Poemas neste tema
Beleza
Sophia de Mello Breyner Andresen
Retrato de Mulher
Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade
1 775
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Navegámos Para Oriente
Navegámos para Oriente —
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
1 293
Sophia de Mello Breyner Andresen
Museu
Aqui — como convém aos mortais —
Tudo é divino
E a pintura embriaga mais
Que o próprio vinho
Tudo é divino
E a pintura embriaga mais
Que o próprio vinho
1 320
Sophia de Mello Breyner Andresen
Projecto I
O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto
1 195
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eras Bela
Eras bela como a pintura de Mantegna
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
1 229
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
1 272
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Rapariga E a Praia
Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
1 304
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
1 240
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Navegação Abstracta
Navegação abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
1 080
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. (Antinoos)
Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
1 107
Sophia de Mello Breyner Andresen
Reino
Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa
1 310
Sophia de Mello Breyner Andresen
Marinheiro Real
Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
1 770
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. o Encontro
Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
1 771
Sophia de Mello Breyner Andresen
Gruta do Leão
Para além da terra pobre e desflorida
Mostra-me o mar a gruta roxa e rouca
Feita de puro interior
E povoada
De cava ressonância e sombra e brilho
Mostra-me o mar a gruta roxa e rouca
Feita de puro interior
E povoada
De cava ressonância e sombra e brilho
1 306
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
1 688
Sophia de Mello Breyner Andresen
Túmulo Nos Astros
Como és belo
Cercado de sete anéis como Saturno
Fechado no teu fogo mais secreto.
Como és belo
No coração do silêncio ilimitado,
Imutável e perfeito
De pura escuridão aureolado.
Já nenhum rosto mora no teu pensamento
De nenhum peso os teus gestos se alimentam
Nenhum acaso desvia
O teu olhar atento.
Cercado de sete anéis como Saturno
Fechado no teu fogo mais secreto.
Como és belo
No coração do silêncio ilimitado,
Imutável e perfeito
De pura escuridão aureolado.
Já nenhum rosto mora no teu pensamento
De nenhum peso os teus gestos se alimentam
Nenhum acaso desvia
O teu olhar atento.
1 279
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Esperança Mora
No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 575
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sobre Um Desenho de Miguel Ângelo
Do caos humano, confuso e hostil,
Sobe milagroso o teu perfil
O mais claro ensinamento.
O olhar procura
O mais profundo fundo
O mais longínquo além.
O nariz sente e respira
Cada exalação da vida
E a boca renuncia.
Sobe milagroso o teu perfil
O mais claro ensinamento.
O olhar procura
O mais profundo fundo
O mais longínquo além.
O nariz sente e respira
Cada exalação da vida
E a boca renuncia.
1 073
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alexandre da Macedónia
A perfeição, a eternidade, a plenitude
Escorriam da sagrada juventude
Dos teus membros.
A luz bailava em roda dos teus passos
E a ardente palidez da tua divindade
Ergueu-se na pureza dos espaços.
Estreitamente os teus dedos
Para lá das vagas ânsias, incertezas e segredos
Prendiam os dedos da sorte.
E o destino que em nós é caos e luto,
Era em ti verdade e harmonia
Caminho puro e absoluto.
Escorriam da sagrada juventude
Dos teus membros.
A luz bailava em roda dos teus passos
E a ardente palidez da tua divindade
Ergueu-se na pureza dos espaços.
Estreitamente os teus dedos
Para lá das vagas ânsias, incertezas e segredos
Prendiam os dedos da sorte.
E o destino que em nós é caos e luto,
Era em ti verdade e harmonia
Caminho puro e absoluto.
1 402
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Estátuas
Para as estátuas puras e concretas
Existe o movimento da manhã.
Tomam a luz nos dedos oferecidos
E o arco do céu saúda a sua face.
A claridade veste os seus vestidos
E nenhum gesto nelas é perdido.
As madrugadas escorrem dos seus ombros
E o vento poisa as tardes nos seus braços.
Existe o movimento da manhã.
Tomam a luz nos dedos oferecidos
E o arco do céu saúda a sua face.
A claridade veste os seus vestidos
E nenhum gesto nelas é perdido.
As madrugadas escorrem dos seus ombros
E o vento poisa as tardes nos seus braços.
1 200
Sophia de Mello Breyner Andresen
Rio
Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
1 532
Adélia Prado
Esplendores
Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 260
Adélia Prado
Inverno
A árvore na montanha
me chama a ver do alto
o sol derreter a bruma.
Sob o que parece um oceano cinzento
não se enxerga o vergel, os bois.
Lanternas criam halos maravilhosos,
de um navio parado em alto-mar.
O onipresente vapor evanesce as imagens,
exsuda, pela respiração do criador das coisas,
a beleza linfática do mundo.
Provada no corpo é fria.
Na alma expandida é gozo.
me chama a ver do alto
o sol derreter a bruma.
Sob o que parece um oceano cinzento
não se enxerga o vergel, os bois.
Lanternas criam halos maravilhosos,
de um navio parado em alto-mar.
O onipresente vapor evanesce as imagens,
exsuda, pela respiração do criador das coisas,
a beleza linfática do mundo.
Provada no corpo é fria.
Na alma expandida é gozo.
1 296
Adélia Prado
A Madrugada Suspensa
A fria estação recobre a terra
com a pele dos sonhos.
Insinuado apenas, tudo se equivale
na maciez cinzenta.
Nada é voraz.
A nevoenta cortina trata a luz com brandura,
quanto mais baça, tanto mais eterno
o halo reflexo no vapor suspenso.
Sorvo encolhida a gélida beleza,
meu respirar transvaza convertido,
ele também, em pura e só neblina.
com a pele dos sonhos.
Insinuado apenas, tudo se equivale
na maciez cinzenta.
Nada é voraz.
A nevoenta cortina trata a luz com brandura,
quanto mais baça, tanto mais eterno
o halo reflexo no vapor suspenso.
Sorvo encolhida a gélida beleza,
meu respirar transvaza convertido,
ele também, em pura e só neblina.
1 120