Poemas neste tema
Alma
Nuno Júdice
Solidão
Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 022
1
Ruy Belo
Em legitima defesa
Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 28 e 29 | Editorial Presença Lda., 1981
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 28 e 29 | Editorial Presença Lda., 1981
2 085
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ítaca
Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 572
1
Ruy Belo
Um prato de sopa
Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
1 681
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Gregos
Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante
Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga
A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo
O meandro do rio o fogo solene da montanha
E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre
Emergiam em consciência que se vê
Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia —
Esta existência desejávamos para nós próprios homens
Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem
O estar-ser-inteiro inicial das coisas —
Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece
E também à treva interior por que somos habitados
E dentro da qual navega indicível o brilho
Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga
A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo
O meandro do rio o fogo solene da montanha
E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre
Emergiam em consciência que se vê
Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia —
Esta existência desejávamos para nós próprios homens
Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem
O estar-ser-inteiro inicial das coisas —
Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece
E também à treva interior por que somos habitados
E dentro da qual navega indicível o brilho
3 182
1
Ruy Belo
Orla marítima
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 168 | Editorial Presença Lda., 1984
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 168 | Editorial Presença Lda., 1984
3 713
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Antinoos
Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida
Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei
Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida
Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei
Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra
2 410
1
Ruy Belo
Aquele grande Rio Eufrates
"E o sexto anjo derramou a sua taça
sobre aquele grande rio Eufrates..."
Apocalipse XVI, 12
Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Longe de nós - que fará ele aqui? - o pensamento
de um dia deixarmos atrás de nós um corpo
lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e a rebentar?
Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas
como se os mortos não pudessem voltar a morrer
o que afinal a gente vê todos os dias
Escondemos-lhes os ossos. Algum de nós era digno
de saber o que resta do seu grande segredo?
Não queiras levantar agora a capa da terra
só para os veres dormir seu vasto sono horizontal
Trincamos tudo: o pão que nos pertence o pão alheio
e o mais que os nossos dentes encontrem à disposição
Nem nos perturba essa pesada dignidade
de recebermos de pé em plena face as estações
e de saudarmos à passagem os homens e o tempo
Precisámos que alguém nos ensinasse onde olhar as mulheres
de corpos excessivos para algumas pás de terra
e que lugar no coração lhes dar?
Olhai que bem nos fica andar na rua
pelo braço de alguma ideia respeitável
ousada sem excessos devidamente garantida
Dispomos de nomes para todas as coisas conhecemos
todos os cheiros todas as promessas
temos na vida uma situação privilegiada
É ver quem ao morrer põe mais anúncios no jornal
como se de outras tantas vidas dispusesse
ou pudesse morrer um pouco mais em cada uma delas
Se até há entre nós quem faça versos
com todas as licenças necessárias
Ao de cimo da pele - da pele sim minha senhora -
ainda temos bolsos e canetas nos bolsos
e muitos outros pequeninos objectos
e soluções nos bolsos para a vida e para a morte
Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Como vagas rebentam nesta vida as gerações
Por elas pelas palavras que não foram proferidas
pelos mortos na estrada pelo preto
que acaba de saltar dois metros ou mais em altura
por quem à despedida quis ouvir a nona sinfonia de beethoven
pelas mulheres de leopoldville pelos directores gerais interinos
pelo sexo que trouxe até nós que fomos no princípio
apenas dois
nossos primeiros pais
pelos excessos do estio que obrigam os poetas
a escrever em julho os poemas de natal
ou na páscoa seguinte aqueles que celebram o pai morto
imolando às imagens o que fora delas pereceu
por todo o sangue justo derramado na terra
depois de abei mesmo depois muito depois de zacarias
filho de baraquias morto entre o templo e o altar
oh como é digno de louvor o velho que regressa
na hora de partir aos seus gestos mais simples
ou as crianças que ainda se olham cheias de surpresa
no corpo recentemente adquirido
Oh como é doce para mim saudar-te
a certas horas quando a chuva cai
e me é dado adivinhar-te por trás das palavras
ditas apenas para orientar o coração
Vejo-te então
preparada e tensa como um arco
e a inclinação com que solícita me atendes acompanha
a forma leve e sinuosa do que temos a dizer
Tão fresco é o teu riso
que quase te direi recém-nascida
Enquanto eu mordo contra o muro a cúpula do riso
inclinas tanto os vagarosos braços
que a tarde desce sensivelmente por eles
até configurar-se em tuas mãos
E o teu olhar está tanto nos teus olhos
profundamente abertos neste vale de lágrimas
que em duas gotas negras ele cai
nas minhas faces mortais
Num sobressalto de pálpebras
abriu-se o céu de um poema
Dia a dia mal o sol subir pela manhã acima
e alcançar conveniente altura
escreverei em tua honra esse poema a que a tarde virá pôr
um ponto final tão rubro como um poente
e chamar-lhe-ei o poema de um dia
Todos os dias são poucos para chorar o homem
embora ele chame em seu auxílio as árvores
ou se descubra sempre que a tarde passar
O homem que depois do poema não diga
«agora já posso morrer tranquilo» nem deseje
ideias regulares como as horas de trabalho
na paz relativa das derrotas adiadas
Seja quem for que nunca peça
«depressa um carro o mais descapotável possível»
Deixará o poeta anónimas algumas
das palavras que deus lhe pôs na boca
ou esses longos versos onde cabe a emoção?
Quantas vezes nesse obscuro instinto de escrever
o poema terá sido para ele
mais que o lugar onde ia ver-se livre
das palavras que o sobrecarregavam?
Estará ele disposto a abandonar o requintado gosto
que têm as leituras junto ao vão da janela?
Senhores dos planos de urbanização
responsáveis pela paisagem
cuidado com o poeta na cidade
Não há nem pode crescer na rua
árvore mais inútil que a palavra do poeta
Há salas espaçosas em muitas das palavras
Quantos de nós não me dirão andam na vida
seriamente à procura de um nome?
O mal deve afinal estar em sermos
quem somos e não querermos sê-lo
Nascemos e morremos e nada acontece
da primeira à última palavra sempre que entre nós falamos
Não há ideia que não puxemos para de baixo do sol
esse sol que de muitos cresta a pele
nas exóticas praias das antilhas
entre palavras postas onde fora o coração
Por vezes nem coração nem palavras sequer
apenas mornos sentimentos como gatos
bons para nos levar a atravessar o dia
Alguém conseguirá ser mais prudente que nós?
Houve algum sábado em que não deixássemos
a bandeira da repartição a meia haste por aqueles
que haviam de morrer só no domingo?
Fazemos colecção de impulsos ternos
e a vida sobre a terra é uma questão de tempo
Demos outrora um nome a cada coisa
houvemo-las assim por nossas e opusemo-las
dentro de nós à natureza exterior
Em cada telefone levantámos uma esperança
Passámos nos vidros das montras das cidades
e o breve tempo que passámos ficámos
Quando o silêncio um dia nos unir
então seremos todos nós palavras
Ainda hoje há muitos que procuram paz
essa paz que se sente ao descer na estaçãozinha de província
curiosamente chamada emaús
Entremos nos correios ao domingo que talvez
certo postal nos leve a dar por ganho o dia
A verdade a verdade o que é a verdade?
Banhamo-nos às vezes num olhar
que faz lembrar aquele antigo rio
quando não era ainda o chão o necessário porto
onde vão dar as coisas os seres e as folhas
e o homem depois de morto
Mas permanentemente não nos é possível
(um dia outra vez o princípio
os telefones tocarão interminavelmente
e correrão sem fim todas as fontes
pelas imensas manhãs de amanhã)
ter a cidade de Jerusalém na frente
ó meu senhor da face persistente
Inútil nos seria buscar quem aquém do rio
de todo em nós jogasse aquela vida
que plenamente existe só na nossa voz
A verdade meu deus é a cidade
que nasce onde e porque os teus
olhos e os meus após chorar se olharam
E vejo-te mulher sair dos velhos dias
e ajoelhar numa nuvem de névoa com os teus joelhos puros
sobre a nossa miséria de homens de medos
e o nosso ser caído e pelo ferro corroído
erguê-lo à altura do teu filho
que nem sequer pode estender os braços
contra os nossos templos domésticos
e até lhe escondemos a face entre paredes
E procuras no túnel da grande cidade
esse teu filho perdido há já três dias
entre as minhas palavras
e não o podes encontrar porque elas têm
tantos ombros pelo menos como a multidão
e porque eu para ti até aqui não tinha mais
que algumas palavras primordiais
tontas palavras pedidas emprestadas
às modernas doutrinas estéticas
Dois braços dois olhos vinte dedos na melhor das hipóteses
eis os limites do sonho do homem
Sentado deitado de joelhos de pé
eis as suas possíveis atitudes
E em caso de necessidade
é o mesmo o local onde se irá sentar
Ah a grande solidariedade que nos vem da mesma carne
de termos iguais braços e de abrirmos
os mesmos olhos sobre os telhados e a vida
o mesmo ouvido para ouvirmos o trovão
na noite em que se isolam todas as palavras
O que nós temos é principalmente sono
Planetas sem luz própria ilumina-nos
pontualmente a aurora. Novos passos
levarão a nossa morte diária
vinte e quatro horas mais longe
Já na cidade começam os despertadores
a disputar o cântico harmónico dos galos
Ainda agora havíamos morrido
e já saltamos novos dos lençóis da aurora
Vai funcionário arranjado e composto inaugurar o teu dia
com prateleiras para todas as ideias
por estas ruas que começam a movimentar-se
Se vês passar a camioneta para a ericeira
vai mesmo assim para o emprego e não para a ericeira
e afasta a tentação de sempre seres outra coisa
porque é de deus este e qualquer outro dia
Somos do povo nós ó funcionário. Ainda bem
Sentimos sob os pés a terra
Eles lá nos ministérios porém
com tão ampla vista sobre o tejo
julgam ter deus mesmo à mão
E este o cais. Daqui modernos épicos
navegações verbais praticaremos
a bordo de um conceito ou de um perfume
e lentamente ingressaremos no dia e na neblina
A mulher que por nós passa tem cara todos nós
residentes e domiciliados num corpo temos cara
e ter cara é uma responsabilidade enorme
Entrarmos na garagem talvez diga alguma coisa
a quem mais que em si próprio encontra em nós
que assim vistos de costas só por fora somos
aquilo que no íntimo tanto foi que nunca o foi
Atenção meu amigo às modernas quadrigas
que o sol nascente manda pelas ruas
Olha uma raça assim de santos e heróis
em linha pelas ruas da cidade
a alimentar o ritmo regular do trânsito
Momentaneamente libertos da noite
armamo-nos de coração para o dia
que mesmo agora abriu em pássaros
Morreu antónio arroio e hoje
os meninos da escola antónio arroio
são tão estúpidos como todos os meninos
e esquecem-se que ali morreu um homem
Aqui estamos nós homens sujeitos ao tempo
Que lindos corpos temos com que graça
os libertamos do inverno e vamos por aí
Sabes dizer-me amigo que interesses
serve o riso que nasce nas faces das crianças?
Não terás quem te empreste um cego lastimável?
- o sábado é o dia em que saem para a rua -
talvez assim mereças piedade
Longe vai o tempo em que tu homem sem amanhã
trincavas à socapa o milho à porta da mercearia
na remota aldeia
E aí vamos nós cheios de música
nostálgicos de ausência ricos de horizontes
com o nível de vida expresso no olhar
Em quem tem carro dispensa-se a virtude
ele afasta de nós qualquer obstáculo
- pensam os intelectuais da venda de automóveis
olhando-se no espelho lívido do stand
Comamos e bebamos que amanhã morreremos
Diverte-te noite e dia gilgamesh
desfruta do espectáculo das crianças
mais atraente na verdade que o das sombras
quando atravessam o rio houbour
Oh as falas sem futuro de manhã no autocarro
um autocarro de reivindicações
Caminhamos para a morte sobre os pés
As novas casas vêm apagar em nós a memória das velhas
A quem darão estas faces anónimas que passam
- oh este homem de pé um homem velho
não no deixes perder senhor tu que o criaste -
pequenas alegrias ao chegar a casa?
Alegrias sem conto terá hoje a cidade
Deixai senhoras que passais para o mercado
cair o coração na esquina
junto à mulher que sofre entre folhas de outono
Ela merece muito mais que os velhos que ali estão
completamente ao sol quais crianças ou choupos
Somos a solidão onde a chuva acontece
e essa gota de água em nós é um acontecimento
Tão rápidas vieram as chuvas este ano
que conseguiram surpreender ainda pelas ruas
os braços das mulheres. Já entre as árvores cessou
a troca habitual dos pássaros
Santa teresa com desejos de comungar
e a chuva a não a deixar sair
O pecador já com um pé na direcção do mal
e a chuva a não o deixar sair
Amanhã passaremos sob a água
com um chapéu aberto e um cão pela trela
e insensivelmente meteremos
por paisagens de litografia inglesa
Dia de chuva e nós assim tão sós
no pórtico do templo há tantos anos:
mil, dois mil, novecentos e cinquenta e tantos?
A cem séculos de distância meto moedas no saco
Não tem nome o mistério do fogo
que lambe lábil como o pensamento
quem no outro inverno fomos
O tempo tem passado extraordinariamente
Agora que a aragem fria vem de novo quebrar
uma ânfora de memórias na linha dos umbrais
e roçar antigas asas contra a nossa pele
talvez possamos desfraldar as palavras necessárias
à sensibilidade do tempo que ao longo da avenida
certas tardes cai tão concentrado como uma pedra
a dois passos de nós. Alguém arrasta
periféricos véus sobre as searas e passa
mãos cheias de dedos pelo fumo das casas
Alguém passou por aqui
decerto alguém passou por aqui. Não vedes mortas
folhas que não há muito tinham coração
e manchado de sangue o caminho que leva
à cidade que há para além das montanhas
Eu sei que são inúteis
os nossos raciocínios e as propostas de caminhos rectos
E se ele passar por aqui (ou por outro sítio)
dentro de um mês ou de um ano
talvez veja em nós as mesmas faces orientadas
que insistem suavemente na direcção da cidade
Não deu o calceteiro a volta ao quarteirão
nem a flor da sacada emitiu catorze folhas
- só nove bastariam -
sem o inverno vir
Quando o tempo traz de novo às árvores o fruto
erguemos as cabeças dignamente A primavera sempre quando chega
estende sobre nós uma toalha de esperança
e o céu começa logo acima das cabeças
Não estamos sós
há vida sobre a terra
Bóia no ar da tarde um assobio
e o próprio vento não nos é desconhecido
Há um homem à sombra das árvores de junho
tem uma certa forma de olhos onde nasce deus
e é tão surpreendente tão desprevenido como uma criança
O ser que amamos nesses meses enche toda a rua
Se uma mão de calor nos mata de cansaço
e as planícies se lavam no nascer do sol
entregamos os corpos à ventura
Não és tu a minha estação ó verão instalado
Afastamos com água das árvores o outono
Já os dias começam a diminuir
ouve-se ao longe o búzio da azeitona
- deixa cair agora os gestos mais simples
com que te defendias de inimigos como
as plantas as crianças e os dias
Colheram as maçãs ainda não choveu
e o manto da inocência cobre como antes a criança
que ainda não quer ver o nome nos jornais:
o olhar é para ela só olhar
e não possível ponto de partida do poema
Iremos até onde as folhas caem
é possível que o outono seja lá
Que bem estamos em nós nem outrem nos sonhamos
são impossíveis qualquer passado ou futuro
Enfeitamos com trapos nossos símbolos os paus
e aproximamos o pássaro da rosa
enquanto fores mandando ao nosso encontro dias
e não chegar a hora de sairmos da história
como o sol sai agora por detrás do mar
E o mar sempre lá
no lugar onde está
fronteiro à face momentânea dos homens
Que mágicos não são prédios em construção
abandonados ao anoitecer
E outra vez nós temos sobretudo sono
Ah o movimento súbito dos carros rente à noite
e os amantes a medo preparando as novas mortes de cristo
pelos meios que a técnica lhes veio proporcionar
As nossas cidades ao cair da tarde
Talvez estas estradas consintam jesus cristo
um entre nós na nossa freguesia
mas dando ao mesmo tempo sentido a tudo isto
Tu és senhor um deus verdadeiramente ofendido
Andaste nestas regiões de terra para terra
é mentiroso todo aquele que te nega
o mundo passa é a última hora
É inútil repito. As ruas da cidade
de tão orientadas não vão dar ao coração
Os versos que erguemos ao longo dos passeios
coagularam em ilhas que a indiferença
rodeou de silêncio e ao roçar o asfalto
até adquiriram seguras cotações
nos mercados onde vendem as palavras
Os homens passam de mãos nos bolsos
com a despreocupação de quem escarra
poentes em bocas rubras comprometendo assim
uma esperança municipal em cada esquina
Não é possível quando o autocarro passa
configurar o sentimento
e atravessar com ele pela mão
e chamar-lhe mulher como se o fosse
Quantos de nós senhor exigimos mais espaço
- muito menos decerto bastaria
para estar à vontade no teu reino
a troco de uma renda razoável
Desses-nos tu somente o corpo indispensável
para sentir o vento quando passa
e para devolver-te o tempo que nos deste
Longe do dia definitivo poupamos gestos
(no fundo só as crianças os sabem perder)
demos a volta à cidade em tardes de domingo
todos tínhamos sítios precisos onde ir
Afasta-nos senhor do caminho e dos olhos essa cruz
lembra-te ao menos da nossa honesta cidade
onde todas as ruas têm um sentido
e os homens sabem bem aonde se dirigem
todos eles o sabem só tu não
Olha que acontecimentos nos esperam
ao fim da rua ou ao fim da semana
Vamos compondo hoje e amanhã a face
que havemos de mostrar aos outros
na nossa habitual órbita de astros
Tem cães e gatos tem espinhas o nosso dia:
ousaremos aproximá-lo de ti queimá-lo nesses lábios onde
todo o tempo tem oriente e poente nascimento e morte?
Terras de zabulon e de neftali mesmo cafarnaum
nalguma delas foste assim estrangeiro?
Triste destino o teu: morreres na minha boca
tu que és o responsável pelo vento
que tinhas os teus ombros sem regresso
prometidos ao céu sobre Jerusalém
És o mais singular dos meus amigos
oferecendo ao tempo a arca do teu peito quando ainda
limite algum de idade te atingira
Quererás tu recolher nossos dias iguais?
Olha a pressa com que os dias se sucedem uns aos outros
nesta terrível terra que uma vez
teus pés senhor pisaram e deixaram
Poucos são os que vêem ser vistos por ti
único olhar que não se cruza nestas ruas
onde todos nasceram e vão desaguar
Mas como aproximar-te nestes dias de vento
se a vista se nos prende a todos os joelhos
desde logo uma altura muito inferior aos teus olhos?
Baixássemos senhor o nosso pobre olhar
em vez de o deixarmos exceder
o nível médio das águas do mar
Como era o teu rosto?
Saberão muitos hoje os caminhos que a ele vão dar?
E quantos há que fogem a dobrar
diante de ti seu pobre joelho esfolado?
Todos fazem render estavelmente o rosto que lhes deste
ninguém te ama além do combinado
ou fora de um prudente horário de trabalho
Raros aqueles que feridos pelos homens
regressam findo o dia ao teu convívio
E atrás de nós um monstro - uma besta escarlate? - lentamente se elabora
também ele beberá do cálice da tua ira
Deixámos-te só senhor deixámos-te só
de braços estendidos contra os nossos dias
abolindo as mais sólidas paredes
- quem não for irmão dos meus irmãos nem mesmo é meu irmão
Fomos todos ao encontro de nós próprios
se olhamos para o céu é na expectativa do que nos possa trazer alguma lua nova
- já o santo o sabia nesse tempo
os homens sempre foram os mesmos
Não saberás de algum remédio convincente
para abalar um coração tristemente contente?
Terás no fim para nós uma morte tão funda
que nos separe de todo o mal que fizemos
e assim nos aproxime do bem que desejámos?
Quando vieres pela estrada de sião
então afastarás de nós a impiedade
Nós somos os das tendas aqueles para quem
não é possível a transfiguração
Só duvidam um pouco de si aqueles a quem
já tu senhor pediste alguma vez alguém
O nosso deus é um deus ofendido
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 58 a 69 | Editorial Presença Lda., 1984
sobre aquele grande rio Eufrates..."
Apocalipse XVI, 12
Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Longe de nós - que fará ele aqui? - o pensamento
de um dia deixarmos atrás de nós um corpo
lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e a rebentar?
Vamos ao ponto de dar nomes de mortos às ruas
como se os mortos não pudessem voltar a morrer
o que afinal a gente vê todos os dias
Escondemos-lhes os ossos. Algum de nós era digno
de saber o que resta do seu grande segredo?
Não queiras levantar agora a capa da terra
só para os veres dormir seu vasto sono horizontal
Trincamos tudo: o pão que nos pertence o pão alheio
e o mais que os nossos dentes encontrem à disposição
Nem nos perturba essa pesada dignidade
de recebermos de pé em plena face as estações
e de saudarmos à passagem os homens e o tempo
Precisámos que alguém nos ensinasse onde olhar as mulheres
de corpos excessivos para algumas pás de terra
e que lugar no coração lhes dar?
Olhai que bem nos fica andar na rua
pelo braço de alguma ideia respeitável
ousada sem excessos devidamente garantida
Dispomos de nomes para todas as coisas conhecemos
todos os cheiros todas as promessas
temos na vida uma situação privilegiada
É ver quem ao morrer põe mais anúncios no jornal
como se de outras tantas vidas dispusesse
ou pudesse morrer um pouco mais em cada uma delas
Se até há entre nós quem faça versos
com todas as licenças necessárias
Ao de cimo da pele - da pele sim minha senhora -
ainda temos bolsos e canetas nos bolsos
e muitos outros pequeninos objectos
e soluções nos bolsos para a vida e para a morte
Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Como vagas rebentam nesta vida as gerações
Por elas pelas palavras que não foram proferidas
pelos mortos na estrada pelo preto
que acaba de saltar dois metros ou mais em altura
por quem à despedida quis ouvir a nona sinfonia de beethoven
pelas mulheres de leopoldville pelos directores gerais interinos
pelo sexo que trouxe até nós que fomos no princípio
apenas dois
nossos primeiros pais
pelos excessos do estio que obrigam os poetas
a escrever em julho os poemas de natal
ou na páscoa seguinte aqueles que celebram o pai morto
imolando às imagens o que fora delas pereceu
por todo o sangue justo derramado na terra
depois de abei mesmo depois muito depois de zacarias
filho de baraquias morto entre o templo e o altar
oh como é digno de louvor o velho que regressa
na hora de partir aos seus gestos mais simples
ou as crianças que ainda se olham cheias de surpresa
no corpo recentemente adquirido
Oh como é doce para mim saudar-te
a certas horas quando a chuva cai
e me é dado adivinhar-te por trás das palavras
ditas apenas para orientar o coração
Vejo-te então
preparada e tensa como um arco
e a inclinação com que solícita me atendes acompanha
a forma leve e sinuosa do que temos a dizer
Tão fresco é o teu riso
que quase te direi recém-nascida
Enquanto eu mordo contra o muro a cúpula do riso
inclinas tanto os vagarosos braços
que a tarde desce sensivelmente por eles
até configurar-se em tuas mãos
E o teu olhar está tanto nos teus olhos
profundamente abertos neste vale de lágrimas
que em duas gotas negras ele cai
nas minhas faces mortais
Num sobressalto de pálpebras
abriu-se o céu de um poema
Dia a dia mal o sol subir pela manhã acima
e alcançar conveniente altura
escreverei em tua honra esse poema a que a tarde virá pôr
um ponto final tão rubro como um poente
e chamar-lhe-ei o poema de um dia
Todos os dias são poucos para chorar o homem
embora ele chame em seu auxílio as árvores
ou se descubra sempre que a tarde passar
O homem que depois do poema não diga
«agora já posso morrer tranquilo» nem deseje
ideias regulares como as horas de trabalho
na paz relativa das derrotas adiadas
Seja quem for que nunca peça
«depressa um carro o mais descapotável possível»
Deixará o poeta anónimas algumas
das palavras que deus lhe pôs na boca
ou esses longos versos onde cabe a emoção?
Quantas vezes nesse obscuro instinto de escrever
o poema terá sido para ele
mais que o lugar onde ia ver-se livre
das palavras que o sobrecarregavam?
Estará ele disposto a abandonar o requintado gosto
que têm as leituras junto ao vão da janela?
Senhores dos planos de urbanização
responsáveis pela paisagem
cuidado com o poeta na cidade
Não há nem pode crescer na rua
árvore mais inútil que a palavra do poeta
Há salas espaçosas em muitas das palavras
Quantos de nós não me dirão andam na vida
seriamente à procura de um nome?
O mal deve afinal estar em sermos
quem somos e não querermos sê-lo
Nascemos e morremos e nada acontece
da primeira à última palavra sempre que entre nós falamos
Não há ideia que não puxemos para de baixo do sol
esse sol que de muitos cresta a pele
nas exóticas praias das antilhas
entre palavras postas onde fora o coração
Por vezes nem coração nem palavras sequer
apenas mornos sentimentos como gatos
bons para nos levar a atravessar o dia
Alguém conseguirá ser mais prudente que nós?
Houve algum sábado em que não deixássemos
a bandeira da repartição a meia haste por aqueles
que haviam de morrer só no domingo?
Fazemos colecção de impulsos ternos
e a vida sobre a terra é uma questão de tempo
Demos outrora um nome a cada coisa
houvemo-las assim por nossas e opusemo-las
dentro de nós à natureza exterior
Em cada telefone levantámos uma esperança
Passámos nos vidros das montras das cidades
e o breve tempo que passámos ficámos
Quando o silêncio um dia nos unir
então seremos todos nós palavras
Ainda hoje há muitos que procuram paz
essa paz que se sente ao descer na estaçãozinha de província
curiosamente chamada emaús
Entremos nos correios ao domingo que talvez
certo postal nos leve a dar por ganho o dia
A verdade a verdade o que é a verdade?
Banhamo-nos às vezes num olhar
que faz lembrar aquele antigo rio
quando não era ainda o chão o necessário porto
onde vão dar as coisas os seres e as folhas
e o homem depois de morto
Mas permanentemente não nos é possível
(um dia outra vez o princípio
os telefones tocarão interminavelmente
e correrão sem fim todas as fontes
pelas imensas manhãs de amanhã)
ter a cidade de Jerusalém na frente
ó meu senhor da face persistente
Inútil nos seria buscar quem aquém do rio
de todo em nós jogasse aquela vida
que plenamente existe só na nossa voz
A verdade meu deus é a cidade
que nasce onde e porque os teus
olhos e os meus após chorar se olharam
E vejo-te mulher sair dos velhos dias
e ajoelhar numa nuvem de névoa com os teus joelhos puros
sobre a nossa miséria de homens de medos
e o nosso ser caído e pelo ferro corroído
erguê-lo à altura do teu filho
que nem sequer pode estender os braços
contra os nossos templos domésticos
e até lhe escondemos a face entre paredes
E procuras no túnel da grande cidade
esse teu filho perdido há já três dias
entre as minhas palavras
e não o podes encontrar porque elas têm
tantos ombros pelo menos como a multidão
e porque eu para ti até aqui não tinha mais
que algumas palavras primordiais
tontas palavras pedidas emprestadas
às modernas doutrinas estéticas
Dois braços dois olhos vinte dedos na melhor das hipóteses
eis os limites do sonho do homem
Sentado deitado de joelhos de pé
eis as suas possíveis atitudes
E em caso de necessidade
é o mesmo o local onde se irá sentar
Ah a grande solidariedade que nos vem da mesma carne
de termos iguais braços e de abrirmos
os mesmos olhos sobre os telhados e a vida
o mesmo ouvido para ouvirmos o trovão
na noite em que se isolam todas as palavras
O que nós temos é principalmente sono
Planetas sem luz própria ilumina-nos
pontualmente a aurora. Novos passos
levarão a nossa morte diária
vinte e quatro horas mais longe
Já na cidade começam os despertadores
a disputar o cântico harmónico dos galos
Ainda agora havíamos morrido
e já saltamos novos dos lençóis da aurora
Vai funcionário arranjado e composto inaugurar o teu dia
com prateleiras para todas as ideias
por estas ruas que começam a movimentar-se
Se vês passar a camioneta para a ericeira
vai mesmo assim para o emprego e não para a ericeira
e afasta a tentação de sempre seres outra coisa
porque é de deus este e qualquer outro dia
Somos do povo nós ó funcionário. Ainda bem
Sentimos sob os pés a terra
Eles lá nos ministérios porém
com tão ampla vista sobre o tejo
julgam ter deus mesmo à mão
E este o cais. Daqui modernos épicos
navegações verbais praticaremos
a bordo de um conceito ou de um perfume
e lentamente ingressaremos no dia e na neblina
A mulher que por nós passa tem cara todos nós
residentes e domiciliados num corpo temos cara
e ter cara é uma responsabilidade enorme
Entrarmos na garagem talvez diga alguma coisa
a quem mais que em si próprio encontra em nós
que assim vistos de costas só por fora somos
aquilo que no íntimo tanto foi que nunca o foi
Atenção meu amigo às modernas quadrigas
que o sol nascente manda pelas ruas
Olha uma raça assim de santos e heróis
em linha pelas ruas da cidade
a alimentar o ritmo regular do trânsito
Momentaneamente libertos da noite
armamo-nos de coração para o dia
que mesmo agora abriu em pássaros
Morreu antónio arroio e hoje
os meninos da escola antónio arroio
são tão estúpidos como todos os meninos
e esquecem-se que ali morreu um homem
Aqui estamos nós homens sujeitos ao tempo
Que lindos corpos temos com que graça
os libertamos do inverno e vamos por aí
Sabes dizer-me amigo que interesses
serve o riso que nasce nas faces das crianças?
Não terás quem te empreste um cego lastimável?
- o sábado é o dia em que saem para a rua -
talvez assim mereças piedade
Longe vai o tempo em que tu homem sem amanhã
trincavas à socapa o milho à porta da mercearia
na remota aldeia
E aí vamos nós cheios de música
nostálgicos de ausência ricos de horizontes
com o nível de vida expresso no olhar
Em quem tem carro dispensa-se a virtude
ele afasta de nós qualquer obstáculo
- pensam os intelectuais da venda de automóveis
olhando-se no espelho lívido do stand
Comamos e bebamos que amanhã morreremos
Diverte-te noite e dia gilgamesh
desfruta do espectáculo das crianças
mais atraente na verdade que o das sombras
quando atravessam o rio houbour
Oh as falas sem futuro de manhã no autocarro
um autocarro de reivindicações
Caminhamos para a morte sobre os pés
As novas casas vêm apagar em nós a memória das velhas
A quem darão estas faces anónimas que passam
- oh este homem de pé um homem velho
não no deixes perder senhor tu que o criaste -
pequenas alegrias ao chegar a casa?
Alegrias sem conto terá hoje a cidade
Deixai senhoras que passais para o mercado
cair o coração na esquina
junto à mulher que sofre entre folhas de outono
Ela merece muito mais que os velhos que ali estão
completamente ao sol quais crianças ou choupos
Somos a solidão onde a chuva acontece
e essa gota de água em nós é um acontecimento
Tão rápidas vieram as chuvas este ano
que conseguiram surpreender ainda pelas ruas
os braços das mulheres. Já entre as árvores cessou
a troca habitual dos pássaros
Santa teresa com desejos de comungar
e a chuva a não a deixar sair
O pecador já com um pé na direcção do mal
e a chuva a não o deixar sair
Amanhã passaremos sob a água
com um chapéu aberto e um cão pela trela
e insensivelmente meteremos
por paisagens de litografia inglesa
Dia de chuva e nós assim tão sós
no pórtico do templo há tantos anos:
mil, dois mil, novecentos e cinquenta e tantos?
A cem séculos de distância meto moedas no saco
Não tem nome o mistério do fogo
que lambe lábil como o pensamento
quem no outro inverno fomos
O tempo tem passado extraordinariamente
Agora que a aragem fria vem de novo quebrar
uma ânfora de memórias na linha dos umbrais
e roçar antigas asas contra a nossa pele
talvez possamos desfraldar as palavras necessárias
à sensibilidade do tempo que ao longo da avenida
certas tardes cai tão concentrado como uma pedra
a dois passos de nós. Alguém arrasta
periféricos véus sobre as searas e passa
mãos cheias de dedos pelo fumo das casas
Alguém passou por aqui
decerto alguém passou por aqui. Não vedes mortas
folhas que não há muito tinham coração
e manchado de sangue o caminho que leva
à cidade que há para além das montanhas
Eu sei que são inúteis
os nossos raciocínios e as propostas de caminhos rectos
E se ele passar por aqui (ou por outro sítio)
dentro de um mês ou de um ano
talvez veja em nós as mesmas faces orientadas
que insistem suavemente na direcção da cidade
Não deu o calceteiro a volta ao quarteirão
nem a flor da sacada emitiu catorze folhas
- só nove bastariam -
sem o inverno vir
Quando o tempo traz de novo às árvores o fruto
erguemos as cabeças dignamente A primavera sempre quando chega
estende sobre nós uma toalha de esperança
e o céu começa logo acima das cabeças
Não estamos sós
há vida sobre a terra
Bóia no ar da tarde um assobio
e o próprio vento não nos é desconhecido
Há um homem à sombra das árvores de junho
tem uma certa forma de olhos onde nasce deus
e é tão surpreendente tão desprevenido como uma criança
O ser que amamos nesses meses enche toda a rua
Se uma mão de calor nos mata de cansaço
e as planícies se lavam no nascer do sol
entregamos os corpos à ventura
Não és tu a minha estação ó verão instalado
Afastamos com água das árvores o outono
Já os dias começam a diminuir
ouve-se ao longe o búzio da azeitona
- deixa cair agora os gestos mais simples
com que te defendias de inimigos como
as plantas as crianças e os dias
Colheram as maçãs ainda não choveu
e o manto da inocência cobre como antes a criança
que ainda não quer ver o nome nos jornais:
o olhar é para ela só olhar
e não possível ponto de partida do poema
Iremos até onde as folhas caem
é possível que o outono seja lá
Que bem estamos em nós nem outrem nos sonhamos
são impossíveis qualquer passado ou futuro
Enfeitamos com trapos nossos símbolos os paus
e aproximamos o pássaro da rosa
enquanto fores mandando ao nosso encontro dias
e não chegar a hora de sairmos da história
como o sol sai agora por detrás do mar
E o mar sempre lá
no lugar onde está
fronteiro à face momentânea dos homens
Que mágicos não são prédios em construção
abandonados ao anoitecer
E outra vez nós temos sobretudo sono
Ah o movimento súbito dos carros rente à noite
e os amantes a medo preparando as novas mortes de cristo
pelos meios que a técnica lhes veio proporcionar
As nossas cidades ao cair da tarde
Talvez estas estradas consintam jesus cristo
um entre nós na nossa freguesia
mas dando ao mesmo tempo sentido a tudo isto
Tu és senhor um deus verdadeiramente ofendido
Andaste nestas regiões de terra para terra
é mentiroso todo aquele que te nega
o mundo passa é a última hora
É inútil repito. As ruas da cidade
de tão orientadas não vão dar ao coração
Os versos que erguemos ao longo dos passeios
coagularam em ilhas que a indiferença
rodeou de silêncio e ao roçar o asfalto
até adquiriram seguras cotações
nos mercados onde vendem as palavras
Os homens passam de mãos nos bolsos
com a despreocupação de quem escarra
poentes em bocas rubras comprometendo assim
uma esperança municipal em cada esquina
Não é possível quando o autocarro passa
configurar o sentimento
e atravessar com ele pela mão
e chamar-lhe mulher como se o fosse
Quantos de nós senhor exigimos mais espaço
- muito menos decerto bastaria
para estar à vontade no teu reino
a troco de uma renda razoável
Desses-nos tu somente o corpo indispensável
para sentir o vento quando passa
e para devolver-te o tempo que nos deste
Longe do dia definitivo poupamos gestos
(no fundo só as crianças os sabem perder)
demos a volta à cidade em tardes de domingo
todos tínhamos sítios precisos onde ir
Afasta-nos senhor do caminho e dos olhos essa cruz
lembra-te ao menos da nossa honesta cidade
onde todas as ruas têm um sentido
e os homens sabem bem aonde se dirigem
todos eles o sabem só tu não
Olha que acontecimentos nos esperam
ao fim da rua ou ao fim da semana
Vamos compondo hoje e amanhã a face
que havemos de mostrar aos outros
na nossa habitual órbita de astros
Tem cães e gatos tem espinhas o nosso dia:
ousaremos aproximá-lo de ti queimá-lo nesses lábios onde
todo o tempo tem oriente e poente nascimento e morte?
Terras de zabulon e de neftali mesmo cafarnaum
nalguma delas foste assim estrangeiro?
Triste destino o teu: morreres na minha boca
tu que és o responsável pelo vento
que tinhas os teus ombros sem regresso
prometidos ao céu sobre Jerusalém
És o mais singular dos meus amigos
oferecendo ao tempo a arca do teu peito quando ainda
limite algum de idade te atingira
Quererás tu recolher nossos dias iguais?
Olha a pressa com que os dias se sucedem uns aos outros
nesta terrível terra que uma vez
teus pés senhor pisaram e deixaram
Poucos são os que vêem ser vistos por ti
único olhar que não se cruza nestas ruas
onde todos nasceram e vão desaguar
Mas como aproximar-te nestes dias de vento
se a vista se nos prende a todos os joelhos
desde logo uma altura muito inferior aos teus olhos?
Baixássemos senhor o nosso pobre olhar
em vez de o deixarmos exceder
o nível médio das águas do mar
Como era o teu rosto?
Saberão muitos hoje os caminhos que a ele vão dar?
E quantos há que fogem a dobrar
diante de ti seu pobre joelho esfolado?
Todos fazem render estavelmente o rosto que lhes deste
ninguém te ama além do combinado
ou fora de um prudente horário de trabalho
Raros aqueles que feridos pelos homens
regressam findo o dia ao teu convívio
E atrás de nós um monstro - uma besta escarlate? - lentamente se elabora
também ele beberá do cálice da tua ira
Deixámos-te só senhor deixámos-te só
de braços estendidos contra os nossos dias
abolindo as mais sólidas paredes
- quem não for irmão dos meus irmãos nem mesmo é meu irmão
Fomos todos ao encontro de nós próprios
se olhamos para o céu é na expectativa do que nos possa trazer alguma lua nova
- já o santo o sabia nesse tempo
os homens sempre foram os mesmos
Não saberás de algum remédio convincente
para abalar um coração tristemente contente?
Terás no fim para nós uma morte tão funda
que nos separe de todo o mal que fizemos
e assim nos aproxime do bem que desejámos?
Quando vieres pela estrada de sião
então afastarás de nós a impiedade
Nós somos os das tendas aqueles para quem
não é possível a transfiguração
Só duvidam um pouco de si aqueles a quem
já tu senhor pediste alguma vez alguém
O nosso deus é um deus ofendido
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 58 a 69 | Editorial Presença Lda., 1984
2 498
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Raiz da Paisagem Foi Cortada
A raiz da paisagem foi cortada.
Tudo flutua ausente e dividido,
Tudo flutua sem nome e sem ruído.
Tudo flutua ausente e dividido,
Tudo flutua sem nome e sem ruído.
2 407
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Tiago de Compostela
a D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto
A São Tiago não irei
Como turista. Irei
— Se puder — como peregrino
Tocarei a pedra e rezarei
Os padre-nossos da conta como um campesino
………………………………………………
Assim pudesse o poema
Ter doçura de trigo
O seu brilho polido
A mesma humildade
Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si próprio a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade
Ante o voo de ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave
A São Tiago não irei
Como turista. Irei
— Se puder — como peregrino
Tocarei a pedra e rezarei
Os padre-nossos da conta como um campesino
………………………………………………
Assim pudesse o poema
Ter doçura de trigo
O seu brilho polido
A mesma humildade
Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si próprio a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade
Ante o voo de ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave
3 002
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Que Poema, de Entre Todos Os Poemas
Que poema, de entre todos os poemas,
Página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
Que atinja o golpe de sol nas janelas.
Nesta página só há angústia a destruir
Um desejo de lisura e branco,
Um arco que se curve — até que o pranto
De todas as palavras me liberte.
Página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
Que atinja o golpe de sol nas janelas.
Nesta página só há angústia a destruir
Um desejo de lisura e branco,
Um arco que se curve — até que o pranto
De todas as palavras me liberte.
2 460
1
Ruy Belo
Grandeza do homem
Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 858
1
Ruy Belo
Os estivadores
Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 | Editorial Presença Lda., 1984
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 | Editorial Presença Lda., 1984
6 920
1
Ruy Belo
A primeira palavra
Acompanhando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 500
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade
Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
5 100
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem És Tu Que Assim Vens Pela Noite Adiante
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.
6 206
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Natália Teotónio Pereira
Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
2 224
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética V
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes três versos:
A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.
(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988, por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères.)
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Ilhas", pág 70 | Texto Editora, 1989
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes três versos:
A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.
(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988, por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères.)
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Ilhas", pág 70 | Texto Editora, 1989
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1
Ruy Belo
Acontecimento
Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
1 801
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cíclades
(evocando Fernando Pessoa)
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o país onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
É mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estação adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam o sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o país onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
É mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estação adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam o sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
2 930
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Três Parcas
As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
2 932
1
Nuno Júdice
Diz-me tudo
Há uma regra inflexível no amor: o seu horizonte
tem a vastidão do mar, para lá do qual outros
horizontes se abrem se o muro, ao longo da
praia, não impuser os seus limites a quem
deseja a viagem. O espírito, porém, seguindo
um rumo platónico, voa sobre as ondas,
afastando-se da apressada respiração das marés;
e é no alto, onde se confundem nuvens e
gaivotas, que o olhar descobre a imensidão
do oceano para que o sentimento o empurra,
se não houver pela sua frente um porto,
ou uma ilha, que ponham fim à navegação.
Mas estas são apenas as convenções que
obrigam a imaginação; porque se o amor se
libertar das palavras que o oprimem, dando
ao corpo a mesma plenitude que se encontra
neste mar, está aberto o caminho para o abismo
em que o ser se dilui no puro espaço, onde
só o azul existe. Então, os dedos tocam
o teclado do infinito, e ouvir-se-á a música
dos murmúrios que nenhum ouvido recebe
se os sons da terra o magoam. E é como
se o dia durasse, para além do tempo e
das coisas da vida, até ao fim do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 75 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
tem a vastidão do mar, para lá do qual outros
horizontes se abrem se o muro, ao longo da
praia, não impuser os seus limites a quem
deseja a viagem. O espírito, porém, seguindo
um rumo platónico, voa sobre as ondas,
afastando-se da apressada respiração das marés;
e é no alto, onde se confundem nuvens e
gaivotas, que o olhar descobre a imensidão
do oceano para que o sentimento o empurra,
se não houver pela sua frente um porto,
ou uma ilha, que ponham fim à navegação.
Mas estas são apenas as convenções que
obrigam a imaginação; porque se o amor se
libertar das palavras que o oprimem, dando
ao corpo a mesma plenitude que se encontra
neste mar, está aberto o caminho para o abismo
em que o ser se dilui no puro espaço, onde
só o azul existe. Então, os dedos tocam
o teclado do infinito, e ouvir-se-á a música
dos murmúrios que nenhum ouvido recebe
se os sons da terra o magoam. E é como
se o dia durasse, para além do tempo e
das coisas da vida, até ao fim do mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 75 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 279
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Anémona dos Dias
Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
3 536
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Sophia de Mello Breyner Andresen
A Pura Face
Como encontrar-te depois de ter perdido
Uma por uma as tardes que encontrei
Ó ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?
Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu a amei
E porque não és tempo não te dei
Meu desejo pelas horas consumido
Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pr’além de vida morte ou Primavera
E que a verei de frente e sem disfarce
Uma por uma as tardes que encontrei
Ó ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?
Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu a amei
E porque não és tempo não te dei
Meu desejo pelas horas consumido
Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pr’além de vida morte ou Primavera
E que a verei de frente e sem disfarce
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