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Poemas neste tema

Alma

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quente

ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Charles

92 anos
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salve o Píer

você devia ter ido nessa festa,
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite Úmida

a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tevê

fui a este lugar para ver um filme
na tevê
Alexandre, o Grande
e aí vêm os exércitos
ta ta ta
cavalos, lanças, facas, espadas, escudos,
homens caindo...
então uma troca para um campeonato de patinação –
eis uma garota estrangulando a outra,
então de volta a Alexandre –
um cara salta e mata o pai do Alex,
Alex mata o cara, Alex é rei,
de volta ao campeonato de patinação –
um homem caiu atravessado na pista e outro homem lhe golpeia a cabeça
com os patins –
e aí vêm os exércitos
eles parecem combater numa caverna, há fumaça e
chamas, espadas,
homens cadentes –
os Thunderbirds estão atrás,
uma garota mergulha debaixo do rabo de outra garota,
joga-a contra a guarda –
Alexandre fica ali parado ouvindo um cara que segura
uma taça de vinho na mão, e este rapaz está realmente dizendo a
Alex como e onde, você sabe, e ele lhe dá as costas para se afastar
e Alex o atravessa com uma lança –
os Thunderbirds estão atrás, eles preparam
Big John –
ta ta ta, aí vêm os exércitos
eles se movem com espalhafato através das águas
através das florestas, eles vêm para tomar
tudo
ta ta ta –
Big John não conseguiu,
as garotas estão soltas mais uma vez –
Alexandre está morrendo
e eles passam por seu pálio ao ar livre
ele está vestido com um refinado uniforme negro e se parece com
Richard Burton
os garotos retiravam os elmos ao passar
e lá estava o amor de Alex ao pé do pálio, e então
Alex começa a partir, alguns homens se agitam,
alguém pergunta, Alex, quem você nomeará seu sucessor?
quem vai nos comandar?
eles esperam.
ele diz, o mais forte, e ele morre
deixam-nos ver as nuvens, os céus,
a imensidade, e –
os Thunderbirds conseguem dar um jeito
nos últimos 12 segundos, vencem por
112 a 110,
a multidão se deixa levar pela Alegria,
mercúrio sangra em direção à luz,
boa noite, doce príncipe,
ave Maria,
Jesus Cristo, que
noite.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

John Dillinger E Le Chasseur Maudit

é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Multa

abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio

o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Soneca E a Paz do Sossego

se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
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