.

O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...

(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).

Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
770

Café

Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.

(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).

Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.

De onde vem o grão
dessa saudade?

Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.

Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
659

TRISTÃO

Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
             ele não se decompôs.
                         Pedro Nava (Baú de Ossos)

As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
679

TUA FALA

ua fala parecia
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.

(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.

Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.

(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).

               De A Rua do Padre Inglês (2006)
713

a música

Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
750

OS ENCOURADOS

A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?

Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?

E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.

Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.

Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?

A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.

E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.


               De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
630

pampas

Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
724

fractais

Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).

A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
676

Corpo

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
643

SONETO I

Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,

penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.

Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.

Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
752

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.