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Poemas neste tema

Alma

Adélia Prado

Adélia Prado

O Falsete

As autoridades têm olheiras
e estudada voz para os comunicados:
garantiremos a melhor solução entre as partes.
Quais partes? as pudendas?
Destas Deus já cuidou recobrindo de pelos.
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
“...Ele acolhia as turbas, falando-lhes do Reino,
e aos necessitados de cura devolvia a saúde.”
Palavras duras só para os mentirosos, os legistas
que atrelavam aos outros pesados fardos
que eles mesmos nem sequer tocavam...
Ó grito grande que eu queria gritar,
silvo que me esvaísse.
Certos tons, aves domésticas,
casa amarela com portão e flores me excitam,
mas não posso gozar. Tenho que pregar o Reino.
Quero um sítio, uma chacarazinha de nada,
o cristianismo não deixa,
o marxismo não deixa.
Ó grito grande, na frente dos palácios
episcopais e não:
O POVO UNIDO
JAMAIS SERÁ VENCIDO!
Minha piscina não é de lazer, disse o papa.
Não pretendo ser profeta, disse o bispo.
Que grosso cordão, que balde cheio,
que feixe grosso de coisas más.
Que vida incoerente a minha vida,
que areia suja.
Sou uma velha com quem Deus brinca.
De parelha com iras e vergonhas
meu apetite segue imperturbável,
carnes gordas, farinhas,
prelibo os legumes como a encontros carnais
e tenho medo da morte
e penso nela diuturnamente
como se eu fosse respeitável, séria,
comedida e frugal dama-filósofa.
Se alguém me acompanhar fundo um partido.
Derrubarei o governo, o papado,
dizimarei as casas paroquiais
e fundarei meu sonho:
num cerrado, inúmeros
desciam os frades com seus capuzes,
como aves marrons, pacificamente, procuravam um lugar.
Eu os acompanhei até que viram uma casa grande.
Tinha um grande fogão, uma grande mesa,
e todos foram entrando e acomodavam-se,
espalhando-se pela casa
como verdadeiros irmãos.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Terra de Santa Cruz

Nas minhas bodas de ouro, esganada como os netos,
vou comer os doces.
Não terei a serenidade dos retratos
de mulheres que pouco falaram ou comeram.
Porque o frade se matou
no pequeno bosque fora do seu convento.
De outras vezes já disse: não haverá consolo. E houve:
música, poema, passeatas.
O amor tem ritmos que não são de tristeza:
forma de ondas, ímpeto, água corrente.
E agora? Que digo ao homem, ao trem, ao menino que
[me espera,
à jabuticabeira em flores, temporã?
Contemplar o impossível enlouquece.
Sou uma tênia no epigastro de Deus:
E agora? E agora? E agora?
Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro,
a fraternidade onde estava quando saíste,
ó desgraçado moço da minha pátria,
ao encontro desta árvore?
Meu inimigo sou eu. Os torturadores todos enlouquecem
[ao fim,
comem excrementos, odeiam seus próprios gestos
[obscenos,
os regimes iníquos apodrecem.
Quando andavas em círculos, a alma dividida,
o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?
Promovia tômbolas, é certo, benzia edifícios novos,
mas também te gerava, quem ousará negar, a ti
e a outros santos que deixam as bíblias marcadas:
“Na verdade carregamos em nós mesmos nossa sentença
[de morte.”
“Amai vossos inimigos.”
O que disse: “Quem crer viverá para sempre”, este também
balouçou do madeiro como fruto de escárnio.
Nada, nada que é humano é grandioso.
Me interrompe da porta a mocinha boçal. Quer mudas de
[trepadeira.
Meus cabelos levantam-se. Como um torturador eu piso
[e arranco
a muda, os olhos, as entranhas da intrusa
e não sendo melhor que Jó choro meus desatinos.
Sempre há quem pergunte a Judas qual a melhor árvore:
os loucos lúcidos, os santos loucos,
aqueles a quem mais foi dado, os quase sublimes.
Minha maior grandeza é perguntar: haverá consolo?
Num dedal cabem minha fé, minha vida e meu medo maior
[que é viajar de ônibus.
A tentação me tenta e eu fico quase alegre.
É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos,
ao nosso Deus que é uma galinha grande.
Nos põe debaixo da asa e nos esquenta.
Antes, nos deixa desvalidos na chuva,
pra que aprendamos a ter confiança n’Ele
e não em nós.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Querido Irmão

Como é possível, disse meu irmão,
nem um amigo levantou sua voz em meu favor.
Não sei para onde ir, sinto um desterro.
Vamos a nosso pai, pedi.
Queixemos a nossa mãe o que nos fazem.
Já morreram, ele disse, como nos ouvirão?
Nosso pai, falei, após enterros, desastres,
após extrair os dentes, sentava e comia.
Escuta a mãe cantando:
o Averno ruge, enfurecido,
altar e trono quer destruídos...
Temos poderes para evocar um campo,
dilatar ao infinito a curta vida, em mil e uma noites de
[lembranças:
se nos proteges, ó mãe potente,
contra a inimiga, cruel serpente...
Um dia disseste: não vou no açougue não. E te enfurnaste.
Nosso pai disse: vai porque vai, seu estudantezinho.
E foste. Porque nosso pai bramia em seu brutal amor.
Tens de nossa mãe poucas lembranças,
mas eu te digo, foi corajosa e triste. Seríamos fundadores.
de mil soldados não teme a espada...
cantava ela, como ordem e predição.
Somos órfãos e não.
Teu terninho marrom foi dona Zica quem fez,
dona Zica Peru
que foi ser freira, lá longe...
Teu primeiro retrato tem um olho zarolho.
Magnificat! Magnificat!
Os olhos de nossa mãe resplandeciam:
tiraste dez na escola? Introibo ad altare Dei,
qual é a resposta?
Ajoelha e jura que nunca mais farás isto.
Agora come. Para de chorar e come, ordenava nosso pai,
as bravatas católicas concitantes.
Tan-ta-ra-ran ta-ra-ran tan-tan,
como em festa de igreja, em procissão de enterro,
a banda atrás de tudo,
a grande dor musicada, o grito agarrado em Deus,
na orla do manto da Virgem.
Uma fé humilde e engraçada, uma fé verdadeira.
Somos órfãos?
Pois sim, pois não. A medida da vida é o sofrimento.
Alegra-te, meu irmão. Que belo destino o nosso,
semear em lágrimas o chão.
Numa bandeja de prata, foi-se a cabeça de João.
Que a nossa role também,
que os anjos digam amém
e restemos nus.
No vento, na chuva, na casa destelhada,
na cova aberta na terra onde estão nossos pais
esperando a corneta,
esperando a banda, a trombeta, esperando os filhos
pra pôr na fila com eles
e entrar com eles no céu.
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