Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
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Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
1 147
António Ramos Rosa
As Palavras do Ar
Varanda aberta. Espaço. Noite enrolada em folhas, noite de antenas e aromas, noite de bocas nubladas e brancas. Brilham constelações de lâmpadas através das nuvens. Escuto. Nem palavras nem silêncio. A voz é um odor da sombra. Deixa-me tocar-te o rosto, o teu rosto de espaço. Vejo-te através das pálpebras. Toco as mãos aéreas e silenciosas que atravessam a folhagem. Vejo os lábios rodeados de fogo. Estou no círculo da distância e escrevo as palavras adormecidas no ar.
1 242
António Ramos Rosa
Dissipam-Se As Minhas Pétalas
Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
1 093
António Ramos Rosa
No Espaço
Vejo e respiro o azul como o sopro de um imenso animal. Inalterável, transparente, no seu mudo esplendor. Uma suavidade de pedra e de horizonte. Um voo suspenso que é todo o espaço e o majestoso fulgor de um espelho que é todo ar. Na profundidade do ar sou um animal do ar. Nudez da inocência, respiração do sol. Corpo sem sombra, sem segredo, íntimo, evidente, ardente, translúcido. Mundo volátil em expansão segura, mundo do princípio do desejo e da sua plenitude inicial. Em vez de palavras, a fragrância feliz e inexaurível de uma inocência solar. O sim do espaço, o sim do esquecimento.
1 210
António Ramos Rosa
O Excesso do Simples
Quando estarei desperto, preparado para? Na verdade, nada pressinto, a minha espera é vazia e prolonga-se no vazio sem qualquer rumo ou perspectiva. Onde a consistência interna de um corpo, onde a água, onde o subtil temor do perigo? Escrevo no entanto para a aceitação do mundo, para a perda e a festa reunidas na palavra inicial. Mas como, se não oiço ninguém, se não busco nada, se não procuro ninguém? Aqui não é aqui, mas o vão, o inominável obstáculo que é talvez o vazio. Voracidade e luz. Sol sem sombra, superfícies e superfícies brancas, ofuscantes. Vivo entre abandonos: abandonando, abandonado. Mas alguém respira na intensidade extrema do silêncio. A sua palavra é água e principia e completa. Mas essa voz agora está calada. E estas palavras separam-se, sem volubilidade, sem os seus gestos novos. Escrevo no entanto por uma vida selvagem e delicada e neutra. Algo busca em mim outra boca, algo inventa o júbilo da nudez do fogo. Atinjo o excesso e o excesso é o simples, o fortuito, o imediato. Eis que a pedra canta silenciosamente uma canção.
1 132
António Ramos Rosa
A Espera do Vento
Espero. Espero o vento. Coloco-me na área aberta entre a areia e o sal. O meu desejo é pólen, delírio da pedra, labirinto de folhas. É talvez a energia da cinza que me move. Escrevo com três vogais de água pura e quatro palavras de sol branco. Um sinal desenhado na argila, uma minúscula aranha, uma pequena chama no solo, o tremor do ar, tudo indica que as palavras, entre o sono e o sol, se consumarão com a verde energia do desejo liberto.
1 142
António Ramos Rosa
No Ovo da Sombra
Escrevo não para abrir um espaço, escrevo talvez para me fechar num grande ovo de sombra com árvores imensas e lâmpadas de pedra. Longe, longe, longe, na amplitude, no compacto, na ignorância cálida, na perfeição fechada do enigma. Eis que encontro o encontro na cegueira azul, no silêncio da afasia, na boca apagada e escura, na imobilidade vegetal. É o regresso ao sim do sono e à densidade terrestre. Conheço agora a palavra que não vibra, a palavra imersa no sal da sua sombra. Longínquo, longínquo é o espaço onde nada ressoa, onde tudo flui obscuro e aéreo, onde nada se diz, onde nada se perde.
1 184
António Ramos Rosa
Ó Forma da Minha Forma
Ó forma da minha forma
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.
1 091
António Ramos Rosa
Esta Alegria
Esta alegria
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.
570
António Ramos Rosa
O Corpo Na Folhagem
O corpo está na folhagem, na difusa
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
987
António Ramos Rosa
Eu Vi o Corpo Em Fogo
Eu vi o ouro e o desenho de água que vibrava
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
957
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 276
António Ramos Rosa
Este É o Lugar de Todas As Ausências
Este é o lugar de todas as ausências
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
no silêncio do azul.
Aqui sei que a luz
é o nada
e o alimento perfeito e transparente
que desata os nós sepultos.
607
António Ramos Rosa
Enquanto Estamos Vivos
Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
967
António Ramos Rosa
O Espelho do Invisível de José Terra
O teu canto orienta-se entre deuses e monstros,
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
1 106
António Ramos Rosa
O Corpo do Vento
Obstinado, volve o vento a areia. Sulcos ou palavras de metal alegre e trémulo, despertas e ao acaso, embriagadas de vento, voltijantes, fugidias. De que boca ou lâmpada saiu este vento que revolve a areia como um corpo? Obstinado, leve, invade, confunde, acaricia, sonha. Abre suavemente lábios, inscreve delicadamente umbigos, modela seios, desenha púbis evanescentes. É um corpo, um corpo de vento que voltija, incandescente, na geometria branca do ar. Que são as palavras agora se não forem as pétalas deste corpo vertiginoso? Elas correm, elas querem nascer entre os cabelos e o mar, como lâmpadas verdes, como latidos nupciais.
1 300
António Ramos Rosa
A Nudez Das Palavras
A nudez das palavras como o único caminho,
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
1 198
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 243
António Ramos Rosa
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
1 076
António Ramos Rosa
Descoberta
Ela procura o sílex e a pura sombra sossegada.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
1 094
António Ramos Rosa
Escrita Ou Corpo
Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
580
António Ramos Rosa
Na Transparência da Sombra
Dorme na transparência da sombra ignorante
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
996
António Ramos Rosa
Esta Lacuna
Esta lacuna à qual adiro, mais próxima do que a mão,
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
1 067
António Ramos Rosa
O Círculo Cego
Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
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