Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
Manhã - XIV
Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
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Martha Medeiros
o sentido da vida
o sentido da vida
é o que a gente sente
por um filho
que é a cara da gente
por um trabalho
que ocupa a mente
por um amor
que nos deixa doente
pena que isso não baste
por mais que se tente
é o que a gente sente
por um filho
que é a cara da gente
por um trabalho
que ocupa a mente
por um amor
que nos deixa doente
pena que isso não baste
por mais que se tente
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Vinicius de Moraes
Soneto No Sessentenário de Rubem Braga
Itaguá
Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos...
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.
São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.
São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos
Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos...
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!
Sessenta anos não são sessenta dias
Nem sessenta minutos, nem segundos...
Não são frações de tempo, são fecundos
Zodíacos, em penas e alegrias.
São sessenta cometas oriundos
Da infinita galáxia, nas sombrias
Paragens onde Deus resgata mundos
Desse caos sideral de estrelas-guias.
São sessenta caminhos resumidos
Num só; sessenta saltos que se tenta
Na direção de sóis desconhecidos
Em que a busca a si mesma se contenta
Sem saber que só encontra tempos idos...
Não são seis, nem seiscentos: são sessenta!
1 121
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José Saramago
Poema Seco
Quero escusado e seco este poema,
Breve estalar de caule remordido
Ou ranger de sobrado onde não danço.
Quero passar além com olhos baixos,
Amassados de mágoa e de silêncio,
Porque tudo está dito e já me canso.
Breve estalar de caule remordido
Ou ranger de sobrado onde não danço.
Quero passar além com olhos baixos,
Amassados de mágoa e de silêncio,
Porque tudo está dito e já me canso.
1 357
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Vinicius de Moraes
Minha Mãe
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
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José Saramago
Parábola
Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
1 470
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Pablo Neruda
Tarde - LXIX
Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
1 273
1
Martha Medeiros
envelhecer, quem sabe
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só
não seja assim tão desastroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só
1 227
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José Saramago
Mitologia
Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
1 299
1
José Saramago
Tenho Um Irmão Siamês
Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)
Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)
Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)
Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)
Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)
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Vinicius de Moraes
Mensagem À Poesia
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
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Pablo Neruda
Manhã - VI
Nos bosques perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino fendido ou um coração cortado.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério
como se me buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aroma errante.
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino fendido ou um coração cortado.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério
como se me buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aroma errante.
1 246
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Naquele Tempo
Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
1 686
1
Stela do Patrocínio
Eu sobrevivi do nada
Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
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Vinicius de Moraes
O Incriado
Distantes estão os caminhos que vão para o Tempo — outro luar eu vi
passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna
espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se
amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como as vozes dos campos
moribundos.
Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Nada há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.
Nem plácidas visões restam aos olhos — só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só em busca de Deus.
Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar
batendo
No entanto como está longe o mar e como é dura a terra sob mim...
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza
E que, voando, caem, pequenos e abençoados, nos parques onde a
primavera é eterna.
Na memória cruel vinte anos seguem a vinte anos na única paisagem
humana
Longe do homem os desertos continuam impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem árvores estranhamente calmas.
Ai, muito andei e em vão... rios enganosos conduziram meu corpo a todas
as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem-aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar eu repousei, quando minha boca ficou
sedenta eu bebi
Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.
Longe está o espaço onde existem os grandes voos e onde a música vibra
solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes voos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam dormindo à
madrugada.
Terrível é a dor que lança o poeta prisioneiro à suprema miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrilegamente a carne
Mas boa é a companheira errante que traz o esquecimento de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.
Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura verde eu me
debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores — são jovens que o
eterno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia fugiu como o
perfume da flor morta.
Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada conto e nada
valho.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode
sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou.
De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele descansa nos
sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...
Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre mim, me olhando...
Eu caminhando... Sobre o meu corpo as árvores passando...
Quem morreu se estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei que estou vivo
porque sofro.
Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado e nada
posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos olhos e das mãos
Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando a minha boca.
Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria a mão sobre o
meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!
Às vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
Num sopro de suspensão a beleza passa e beija a fronte do homem parado
E então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa,
Que palpita no ar fremente e e envolve todos os gritos num só grito.
Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho percorrido.
Todos os momentos estão passando e todos os momentos estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem cerra-se de inquietude
No entanto ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das rosas recendendo.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória
Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam — nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passando, passando, passando...
passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna
espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se
amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como as vozes dos campos
moribundos.
Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Nada há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.
Nem plácidas visões restam aos olhos — só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só em busca de Deus.
Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar
batendo
No entanto como está longe o mar e como é dura a terra sob mim...
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza
E que, voando, caem, pequenos e abençoados, nos parques onde a
primavera é eterna.
Na memória cruel vinte anos seguem a vinte anos na única paisagem
humana
Longe do homem os desertos continuam impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem árvores estranhamente calmas.
Ai, muito andei e em vão... rios enganosos conduziram meu corpo a todas
as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem-aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar eu repousei, quando minha boca ficou
sedenta eu bebi
Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.
Longe está o espaço onde existem os grandes voos e onde a música vibra
solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes voos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam dormindo à
madrugada.
Terrível é a dor que lança o poeta prisioneiro à suprema miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrilegamente a carne
Mas boa é a companheira errante que traz o esquecimento de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.
Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura verde eu me
debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores — são jovens que o
eterno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia fugiu como o
perfume da flor morta.
Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada conto e nada
valho.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode
sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou.
De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele descansa nos
sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...
Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre mim, me olhando...
Eu caminhando... Sobre o meu corpo as árvores passando...
Quem morreu se estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei que estou vivo
porque sofro.
Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado e nada
posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos olhos e das mãos
Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando a minha boca.
Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria a mão sobre o
meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!
Às vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
Num sopro de suspensão a beleza passa e beija a fronte do homem parado
E então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa,
Que palpita no ar fremente e e envolve todos os gritos num só grito.
Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho percorrido.
Todos os momentos estão passando e todos os momentos estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem cerra-se de inquietude
No entanto ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das rosas recendendo.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória
Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam — nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passando, passando, passando...
1 266
1
José Saramago
De Paz E de Guerra
Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
2 613
1
Pablo Neruda
12
Para meu coração basta teu peito,
para a tua liberdade, minhas asas.
Da minha boca chegará até o céu
o que estava adormecido em tua alma.
Está em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho sobre as corolas.
Cavava o horizonte a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que cantavas com o vento
como cantam os pinheiros e os mastros.
E como eles és alta e taciturna.
E entristeces de rojo, como as viagens.
Anfitriã como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e ora emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
para a tua liberdade, minhas asas.
Da minha boca chegará até o céu
o que estava adormecido em tua alma.
Está em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho sobre as corolas.
Cavava o horizonte a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que cantavas com o vento
como cantam os pinheiros e os mastros.
E como eles és alta e taciturna.
E entristeces de rojo, como as viagens.
Anfitriã como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e ora emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
1 461
1
Vinicius de Moraes
Soneto Sentimental À Cidade de São Paulo
Ó cidade tão lírica e tão fria!
Mercenária, que importa - basta! - importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia
Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e fugidia.
Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera
Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?
Mercenária, que importa - basta! - importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia
Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e fugidia.
Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera
Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?
1 394
1
Martha Medeiros
toda mulher tem um homem que se foi
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu pra jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu pra jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
1 221
1
José Saramago
Antes Calados
E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
1 127
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oblíquo Setembro de Equinócio Tarde
Que se alonga e depara e vê e mira
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido
Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido
Pura paixão que não conhece olvido
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido
Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido
Pura paixão que não conhece olvido
1 307
1
Vinicius de Moraes
A Você, Com Amor
O amor é o murmúrio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...
O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...
E a música inaudível...
O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...
O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...
O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...
E a música inaudível...
O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...
O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.
1 394
1
Pablo Neruda
Diálogo Amoroso
Voz de Murieta:
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
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José Saramago
Não Me Peçam Razões
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
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