Poemas neste tema
Alma
Herberto Helder
4R
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
1 076
Ana Marques Gastão
Coração sexual
Não existe órgão tão sexual como o coração,
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
706
Yone Giannetti Fonseca
POEMA PARA O FILHO QUE SE CASA
Que este sonho inaugurado
Em tua carne, em teus atos,
Não se dissolva, abstrato,
Ao contacto dos cactos.
Que este intervalo de orvalho
Em seu sorriso espelhado,
Mesmo exaurido, restaure
Futuras noites de barro.
E nas urgências vividas
Em teu sonhar acordado,
Um pouco, muito persista
Desta brasa, desta brisa.
Que no sonho consumado
Nos embaraços dos laços,
Reste um desfrute de vida
Como fruto da saudade.
Em tua carne, em teus atos,
Não se dissolva, abstrato,
Ao contacto dos cactos.
Que este intervalo de orvalho
Em seu sorriso espelhado,
Mesmo exaurido, restaure
Futuras noites de barro.
E nas urgências vividas
Em teu sonhar acordado,
Um pouco, muito persista
Desta brasa, desta brisa.
Que no sonho consumado
Nos embaraços dos laços,
Reste um desfrute de vida
Como fruto da saudade.
1 225
Isabel Mendes Ferreira
daqui não partem
daqui não partem. antes chegam navios como braços.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
678
Isabel Mendes Ferreira
e volto
e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa. fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora. só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz. voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
736
Herberto Helder
5B
As varas frias que batem nos meus lugares levantam
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
564
Herberto Helder
4S
Ninguém tem mais peso que o seu canto.
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
1 095
Isabel Mendes Ferreira
elegia
elegia _____________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
575
Ana Marques Gastão
Meteorito
O meu cérebro é um meteorito.
Vejo-o a cair do
C éu
como se tivesse sido talhado
pela imaginação mas não.
A vida é um novelo de resistências
às quais nem a minha mão
nem os meus olhos se adaptam.
O novelo é um nó
o nó é um laço
uma cruz um traço
terrivelmente
soberano.
Desato-o, desmancho-o,
com ele reato o acto
o mesmo acto-pacto
alado rasgado amado.
E é como se ouvisse o Anjo
e a sua voz inaudível
nas pedras do caminho.
Desenho então,
assim me estendam
os braços,
o círculo a coroa,
a cintura nua, a lua
e o nome de Helena
ou Karenina, Ana,
Ariana – esse regresso
da morte
entre a mão e o espírito.
Vejo-o a cair do
C éu
como se tivesse sido talhado
pela imaginação mas não.
A vida é um novelo de resistências
às quais nem a minha mão
nem os meus olhos se adaptam.
O novelo é um nó
o nó é um laço
uma cruz um traço
terrivelmente
soberano.
Desato-o, desmancho-o,
com ele reato o acto
o mesmo acto-pacto
alado rasgado amado.
E é como se ouvisse o Anjo
e a sua voz inaudível
nas pedras do caminho.
Desenho então,
assim me estendam
os braços,
o círculo a coroa,
a cintura nua, a lua
e o nome de Helena
ou Karenina, Ana,
Ariana – esse regresso
da morte
entre a mão e o espírito.
872
Daniel Francoy
SABER ESCAVAR
Havia terra neles, e
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
1 318
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé.
709
Herberto Helder
4Q
Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
1 036
Isabel Mendes Ferreira
respiro-te devagar
respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
1 262
Ana Marques Gastão
Sê Lenha
Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
847
Herberto Helder
4O
É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
1 106
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
713
Herberto Helder
2D
Transbordas toda em sangue e nome, por motivos
de lua — os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
— de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
— como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
de lua — os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
— de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
— como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
573
Herberto Helder
3G
Bate na madeira vermelha,
bate numa pedra com o buraco aberto à exaltação
da lua, bate onde
espumejam as ribeiras que atravessam
as embocaduras
siderais. E a madeira
levanta-se, chameja a pedra astrológica, cerra-se
a água nos cântaros de lava.
A altas atmosferas bate nas estâncias negras.
E eu durmo com o sangue luzindo na boca.
O ritmo lunar muda-me os sonhos.
O rosto queima-se.
Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
Aferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.
bate numa pedra com o buraco aberto à exaltação
da lua, bate onde
espumejam as ribeiras que atravessam
as embocaduras
siderais. E a madeira
levanta-se, chameja a pedra astrológica, cerra-se
a água nos cântaros de lava.
A altas atmosferas bate nas estâncias negras.
E eu durmo com o sangue luzindo na boca.
O ritmo lunar muda-me os sonhos.
O rosto queima-se.
Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
Aferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.
1 113
Herberto Helder
1C
Criança à beira do ar. Caminha pelas cores prodigiosas, iluminações
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
1 017
Herberto Helder
1F
Correm com braços e cabelo, com a luz que espancam,
com ar e ouro.
Correm como se movessem água.
Que inspiração e obra nos laboratórios do mundo.
Todas metidas no vento.
Tão leves que metem medo.
E esplendem os ramais da água apoiada à noite,
esplendem, invadem
a casa. E as crianças pensam de sala para sala envoltas nela.
Até que as embebeda o sono
encharcado nessa água
poderosa. E então a água fica de olhos fechados,
negra negra
negra.
com ar e ouro.
Correm como se movessem água.
Que inspiração e obra nos laboratórios do mundo.
Todas metidas no vento.
Tão leves que metem medo.
E esplendem os ramais da água apoiada à noite,
esplendem, invadem
a casa. E as crianças pensam de sala para sala envoltas nela.
Até que as embebeda o sono
encharcado nessa água
poderosa. E então a água fica de olhos fechados,
negra negra
negra.
1 191
Herberto Helder
5
Dançam segundo o ouro quer dizer fazem da fieira de estrelas africar
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —
uma oficiação dos fogos. Trouxeram-nas para as paredes da caverna,
empurram-nas, uma
ignição floral, arqueadas, amarelo,
espigam nos abismos.
Eles dão luz com os braços e as pernas até que o vento tudo
sopra nessa lição até que
o irradiante os gestos magnificam
as formas do ar no ouro: a seara astronómica.
Primeiro como pessoas depois são animais que o sangue ata na garga
O mundo é numeroso.
O corpo, a dança devora-o vivo.
Alguém remoto sabia de outra escola disse:
este movimento no chão responde em labaredas.
Mas eles traziam à pedra a obra alumiada. Isto mantém em baixo
os organismos, coisas, cadeias
dos elementos.
Quando alguém abre o ar quando entra sideralmente a árvore a luz
consome-a folha a folha. Eles arrastam
em vagas paus queimados desde a medula
estrelas desde a medula eles
entalharam
na árvore
o seu nome vibrante a seiva enche o nome todo
que nome? estrelas é um nome
quem dança é um nome largo
o cordão de células pintado nos recessos,
a terra é o nome que a seiva irriga até aos nós profundos.
Como quem trança fibras — coração fechado
nas palavras, máquina, dentro. Então os espaços dança
a dança ininterruptos, a pedra cardiacamente escrita.
Os dedos tocam, atravessam-na.
Isto electrifica-se isto é um poder que vem
não das câmaras do sangue apenas mas
de uma aliança. Os corpos movem as estrelas.
Essa árvore das chamas essa
constelação inoxidável circundada pelo vento.
Eles brilham entre as folhas que brilham. O mundo — e
colocam pés e mãos, brilha. Colocam os raios das coisas, arrancam
à massa compacta a risca limpa.
Oh cingir tudo, uma
a uma as matérias com as estrelas sísmicas e
— o ar dentro das faúlhas
— as faúlhas dentro da pedra: manchas de tanto amarelo repetido.
Alguém disse: outro
verbo, outra vida, outra floração que as mãos ao rodeá-la
acendessem.
A dança ensina ao alto a astronomia —
1 082
Herberto Helder
(A Morte Própria)
E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
1 544
Herberto Helder
3I
Pavões, glicínias, abelhas — e no leque gradual da luz,
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
1 014
Herberto Helder
(Vox)
O que está escrito no mundo está escrito de lado
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
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