Poemas neste tema
Alma
Herberto Helder
Iv A
A alimentação simples da fruta,
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Sopra na cana até que dê flor.
Tão na boca, na língua, na saliva e na garganta,
tão interior ao próprio sopro que nasça
da exaltação do corpo.
Dá-lhe um nó como um umbigo.
Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio
perigoso
— flor com umbigo.
Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando, brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Sopra na cana até que dê flor.
Tão na boca, na língua, na saliva e na garganta,
tão interior ao próprio sopro que nasça
da exaltação do corpo.
Dá-lhe um nó como um umbigo.
Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio
perigoso
— flor com umbigo.
Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.
1 083
Herberto Helder
Iv F
Um espelho em frente de um espelho: imagem
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
para o centro de si mesmo,
como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
para o centro de si mesmo,
como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?
1 217
Herberto Helder
Em Silêncio Descobri Essa Cidade No Mapa
Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
751
Herberto Helder
Iii D
(Vd. suplemento ‘Artefactos’’ do jornal Expresso de/f,.6.1994)
Abre o buraco à força de homem,
faz um segredo:
o tema é: bater a massa enxuta, batê-la a pulso até
que transpire toda, respire
toda,
o negro com o amarelo revolvido,
quebrar a água em cima;
que as lojas convivam: loja da água primeva,
e a do fogo —
entre as coisas desabridas quero a minha arte mulheril, diz
ela, fornalhas:
da altura das mãos à altura dos tectos,
um cântaro abraçado no seu arco vivo,
cântaros,
O estendal do visível,
e riscos e combinações de riscos, riscos de estrelas lapidadas
— sento-me nos tronos um a um, diz ela: é uma sarça:
como se os imanes corressem pelas limalhas, as substâncias
rebarbativas, substâncias
ao palpite, quantidade
e a qualidade ganha no crivo: O amarelo por instinto,
ciência da noite —
alguém levanta-se de um sonho e,
com ferida e minúcia e fervor,
mexe nessas pequenas coisas,
uma técnica do ouro
na escuridão:
por mistério é que existe, por mistério
é transparente, ou vermelha, mistério
é o dom que nem sempre vê quem olha de fora —
exemplos de enquanto se temperam as argilas, se lavram,
e nascem talhas, potes, bilhas, tocamos em louças e elas vibram:
são o adorno e poderio dos sítios onde morremos
— como se diz: pneuma,
terrífica é a terra e no entanto nada mais do que um pouco:
criar matérias —
e depois, a nossos pés, constelações, e as caras
alumbradas pelas áscuas dentro delas, nós, as soberanas
de trono em trono,
movendo
as labaredas, coando-as através do elemento água:
se alguém mete de encontro à respiração as corolas cerâmicas das
jarras,
faz um segredo, isso: caldeia
os artefactos:
ouro que transborda,
e o mundo.
Abre o buraco à força de homem,
faz um segredo:
o tema é: bater a massa enxuta, batê-la a pulso até
que transpire toda, respire
toda,
o negro com o amarelo revolvido,
quebrar a água em cima;
que as lojas convivam: loja da água primeva,
e a do fogo —
entre as coisas desabridas quero a minha arte mulheril, diz
ela, fornalhas:
da altura das mãos à altura dos tectos,
um cântaro abraçado no seu arco vivo,
cântaros,
O estendal do visível,
e riscos e combinações de riscos, riscos de estrelas lapidadas
— sento-me nos tronos um a um, diz ela: é uma sarça:
como se os imanes corressem pelas limalhas, as substâncias
rebarbativas, substâncias
ao palpite, quantidade
e a qualidade ganha no crivo: O amarelo por instinto,
ciência da noite —
alguém levanta-se de um sonho e,
com ferida e minúcia e fervor,
mexe nessas pequenas coisas,
uma técnica do ouro
na escuridão:
por mistério é que existe, por mistério
é transparente, ou vermelha, mistério
é o dom que nem sempre vê quem olha de fora —
exemplos de enquanto se temperam as argilas, se lavram,
e nascem talhas, potes, bilhas, tocamos em louças e elas vibram:
são o adorno e poderio dos sítios onde morremos
— como se diz: pneuma,
terrífica é a terra e no entanto nada mais do que um pouco:
criar matérias —
e depois, a nossos pés, constelações, e as caras
alumbradas pelas áscuas dentro delas, nós, as soberanas
de trono em trono,
movendo
as labaredas, coando-as através do elemento água:
se alguém mete de encontro à respiração as corolas cerâmicas das
jarras,
faz um segredo, isso: caldeia
os artefactos:
ouro que transborda,
e o mundo.
1 021
Herberto Helder
Iii F
Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira,
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
1 123
Herberto Helder
I F
Olha a minha sombra natural exactamente amarela, diz,
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
1 088
Herberto Helder
Iii A
Ninguém sabe de onde pode soprar.
De onde a prata abrasada sopra,
a lua contra o lado frio da água.
Quem do ar movido com mão baixa
faz
de si mesmo um respiradouro,
uma vibração
térmica. Os raios da corola hábil, a fole
depressa, plena, se o forno trabalha
para tanto luxo,
tanto vir cá fora: que o sangue metido a fundo na pessoa
transborda do nome dela.
A matéria queimada num enlace das tubagens ao meio
de quem não sabe de onde sopra quem sopra. Que
coisa nunca dita é soprada.
E como alguém se torna leve, de nenhures, quando ela toca e chameja,
calcina, aqui, a coisa para lavrar que sopraram
de espádua a espádua, dos pés à testa,
nome,
a toda a página alta, a alta
labareda.
De onde a prata abrasada sopra,
a lua contra o lado frio da água.
Quem do ar movido com mão baixa
faz
de si mesmo um respiradouro,
uma vibração
térmica. Os raios da corola hábil, a fole
depressa, plena, se o forno trabalha
para tanto luxo,
tanto vir cá fora: que o sangue metido a fundo na pessoa
transborda do nome dela.
A matéria queimada num enlace das tubagens ao meio
de quem não sabe de onde sopra quem sopra. Que
coisa nunca dita é soprada.
E como alguém se torna leve, de nenhures, quando ela toca e chameja,
calcina, aqui, a coisa para lavrar que sopraram
de espádua a espádua, dos pés à testa,
nome,
a toda a página alta, a alta
labareda.
1 034
Herberto Helder
Iii J
O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 209
Herberto Helder
Ii G
Pode colher-se na espera da árvore,
chama coada,
o fruto —
no feixe de linhas e fibras do corpo da madeira pelo sítio mais
rude,
mais intenso,
a madeira profunda, mas,
quem pensaria?, a alma da madeira:
nem orvalho nem seiva nem resina,
apenas a demora carbónica de ciclo em ciclo,
a demora dos nomes,
gota de luz cardeal:
um diamante —
pode colher-se o diamante,
pode-se entrar no inferno com a mão cerimonial à frente.
chama coada,
o fruto —
no feixe de linhas e fibras do corpo da madeira pelo sítio mais
rude,
mais intenso,
a madeira profunda, mas,
quem pensaria?, a alma da madeira:
nem orvalho nem seiva nem resina,
apenas a demora carbónica de ciclo em ciclo,
a demora dos nomes,
gota de luz cardeal:
um diamante —
pode colher-se o diamante,
pode-se entrar no inferno com a mão cerimonial à frente.
1 174
Herberto Helder
I M
Porque abalando as águas côncavas o acordou a lua e empurrou para fora,
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
1 138
Herberto Helder
Iii H
Marfim desde o segredo rompendo pela boca,
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
1 021
Herberto Helder
Os Mortos Perigosos, Fim.
Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.
A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.
Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.
Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.
Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.
Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.
Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.
Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.
1965-68.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.
A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.
Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.
Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.
Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.
Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.
Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.
Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.
1965-68.
1 048
Herberto Helder
Um Deus Lisérgico
Ele viu, a muitas noites de distância o Rosto
saturado de furos ígneos absorvido
em sua própria velocidade
ressaca silenciosa um rosto precipitado
para dentro
noutro lado do que é visto nas formas:
lacunas, parêntesis desapossados, duas tensões
de parte a parte da figura
— ferroadas brancas Ele viu
a fria floresta erguer-se sob o movimento nocturno
das massas e o volume cru do Rosto
com tudo ordenado em si a energia dos pontos
fixos
curva de aço a matéria geral húmida:
água leite desordenado
os meandros percurso feminino
Ele viu sobre o espaço maternal
uma coruscação
estampa presa dentro do fluido
desenvolvimento
a cabeça de um prego engolfado na madeira
e a ponta fulminante
um relâmpago noutra parte o Rosto
martelado nas suas vísceras um nó
veloz, parado como feito no tecido doloroso
da atenção Ele viu o Rosto
e toda a leveza ameaçadora era tragada
pelo núcleo essa primeira sutura
no remoinho da carne
sobre os níveis primários temperaturas vagarosas
o granito bombardeado por refluxos celestes
enxuto, raspado
enquanto a chuva iluminava toda a frente
das terras e o alto aberto e os corredores vaginais
da substância a força da Lua no Capricórnio
e tenacidade
Acima das jubas molhadas pelo sangue
ele viu o Rosto com seus buracos vertiginosos
concentração
de um feixe de linhas brutais centripetamente
o Rosto a respirar dentro dele
como as malhas dos pulmões onde saltava
o oxigénio selvático
saturado de furos ígneos absorvido
em sua própria velocidade
ressaca silenciosa um rosto precipitado
para dentro
noutro lado do que é visto nas formas:
lacunas, parêntesis desapossados, duas tensões
de parte a parte da figura
— ferroadas brancas Ele viu
a fria floresta erguer-se sob o movimento nocturno
das massas e o volume cru do Rosto
com tudo ordenado em si a energia dos pontos
fixos
curva de aço a matéria geral húmida:
água leite desordenado
os meandros percurso feminino
Ele viu sobre o espaço maternal
uma coruscação
estampa presa dentro do fluido
desenvolvimento
a cabeça de um prego engolfado na madeira
e a ponta fulminante
um relâmpago noutra parte o Rosto
martelado nas suas vísceras um nó
veloz, parado como feito no tecido doloroso
da atenção Ele viu o Rosto
e toda a leveza ameaçadora era tragada
pelo núcleo essa primeira sutura
no remoinho da carne
sobre os níveis primários temperaturas vagarosas
o granito bombardeado por refluxos celestes
enxuto, raspado
enquanto a chuva iluminava toda a frente
das terras e o alto aberto e os corredores vaginais
da substância a força da Lua no Capricórnio
e tenacidade
Acima das jubas molhadas pelo sangue
ele viu o Rosto com seus buracos vertiginosos
concentração
de um feixe de linhas brutais centripetamente
o Rosto a respirar dentro dele
como as malhas dos pulmões onde saltava
o oxigénio selvático
744
Herberto Helder
Texto 4
Eu podia abrir um mapa: “o corpo” com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
646
Herberto Helder
4
filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando
dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela abaixo
— a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando
dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela abaixo
— a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
1 098
Herberto Helder
Texto 1
Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
1 087
Herberto Helder
93
há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
643
Herberto Helder
18
estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de qualquer
linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revoltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim —
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as músicas,
e perguntou alguém: ^Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marilyn,
ou Mahalia Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de um só d<
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sozinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo que está
selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que estremecem
cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas minhas
câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz que de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo
A MORTE S E M M E S T E 713
e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de qualquer
linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revoltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim —
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as músicas,
e perguntou alguém: ^Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marilyn,
ou Mahalia Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de um só d<
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sozinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo que está
selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que estremecem
cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas minhas
câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz que de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo
A MORTE S E M M E S T E 713
e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
1 081
Herberto Helder
I C
Pus-me a saber: estou branca sobre uma arte
fluxa e refluxa:
a lua nasce da roupa fria, sai-me a cabeça
das zonas da limalha,
dos buracos fortes da água.
Diz ela. Reluzo como um carneiro,
pêlo aos anéis no mármore vivo, ou redemoinhando a estrela.
Tranço ramas de sal e de enxofre.
Diz a criança: a tontura amarela das luzes quando abro para o vento,
quando ao longo da noite que me percorre,
aqui — abrasada a gramática,
aqui está o meu nome posto em uso.
As coisas pensam todas ao mesmo tempo.
Os animais, o seu clima de ouro.
Diz.
Com a lepra na boca, a lepra que não me deixa falar.
Água das madres pelo umbigo, a lua exalta-me o nome,
para que eu cresça à sua volta, para que eu possa
um dia
morrer dele, inundada, lustral.
É uma arte louca.
fluxa e refluxa:
a lua nasce da roupa fria, sai-me a cabeça
das zonas da limalha,
dos buracos fortes da água.
Diz ela. Reluzo como um carneiro,
pêlo aos anéis no mármore vivo, ou redemoinhando a estrela.
Tranço ramas de sal e de enxofre.
Diz a criança: a tontura amarela das luzes quando abro para o vento,
quando ao longo da noite que me percorre,
aqui — abrasada a gramática,
aqui está o meu nome posto em uso.
As coisas pensam todas ao mesmo tempo.
Os animais, o seu clima de ouro.
Diz.
Com a lepra na boca, a lepra que não me deixa falar.
Água das madres pelo umbigo, a lua exalta-me o nome,
para que eu cresça à sua volta, para que eu possa
um dia
morrer dele, inundada, lustral.
É uma arte louca.
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Herberto Helder
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^dentre os nomes mais internos o mais intenso de todos
a que dias mortais infunde vida
que indefensável coisa lhe promete
(mas no seu corpo nada se levanta
quando estremece ao ar da revoada)
que morte e vida troca ele em tudo
e a que obscura glória se refere?
a que dias mortais infunde vida
que indefensável coisa lhe promete
(mas no seu corpo nada se levanta
quando estremece ao ar da revoada)
que morte e vida troca ele em tudo
e a que obscura glória se refere?
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Herberto Helder
Texto 9
Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
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Herberto Helder
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como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
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Herberto Helder
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talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
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Herberto Helder
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porque já me não lavo,
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
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