Poemas neste tema
Alma
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 002
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 219
Marina Colasanti
Uma maçã
Há uma maçã pousada
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
1 260
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 087
Marina Colasanti
DEPOIS, A ATERRISSAGEM
À noite
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
934
Marina Colasanti
Mesmo se
Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 147
Marina Colasanti
Tive um rosto
Tive um rosto
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
1 521
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
949
Marina Colasanti
No corte das lâminas brancas
Além da persiana do quarto
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
1 065
Marina Colasanti
CASA EM MEIO AO CAMPO
A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
973
Marina Colasanti
OU APENAS
Às vezes
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.
1 065
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 033
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 191
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 132
Marina Colasanti
Inquebrantada linhagem
Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
972
Marina Colasanti
É nesse
Há sempre um ponto
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
1 380
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 074
Marina Colasanti
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 234
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
504
Marina Colasanti
De cinza a cinza
Há um momento no lago
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 203
Marina Colasanti
Outras palavras
Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
1 348
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
935
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 150
Marina Colasanti
Pela janela aberta
Se deitada de costas
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
1 177