Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Sim, Digamos Sim Sem o Dizer
Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui infinitamente.
1 113
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 182
António Ramos Rosa
Viver Em Ti
Vivo sem ti. Tu mesma, em ti mesma, quem és tu? Inexpugnável, no círculo de ti mesma, tu mesma em ti dentro, quem és tu? A minha ignorância do teu ser é completa. É a distância de uma total separação. Porque eu nada sei, nada, nunca saberei de ti um lábio, um impulso, um ardor de ser, um sossegado olhar, uma sensação feliz, uma sílaba viva do teu corpo. Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti. Estou dentro de ti, cego e luminoso, sou o teu espaço interno, o teu permanente renascer. Sou agora o que tu és, um caos suave e tumultuoso, um movimento permanente de sombras e de luzes, de ritmos e de cores. Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
1 224
António Ramos Rosa
Um Rosto Emerge
Um rosto emerge
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.
1 065
António Ramos Rosa
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
1 079
António Ramos Rosa
No Círculo Total
Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 101
António Ramos Rosa
Um Excesso de Transparência E de Leveza
Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
1 217
António Ramos Rosa
É No Vazio Que Alcanço a Identidade
É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 112
António Ramos Rosa
A Voz do Papel
Aqui: mas não há um aqui para o ser perdido. Dilaceração do que perdeu o pulso e mal respira, sem ritmo, sem horizonte. Quem fala em voz baixa, voz de terra, idêntica, sussurrante? Nenhuma árvore próxima, nenhuma palavra habitável, nenhuma pulsação terrestre. Espaço, espaço, talvez o espaço de uma palavra perdida. Extrema tenuidade nas frases esparsas, enubladas, nulas. Nada se concentra em clareira ou sombra, nada fustiga o centro da ausência. Nula e nua é a voz branca do papel que não figura, que não abre, que, sem interstícios, repercute uma única matéria inerte.
1 216
António Ramos Rosa
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
1 176
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 227
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
1 109
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 165
António Ramos Rosa
A Sombra Que Deseja E Escreve
Sou a sombra que deseja e sou a sombra que te escreve
entre a saliva suave e o metal da alegria.
Giram as laranjas de fogo, as gargantas, as ondas.
O teu corpo é um arbusto violento, um animal vibrante.
Quero ser a espuma dos teus ombros, o canto dos teus músculos.
Toco a madeira dos teus flancos límpidos, bebo
as sílabas de um pequeno bosque, ardo na sombra
do teu sangue, escrevo os latidos do teu sexo,
escrevo as últimas lâmpadas do teu corpo,
acaricio sombras e sombras entre espumas.
Escrevo agora a sombra mais feliz das veias sossegadas.
Abrem-se as portas delicadas de um jardim.
A substância mais frágil é o silêncio do corpo.
Leio as sílabas lisas do repouso.
Estou no centro de uma estrela sou o seu obscuro ardor.
entre a saliva suave e o metal da alegria.
Giram as laranjas de fogo, as gargantas, as ondas.
O teu corpo é um arbusto violento, um animal vibrante.
Quero ser a espuma dos teus ombros, o canto dos teus músculos.
Toco a madeira dos teus flancos límpidos, bebo
as sílabas de um pequeno bosque, ardo na sombra
do teu sangue, escrevo os latidos do teu sexo,
escrevo as últimas lâmpadas do teu corpo,
acaricio sombras e sombras entre espumas.
Escrevo agora a sombra mais feliz das veias sossegadas.
Abrem-se as portas delicadas de um jardim.
A substância mais frágil é o silêncio do corpo.
Leio as sílabas lisas do repouso.
Estou no centro de uma estrela sou o seu obscuro ardor.
1 069
António Ramos Rosa
O Reino Está Aqui
O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
580
António Ramos Rosa
Nas Evidências do Calor
Nas evidências do calor, reconheço a primazia do solo e os músculos pacientes dos caminhos. Cada acaso do meu campo vital, cada pulsação e cada sopro afirmam a força da terra e a resina das palavras. As evidências respiram em uníssono com o corpo harmonioso. Pelo fogo, pela cinza, pela seiva. Algo se nos oferece e nos interroga, algo nos aceita. Simples, soberana é a voz silenciosa do espaço. À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
664
António Ramos Rosa
A Fábula do Vento
O que eu te quero contar não foi dito nem está escrito na pele de nenhuma página. Ou foi dito e escrito milhares de vezes e milhares de vezes apagado pela própria palavra. Sem visão, no vão do esquecimento, tento iniciar uma fábula do vento até à ondulação, até à transparência. Tenho na boca o sabor de um canto que é já o canto de um sabor aéreo. O meu desejo procura construir cálices incendiados, sílabas amorosas, hieroglifos de água e fogo. Não estou no centro mas na orla da distância, na frescura da soberana inteligência do mar. Reconheço agora todas as qualidades do silêncio, da brancura e da luz e da sua móvel mas permanente equivalência. A interrogação mais pura levanta-se e resolve-se em mil ondas incessantes, nas volutas vertiginosas do vento.
1 180
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 083
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 083
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 195
António Ramos Rosa
Génese
Ouço dentro da água as calmas revoluções
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
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