Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
Medo
ele se aproxima do meu Fusca
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
744
Charles Bukowski
Loucura
não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
1 265
Charles Bukowski
Amor & Fama & Morte
agora ela senta do lado de fora de minha janela
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
1 268
Charles Bukowski
Hora da Cagada
meio bêbado
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
1 192
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 114
Charles Bukowski
Os Gêmeos
às vezes ele insinuava que eu era um canalha e eu lhe dizia para ouvir
Brahms, para aprender a pintar e a beber e a não ser
dominado por mulheres ou dólares
mas ele gritava, pelo amor de Deus pense na sua mãe,
pense no seu país,
você vai nos matar!...
vago pela casa de meu pai (na qual ele devia $ 8 mil depois de 20
anos no mesmo emprego) e olho para seus sapatos mortos
o modo como seus pés curvaram o couro, como se plantasse rosas em fúria,
e era o que ele fazia, e olho para seu cigarro morto, seu último cigarro
e a última cama em que dormiu naquela noite, e sinto que deveria refazê-la
mas não posso, porque um pai é sempre o mestre mesmo quando já se foi;
suponho que essas coisas tenham acontecido vez após vez mas não posso deixar de pensar
morrer no chão da cozinha às 7 da manhã
enquanto outras pessoas fritam ovos
não é tão brutal
a menos que aconteça com você.
vou para o lado de fora e apanho uma laranja e retiro a casca brilhante;
as coisas seguem vivas; a grama cresce muito bem,
o sol despeja seus raios circundado por um satélite russo,
um cão late sem razão em alguma parte, vizinhos espiam pelas persianas.
sou um estranho aqui, e devo ter sido (suponho) de algum jeito um filho da puta,
e não tenho dúvida de que ele me pintou direitinho (o garotão e eu
brigávamos como leões da montanha) e eles dizem que ele deixou tudo para uma mulher em Duarte mas estou cagando – que ela fique com tudo: ele era o meu velho
e está morto.
lá dentro, experimento um terno azul-claro
muito melhor do que qualquer coisa que eu já tenha vestido
e balanço os braços como um espantalho ao vento
mas de nada adianta:
não posso mantê-lo vivo
não importa o quanto odiássemos um ao outro.
temos exatamente o mesmo aspecto, poderíamos ter sido gêmeos
o velho e eu: é isso o que eles
dizem. ele tinha seus bulbos na tela
prontos para serem plantados
enquanto eu me deitava com uma puta da rua 3.
muito bem. deixem-nos ter este momento: parado diante de um espelho
vestindo o terno de meu pai morto
esperando também
para morrer.
Brahms, para aprender a pintar e a beber e a não ser
dominado por mulheres ou dólares
mas ele gritava, pelo amor de Deus pense na sua mãe,
pense no seu país,
você vai nos matar!...
vago pela casa de meu pai (na qual ele devia $ 8 mil depois de 20
anos no mesmo emprego) e olho para seus sapatos mortos
o modo como seus pés curvaram o couro, como se plantasse rosas em fúria,
e era o que ele fazia, e olho para seu cigarro morto, seu último cigarro
e a última cama em que dormiu naquela noite, e sinto que deveria refazê-la
mas não posso, porque um pai é sempre o mestre mesmo quando já se foi;
suponho que essas coisas tenham acontecido vez após vez mas não posso deixar de pensar
morrer no chão da cozinha às 7 da manhã
enquanto outras pessoas fritam ovos
não é tão brutal
a menos que aconteça com você.
vou para o lado de fora e apanho uma laranja e retiro a casca brilhante;
as coisas seguem vivas; a grama cresce muito bem,
o sol despeja seus raios circundado por um satélite russo,
um cão late sem razão em alguma parte, vizinhos espiam pelas persianas.
sou um estranho aqui, e devo ter sido (suponho) de algum jeito um filho da puta,
e não tenho dúvida de que ele me pintou direitinho (o garotão e eu
brigávamos como leões da montanha) e eles dizem que ele deixou tudo para uma mulher em Duarte mas estou cagando – que ela fique com tudo: ele era o meu velho
e está morto.
lá dentro, experimento um terno azul-claro
muito melhor do que qualquer coisa que eu já tenha vestido
e balanço os braços como um espantalho ao vento
mas de nada adianta:
não posso mantê-lo vivo
não importa o quanto odiássemos um ao outro.
temos exatamente o mesmo aspecto, poderíamos ter sido gêmeos
o velho e eu: é isso o que eles
dizem. ele tinha seus bulbos na tela
prontos para serem plantados
enquanto eu me deitava com uma puta da rua 3.
muito bem. deixem-nos ter este momento: parado diante de um espelho
vestindo o terno de meu pai morto
esperando também
para morrer.
1 335
Charles Bukowski
Um Romance Literário
conheci-a de algum jeito por meio de correspondência ou poesia ou revistas
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
1 149
Charles Bukowski
A Tragédia Das Folhas
despertei para a aridez e as samambaias estavam mortas,
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
1 234
Charles Bukowski
Penicos
nos hospitais em que estive
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
1 149
Charles Bukowski
Certo Piquenique
que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
1 191
Charles Bukowski
Meu Pai
ele carregava uma barra
uma lâmina e um chicote
e à noite
temia por sua cabeça
e a enfiava debaixo das cobertas
até que em uma certa manhã em Los Angeles
começou a nevar
e eu vi a neve
e soube que meu pai
não podia controlar nada,
e quando
me tornei de algum modo maior
e levei meu primeiro vagão
para fora, sentei sobre
a cal
a cal abrasiva
de não ter nada
avançando em direção ao deserto
pela primeira vez
eu cantei.
uma lâmina e um chicote
e à noite
temia por sua cabeça
e a enfiava debaixo das cobertas
até que em uma certa manhã em Los Angeles
começou a nevar
e eu vi a neve
e soube que meu pai
não podia controlar nada,
e quando
me tornei de algum modo maior
e levei meu primeiro vagão
para fora, sentei sobre
a cal
a cal abrasiva
de não ter nada
avançando em direção ao deserto
pela primeira vez
eu cantei.
1 396
Charles Bukowski
Cerveja
não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
1 835
Charles Bukowski
Ela Saiu do Banheiro Com Sua Cabeleira Ruiva Flamejante E Disse...
os policiais querem que eu vá até lá e identifique
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
1 108
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
suponho que esteja chovendo em alguma cidade espanhola
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
1 138
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
993
Charles Bukowski
O Grego
o cara do pátio da frente não consegue
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
695
Charles Bukowski
O Amor É Um Cão Dos Diabos
pé de queijo
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
1 914
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 311
Charles Bukowski
A Retirada
desta vez o negócio acabou comigo.
me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.
minha condição é tão terrível quanto.
talvez até pior.
a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.
enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.
e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.
onze meses.
agora ela se foi
como todas se vão.
desta vez o negócio acabou comigo.
é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?
o cara que vai na minha frente acaba de
cair.
passo por cima dele.
será que ela também o acertou?
me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.
minha condição é tão terrível quanto.
talvez até pior.
a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.
enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.
e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.
onze meses.
agora ela se foi
como todas se vão.
desta vez o negócio acabou comigo.
é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?
o cara que vai na minha frente acaba de
cair.
passo por cima dele.
será que ela também o acertou?
1 256
Charles Bukowski
Orador Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 171
Charles Bukowski
A Boa Vida
uma casa com 7 ou 8 pessoas
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
1 277
Charles Bukowski
Velho Limpo
daqui a
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
1 168
Charles Bukowski
Alma
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
1 306
Charles Bukowski
Subindo Seu Rio Amarelo
uma mulher contou a um homem
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
1 066