Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 516
Pablo Neruda
Tarde - LVIII
Entre os espadões de ferro literário
passo eu como um marinheiro remoto
que não conhece as esquinas e que canta
porque sim, porque como se não fosse por isso.
Dos atormentados arquipélagos trouxe
meu acordeão com borrascas, aragem de chuva louca,
e um costume lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.
Assim quando os dentes da literatura
trataram de morder meus honrados talões3,
eu passei, sem saber, cantando com o vento
para os almazéns chuvosos de minha infância,
para os bosques frios do Sul indefinível,
para onde minha vida se completou com teu aroma.
LIX
(G.M.)
POBRES poetas a quem a vida e a morte
perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e logo são cobertos por impassível pompa,
entregues ao rito e ao dente funerário.
Eles – obscuros como pedrinhas – agora
detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados ao fim pelos intrusos,
entre os acompanhantes, a dormir sem silêncio.
Antes e já seguros de que está morto o morto
fazem das exéquias um festim miserável
com pavões, porcos e outros oradores.
Espreitaram sua morte e então a ofenderam:
só porque sua boca está fechada
e já não pode contestar seu canto.
3 Talões – no sentido de calcanhares. (N.T.)
passo eu como um marinheiro remoto
que não conhece as esquinas e que canta
porque sim, porque como se não fosse por isso.
Dos atormentados arquipélagos trouxe
meu acordeão com borrascas, aragem de chuva louca,
e um costume lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.
Assim quando os dentes da literatura
trataram de morder meus honrados talões3,
eu passei, sem saber, cantando com o vento
para os almazéns chuvosos de minha infância,
para os bosques frios do Sul indefinível,
para onde minha vida se completou com teu aroma.
LIX
(G.M.)
POBRES poetas a quem a vida e a morte
perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e logo são cobertos por impassível pompa,
entregues ao rito e ao dente funerário.
Eles – obscuros como pedrinhas – agora
detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados ao fim pelos intrusos,
entre os acompanhantes, a dormir sem silêncio.
Antes e já seguros de que está morto o morto
fazem das exéquias um festim miserável
com pavões, porcos e outros oradores.
Espreitaram sua morte e então a ofenderam:
só porque sua boca está fechada
e já não pode contestar seu canto.
3 Talões – no sentido de calcanhares. (N.T.)
1 081
Pablo Neruda
Faz Tempo
Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
1 101
Pablo Neruda
Epílogo - o Canto Repartido
Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
1 288
Pablo Neruda
8
Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
1 324
Pablo Neruda
Rechaça Os Relâmpagos
Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
1 162
Pablo Neruda
1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
1 224
Pablo Neruda
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
1 125
Pablo Neruda
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
1 490
Pablo Neruda
18
Aqui te amo.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
1 210
Pablo Neruda
5
Para que tu me ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
1 454
Pablo Neruda
2
Em sua chama mortal a luz te envolve.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.
Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.
Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.
783
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 183
Pablo Neruda
XXIV - A ilha
Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
1 212
Pablo Neruda
Gatos Noturnos
Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
1 521
Pablo Neruda
As Tuas Mãos
Quando as tuas mãos saem,
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
2 049
Pablo Neruda
Repertório
Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
1 262
Pablo Neruda
Orégano
Quando aprendi com lentidão
a falar
creio que já aprendi a incoerência:
ninguém me entendia, nem eu mesmo,
e odiei aquelas palavras
que me retornavam sempre
ao mesmo poço,
ao poço de meu ser ainda escuro,
ainda transpassado do meu nascimento,
até que me encontrei numa plataforma
ou num campo recém-estreado
uma palavra: orégano,
palavra que me desenredou
como que me tirando de um labirinto.
Não quis aprender mais nenhuma palavra.
Queimei os dicionários,
encerrei-me nessas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
e a todo grito pela beira
dos rios,
entre as tábuas afiladas,
ou no cimento da cidadela,
em minas, oficinas e velórios,
eu mastigava minha palavra orégano
e era como se fosse uma pomba
que eu soltava entre os ignorantes.
Que cheiro de coração temível,
que cheiro de violetário verdadeiro,
e que forma de pálpebra
para dormir fechando os olhos:
a noite tem orégano
e outras vezes, fazendo-se revólver
acompanhou-me passeando entre as feras:
essa palavra defendeu meus versos.
Uma mordida, uns caninos (iam
sem dúvida destroçar-me
os javalis e os crocodilos):
então
tirei do bolso
minha estimável palavra:
orégano, gritei com alegria,
brandindo-a em minha mão trêmula.
Oh, milagre, as feras assustadas
pediram-me perdão e me pediram
humildemente orégano.
Oh, lepidóptero entre as palavras,
oh palavra helicóptero,
puríssima e prenhe
como uma aparição sacerdotal
e carregada de aroma,
telúrica como um leopardo negro,
fosforescente orégano
que me serviu para não falar com ninguém,
e para aclarar meu destino
renunciando ao alarde do discurso
com um secreto idioma, o do orégano.
a falar
creio que já aprendi a incoerência:
ninguém me entendia, nem eu mesmo,
e odiei aquelas palavras
que me retornavam sempre
ao mesmo poço,
ao poço de meu ser ainda escuro,
ainda transpassado do meu nascimento,
até que me encontrei numa plataforma
ou num campo recém-estreado
uma palavra: orégano,
palavra que me desenredou
como que me tirando de um labirinto.
Não quis aprender mais nenhuma palavra.
Queimei os dicionários,
encerrei-me nessas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
e a todo grito pela beira
dos rios,
entre as tábuas afiladas,
ou no cimento da cidadela,
em minas, oficinas e velórios,
eu mastigava minha palavra orégano
e era como se fosse uma pomba
que eu soltava entre os ignorantes.
Que cheiro de coração temível,
que cheiro de violetário verdadeiro,
e que forma de pálpebra
para dormir fechando os olhos:
a noite tem orégano
e outras vezes, fazendo-se revólver
acompanhou-me passeando entre as feras:
essa palavra defendeu meus versos.
Uma mordida, uns caninos (iam
sem dúvida destroçar-me
os javalis e os crocodilos):
então
tirei do bolso
minha estimável palavra:
orégano, gritei com alegria,
brandindo-a em minha mão trêmula.
Oh, milagre, as feras assustadas
pediram-me perdão e me pediram
humildemente orégano.
Oh, lepidóptero entre as palavras,
oh palavra helicóptero,
puríssima e prenhe
como uma aparição sacerdotal
e carregada de aroma,
telúrica como um leopardo negro,
fosforescente orégano
que me serviu para não falar com ninguém,
e para aclarar meu destino
renunciando ao alarde do discurso
com um secreto idioma, o do orégano.
1 303
Pablo Neruda
XXXIV
Com as virtudes que olvidei
posso fazer um traje novo?
Por que os melhores rios
foram correr na França?
Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?
E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?
Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?
posso fazer um traje novo?
Por que os melhores rios
foram correr na França?
Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?
E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?
Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?
1 107
Pablo Neruda
Passeando Com Laforgue
Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
1 100
Pablo Neruda
9
Ébrio de terebentina e longos beijos,
entorpecido, o veleiro das rosas dirijo,
voltado para a morte do delgado dia,
Cimentado no sólido frenesi marinho.
Pálido e amarrado à minha água devorante
atravesso o aroma acre do clima descoberto,
ainda vestido de gris e de sons amargos,
e de uma crista triste de espuma abandonada.
Vou, rijo de paixões,montado em minha onda única,
lunar, solar, ardente e frio, repentino,
adormecido na garganta das fortunosas
ilhas brancas e doces como tenros quadris.
Treme na noite úmida meu traje de beijos
loucamente impregnado de cargas elétricas,
heroicamente dividido em sonhos
e rosas embriagantes atando-se a mim.
Água acima, em meio a ondas externas,
a meus braços sujeitas teu corpo paralelo
como um peixe infinitamente preso à minha alma
rápido e lento na energia subceleste.
entorpecido, o veleiro das rosas dirijo,
voltado para a morte do delgado dia,
Cimentado no sólido frenesi marinho.
Pálido e amarrado à minha água devorante
atravesso o aroma acre do clima descoberto,
ainda vestido de gris e de sons amargos,
e de uma crista triste de espuma abandonada.
Vou, rijo de paixões,montado em minha onda única,
lunar, solar, ardente e frio, repentino,
adormecido na garganta das fortunosas
ilhas brancas e doces como tenros quadris.
Treme na noite úmida meu traje de beijos
loucamente impregnado de cargas elétricas,
heroicamente dividido em sonhos
e rosas embriagantes atando-se a mim.
Água acima, em meio a ondas externas,
a meus braços sujeitas teu corpo paralelo
como um peixe infinitamente preso à minha alma
rápido e lento na energia subceleste.
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Pablo Neruda
Aliança (Sonata)
Nem o coração cortado por um vidro
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.
Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.
Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.
Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.
Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.
Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.
Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.
Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.
Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.
Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.
Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.
Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.
Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
1 353
Pablo Neruda
Declaro Quatro Cães
Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
1 059
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
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