Poemas neste tema
Alma
Carlos Drummond de Andrade
Verbos
Sofrer é outro nome
do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.
Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu
sei o reflexo meu?
Rir, astúcia do rosto
na ameaça de sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.
Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.
Verbos outros imperam
em momentos acerbos.
Mas para que nomeá-los,
imperfeitos gargalos?
do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.
Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu
sei o reflexo meu?
Rir, astúcia do rosto
na ameaça de sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.
Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.
Verbos outros imperam
em momentos acerbos.
Mas para que nomeá-los,
imperfeitos gargalos?
1 145
Carlos Drummond de Andrade
Iniciação Amorosa
A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.
E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira.
Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.
Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.
E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira.
Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.
Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.
1 583
Carlos Drummond de Andrade
Elegia do Rei de Sião
Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
O filho que desejava, a Ásia não deu
e seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que Camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de dez mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como vim europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.
Pobre reizinho de Sião.
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
O filho que desejava, a Ásia não deu
e seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que Camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de dez mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como vim europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.
Pobre reizinho de Sião.
1 646
Carlos Drummond de Andrade
Política
A Mário Casasanta
Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que êle sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.
Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.
Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá em baixo pouco se importava com êle
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).
Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.
Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que êle sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.
Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.
Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá em baixo pouco se importava com êle
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).
Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.
4 749
Carlos Drummond de Andrade
Bolero de Ravel
A alma cativa e obcecada
enrola-se indefinidamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Indefinida, indefinidamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva coisa, ondulante, evanescente, frágil.
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa.. .
Os tambores abafam a morte do Imperador.
enrola-se indefinidamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Indefinida, indefinidamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva coisa, ondulante, evanescente, frágil.
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa.. .
Os tambores abafam a morte do Imperador.
2 192
Carlos Drummond de Andrade
Sombra Das Moças Em Flor
À sombra doce das moças em flor,
gosto de deitar para descansar.
Ê uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe. . . A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.
As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.
As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
nas mil análises proustianas,
meu filho.
No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranqüilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros se esborrachando
no chão.
gosto de deitar para descansar.
Ê uma sombra verde, macia, vã,
fruto escasso à beira da mão.
A mão não colhe. . . A sombra das moças
esparramada cobre todo o chão.
As moças sorriem fora de você.
Dentro de você há um desejo torto
que elas não sabem. As moças em flor
estão rindo, dançando, flutuando no ar.
O nome delas é uma carícia
disfarçada.
As moças vão casar e não é com você.
Elas casam mesmo, inútil protestar.
No meio da praça, no meio da roda
há um cego querendo pegar um braço,
todos os braços formam um laço,
mas não se enforque nem se disperse
nas mil análises proustianas,
meu filho.
No meio da roda, debaixo da árvore,
a sombra das moças penetra no cego,
e o dia que nasce atrás das pupilas
é vago e tranqüilo como um domingo.
E todos os sinos batem no cego
e todos os desejos morrem na sombra,
frutos maduros se esborrachando
no chão.
1 606
Carlos Drummond de Andrade
Sol de Vidro
O coração na sombra do relógio,
que será de nós, que será de vós,
as virgens passam implorando
o soldado morto na colina.
Vem de ti o rumor sem número,
pontes, archotes, o que será mais,
música e tarde para o fim,
este instante não é o soluço.
Quieto no tempo um lampião
acende as mulheres atrás dos copos,
você sempre com a mesma boca
não sei por que pressentimento
acorda, Princesa, é o sol de vidro.
que será de nós, que será de vós,
as virgens passam implorando
o soldado morto na colina.
Vem de ti o rumor sem número,
pontes, archotes, o que será mais,
música e tarde para o fim,
este instante não é o soluço.
Quieto no tempo um lampião
acende as mulheres atrás dos copos,
você sempre com a mesma boca
não sei por que pressentimento
acorda, Princesa, é o sol de vidro.
2 127
Carlos Drummond de Andrade
Sesta
A Martins de Almeida
A família mineira
está quentando sol
sentada no chão
calada e feliz.
O filho mais moço
olha para o céu,
para o sol não,
para o cacho de bananas.
Corta êle, pai.
O pai corta o cacho
e distribui pra todos.
A família mineira
está comendo banana.
A filha mais velha
coca uma pereba
bem acima do joelho.
A saia não esconde
a coxa morena
sólida, construída,
mas ninguém repara.
Os olhos se perdem
na linha ondulada
do horizonte próximo
(a cerca da horta).
A família mineira
olha para dentro.
O filho mais velho
canta uma cantiga
nem triste nem alegre,
uma cantiga apenas
mole que adormece.
Só um mosquito rápido
mostra inquietação.
O filho mais moço
ergue o braço rude
enxota o importuno.
A família mineira
está dormindo ao sol.
A família mineira
está quentando sol
sentada no chão
calada e feliz.
O filho mais moço
olha para o céu,
para o sol não,
para o cacho de bananas.
Corta êle, pai.
O pai corta o cacho
e distribui pra todos.
A família mineira
está comendo banana.
A filha mais velha
coca uma pereba
bem acima do joelho.
A saia não esconde
a coxa morena
sólida, construída,
mas ninguém repara.
Os olhos se perdem
na linha ondulada
do horizonte próximo
(a cerca da horta).
A família mineira
olha para dentro.
O filho mais velho
canta uma cantiga
nem triste nem alegre,
uma cantiga apenas
mole que adormece.
Só um mosquito rápido
mostra inquietação.
O filho mais moço
ergue o braço rude
enxota o importuno.
A família mineira
está dormindo ao sol.
2 115
Carlos Drummond de Andrade
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
1 803
Carlos Drummond de Andrade
Os Mortos de Sobrecasaca
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
1 489
Carlos Drummond de Andrade
Menino Chorando Na Noite
Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.
Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.
E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.
Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.
E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.
1 316
Carlos Drummond de Andrade
Sono Limpo
Não mais o sonho, mas o sono limpo
de todo excremento romântico.
A isso aspiro, deus expulso
de um Olimpo onde sonhar eram versões
de existir.
Não à morte: ao sono
que petrifica a morte e vai além
e me completa em minha finitude,
ser isento de ser, predestinado
ao prêmio excelso de exalar-se.
Não mais, não mais o gozo
de instantes de delícia, pasmo, espasmo.
Quero a última ração do vácuo,
a última danação, parágrafo penúltimo
do estado — menos que isso — de não ser.
de todo excremento romântico.
A isso aspiro, deus expulso
de um Olimpo onde sonhar eram versões
de existir.
Não à morte: ao sono
que petrifica a morte e vai além
e me completa em minha finitude,
ser isento de ser, predestinado
ao prêmio excelso de exalar-se.
Não mais, não mais o gozo
de instantes de delícia, pasmo, espasmo.
Quero a última ração do vácuo,
a última danação, parágrafo penúltimo
do estado — menos que isso — de não ser.
1 246
Carlos Drummond de Andrade
O Peso de Uma Casa
La maison de mon père était vaste et commode
merecia de mim um soneto ou uma ode.
Eu não soube entendê-la e não soube trová-la.
Só resta, exígua estampa, o frescor de uma sala.
Aquela egrégia escada, aquela austera mesa
sumiram para sempre em lances de incerteza.
Caem móveis em pó, e ondulantes cortinas
deixaram de esvoaçar no silêncio de Minas.
Ouço o tlintlim de um copo, o espocar de uma rolha,
sonidos hoje iguais ao virar de uma folha.
Cada tábua estalando em insônia sussurra
a longa tradição da família casmurra.
E os passos dos antigos, a grita das crianças
migram do longe-longe em parábolas mansas.
Perco-me a visitar a clausura dos quartos
e neles eis entrevejo, no escorrer de lagartos,
formas acidentais de uma angústia infantil
a estruturar-se logo em castelo febril.
Sou eu só a portar o peso dessa casa,
que afinal não é mais que sepultura rasa.
merecia de mim um soneto ou uma ode.
Eu não soube entendê-la e não soube trová-la.
Só resta, exígua estampa, o frescor de uma sala.
Aquela egrégia escada, aquela austera mesa
sumiram para sempre em lances de incerteza.
Caem móveis em pó, e ondulantes cortinas
deixaram de esvoaçar no silêncio de Minas.
Ouço o tlintlim de um copo, o espocar de uma rolha,
sonidos hoje iguais ao virar de uma folha.
Cada tábua estalando em insônia sussurra
a longa tradição da família casmurra.
E os passos dos antigos, a grita das crianças
migram do longe-longe em parábolas mansas.
Perco-me a visitar a clausura dos quartos
e neles eis entrevejo, no escorrer de lagartos,
formas acidentais de uma angústia infantil
a estruturar-se logo em castelo febril.
Sou eu só a portar o peso dessa casa,
que afinal não é mais que sepultura rasa.
1 292
Carlos Drummond de Andrade
A Música da Terra
A dor habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?
Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo — pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.
Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.
E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.
Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.
Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.
Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços
da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.
À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.
Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.
E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido
para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.
Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?
Quinta-essência do angélico, no caos,
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo — pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.
Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.
E suscitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.
Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.
Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.
Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços
da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
silentes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.
À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhes o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida breve em arte.
Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e a da alegria
resgatam nossa mísera passagem.
E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido
para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.
Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.
1 184
Carlos Drummond de Andrade
Aparição Amorosa
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
1 183
Carlos Drummond de Andrade
Os Namorados do Brasil
Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só veem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?
Cegos, surdos, mudos — felizes! — são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia a dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, Pasep, INPS.
Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde esta batalha.
Pois namorar é destino dos homens,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, ou nem estar.
O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.
A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural,
ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.
Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.
Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.
Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins de semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia dos namorados,
foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.
Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.
Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
“Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece! Esquece!”
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só veem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?
Cegos, surdos, mudos — felizes! — são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia a dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, Pasep, INPS.
Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde esta batalha.
Pois namorar é destino dos homens,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, ou nem estar.
O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.
A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural,
ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.
Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.
Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.
Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins de semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia dos namorados,
foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.
Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.
Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
“Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece! Esquece!”
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.
1 388
Carlos Drummond de Andrade
O Constante Diálogo
Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
1 762
Carlos Drummond de Andrade
Enumeração
Velhos amores incompletos
no gelo seco do passado,
velhos furores demenciais
esmigalhados no mutismo
de demônios crepusculares,
velhas traições a doer sempre
na anestesia do presente,
velhas jogadas de prazer
sem a menor deleitação,
velhos signos de santidade
atravessando a selva negra
como cervos escorraçados,
velhos gozos de torva índole,
velhas volúpias estagnadas,
velhos braços e mãos e pés
em transtornada oscilação
logo detida, velhos choros
que não puderam ser chorados,
velhos issos, velhos aquilos
dos quais sequer me lembro mais...
no gelo seco do passado,
velhos furores demenciais
esmigalhados no mutismo
de demônios crepusculares,
velhas traições a doer sempre
na anestesia do presente,
velhas jogadas de prazer
sem a menor deleitação,
velhos signos de santidade
atravessando a selva negra
como cervos escorraçados,
velhos gozos de torva índole,
velhas volúpias estagnadas,
velhos braços e mãos e pés
em transtornada oscilação
logo detida, velhos choros
que não puderam ser chorados,
velhos issos, velhos aquilos
dos quais sequer me lembro mais...
1 115
Carlos Drummond de Andrade
O Segundo, Que Me Vigia
Implacável ponteiro dos segundos.
Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo, é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
ou apressada
por quantos segundos?
Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo, é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
ou apressada
por quantos segundos?
1 385
Carlos Drummond de Andrade
As Identidades do Poeta
De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?
Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?
Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?
Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?
Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?
Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?
Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?
Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?
À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?
Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?
Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?
Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?
Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?
Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?
Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?
Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?
À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
1 135
Carlos Drummond de Andrade
Invocação Irada
Ficou o nome no tempero da comida,
nas fibras da carne
na saliva,
no ouro da mina ficou o nome.
Ó nome desleal que me escavacas
qual se fosses punhal ou fero abutre,
que te fiz para assim permaneceres
dentro de meu ser, se fora dele
não existes nem notícia te preserva?
Foge, foge de mim para tão longe
quanto alcance a mente humana delirante.
Suplico-te que deixes
um vácuo sem esperança de lotar,
amplo, soturno espaço irremediável,
mas deixa-me, larga-me, evapora-te
de toda a vida minha e meu pensar.
Sei que não me escutas,
és indiferente a todo apelo
nem dependes de teu próprio querer.
Gás flutuante,
perversa essência eterna torturante,
vai-te embora, vai,
anel satânico de vogais e consoantes
que esta boca repete sem querer.
nas fibras da carne
na saliva,
no ouro da mina ficou o nome.
Ó nome desleal que me escavacas
qual se fosses punhal ou fero abutre,
que te fiz para assim permaneceres
dentro de meu ser, se fora dele
não existes nem notícia te preserva?
Foge, foge de mim para tão longe
quanto alcance a mente humana delirante.
Suplico-te que deixes
um vácuo sem esperança de lotar,
amplo, soturno espaço irremediável,
mas deixa-me, larga-me, evapora-te
de toda a vida minha e meu pensar.
Sei que não me escutas,
és indiferente a todo apelo
nem dependes de teu próprio querer.
Gás flutuante,
perversa essência eterna torturante,
vai-te embora, vai,
anel satânico de vogais e consoantes
que esta boca repete sem querer.
1 098
Carlos Drummond de Andrade
Missão do Corpo
Claro que o corpo não é feito só para sofrer,
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos do existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória para nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
meu prazer e transcendência,
és afinal meu ser inteiro e único.
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos do existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória para nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
meu prazer e transcendência,
és afinal meu ser inteiro e único.
1 474
Carlos Drummond de Andrade
Desligamento
Ó minh’alma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!
Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível.
Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?
Ó minh’alma, irmã deserta, consola-te de me teres habitado,
se não fui eu que te habitei, hóspede maligno,
com irritação, com desamor, com desejo de ferir-te:
que farei sem ti, agora que te despedes
e não prometes lembrar este corpo destituído?
Ó minha, ó de ninguém, ó alma liberta,
a parceria terminou, estamos quites!
Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível.
Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?
Ó minh’alma, irmã deserta, consola-te de me teres habitado,
se não fui eu que te habitei, hóspede maligno,
com irritação, com desamor, com desejo de ferir-te:
que farei sem ti, agora que te despedes
e não prometes lembrar este corpo destituído?
Ó minha, ó de ninguém, ó alma liberta,
a parceria terminou, estamos quites!
1 224
Carlos Drummond de Andrade
O Malvindo
Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopeia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha — foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome — por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopeia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha — foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome — por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais.
1 178