Alma
Sophia de Mello Breyner Andresen
Beira-Mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar
Outubro de 1997
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fernando Pessoa
Embiocado afastado
No lugar mais escuro do café escrevia
O múltiplo poema o canto inumerável
Arrancado ao desejo à paixão à memória
Às lucidissímas fúrias da renúncia
Julho de 1994
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Hera
Onda após onda pétala a pétala
E através do pano branco do toldo
A sombra aérea da hera
Tecedora incessante de grinaldas
Maio de 1997
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar
De novo o embalo do tumulto mais antigo
E a inteireza de instante primitivo
De novo o canto o murmurar o mar
Que se repete intacto e sacral
De novo o limpo e nu clamor primordial
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lá
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas
Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta
Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
Sophia de Mello Breyner Andresen
Hélade
— Deuses cruéis como homens vitoriosos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inocência E Possibilidade
como coladas sobre os olhos
o que nos dava um rosto justo e liso;
os gestos circulavam sem choque nem ruído
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
Granja 31 de Agosto 1943
Sophia de Mello Breyner Andresen
Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
Sophia de Mello Breyner Andresen
Era o Tempo
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Viagem
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão
Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Ângulo Das Coisas Visíveis
Os ventos em flor abriram em segredo
Trazendo peixes e medusas aos teus dedos
E o mar cortado de silêncios outonais
Era preciso cantar a Terra toda
Mas mais que tudo as praias e as florestas
Onde incessantemente se renovam
Desertos desumanos e desumanas festas.
1951
Sophia de Mello Breyner Andresen
És Como a Terra-Mãe Que Nos Devora
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Branco
Foi pelo branco da praia que te reconheci
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Casa de Deus
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras do pedreiro
Mãos hábeis do carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens a constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
Sophia de Mello Breyner Andresen
D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Ali Vimos a Veemência do Visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
X. Sombrios Deuses
Senhores do medo antigo
O sopro como estátuas suspendendo
Na movediça luz das lamparinas
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Senhor
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei
1987
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Aqui Viu o Surgir Em Flor Das Ilhas
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5
Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas
E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Outros Dirão Senhor As Singraduras
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação
Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982