Poemas neste tema
Alma
Carlos Drummond de Andrade
Inquérito
Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
779
António Ramos Rosa
Momento
Tudo está imóvel na luz: nada indica
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
618
Carlos Drummond de Andrade
Os Poderes Infernais
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
1 326
António Ramos Rosa
Plenitude
Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
1 128
Carlos Drummond de Andrade
Ar
Nesta boca da noite,
cheira o tempo a alecrim.
Muito mais trescalava
o incorpóreo jardim.
Nesta cova da noite,
sabe o gesto a alfazema.
O que antes inebriava
era a rosa do poema.
Neste abismo da noite,
erra a sorte em lavanda.
Um perfume se amava,
colante, na varanda.
A narina presente
colhe o aroma passado.
Continuamente vibra
o tempo, embalsamado.
cheira o tempo a alecrim.
Muito mais trescalava
o incorpóreo jardim.
Nesta cova da noite,
sabe o gesto a alfazema.
O que antes inebriava
era a rosa do poema.
Neste abismo da noite,
erra a sorte em lavanda.
Um perfume se amava,
colante, na varanda.
A narina presente
colhe o aroma passado.
Continuamente vibra
o tempo, embalsamado.
1 427
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 180
António Ramos Rosa
Entre o Papel E As Árvores
Entre o papel e as árvores, no apoio frontal do ar visível, vazio, vento, vocábulos, breves incoerências, ar no ar. Nadador intermitente, sou, uma e outra vez, reconduzido ao centro das folhas e palavras.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
1 246
António Ramos Rosa
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
1 066
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 079
António Ramos Rosa
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
598
António Ramos Rosa
Moradia
Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
1 133
António Ramos Rosa
Num Poço de Folhas
Espero escrever neste poço de folhas com as mãos entre as árvores,
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
1 076
António Ramos Rosa
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
1 112
António Ramos Rosa
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
1 091
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 092
António Ramos Rosa
As Palavras
Compreendo lentamente a voracidade branca
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
1 189
António Ramos Rosa
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
1 064
António Ramos Rosa
Na Cinza Última
Será possível despertar? Será possível vibrar? Esta é a cinza última do ser. Talvez eu venha a renascer aqui, no silêncio labiríntico, ouvindo sobre uma árvore branca a tranquila voz do mar. O gérmen sairá da cal e eu escreverei a corola do alento intacto. Serei ainda a cinza imóvel, mas também o vento que a levanta, num abraço de sede, e no vazio iluminado vai erguendo as figuras vivas do desejo ou as surpreendentes palavras cintilantes.
1 197
António Ramos Rosa
O Que Não Está Dito
De palavras que resvalam como pedras num declive
ou de palavras que se desprendem de uma maranha verde
ou de palavras que são como um corpo adormecido,
de todas as palavras me socorro e de todas me liberto
mesmo se são monstros de água ou plumas ou relâmpagos.
Esta rede tem um rosto e é um discurso do vento.
O sol entrou no subterrâneo que ficou cheio de asas verdes.
O que não está dito resplandece numa alcova diminuta.
O dia desprende-se do teu corpo e os sinais negros dissipam-se.
Esta é a voz que ilumina a garganta e as lâmpadas de argila.
Há um aroma a estrelas nas palavras e sombra e sombra.
Sobre o ombro azul da torrente eleva-se um deus branco.
Entre as luas e os barcos estão os frutos lúcidos.
Ouve-se respirar o silêncio das cisternas.
ou de palavras que se desprendem de uma maranha verde
ou de palavras que são como um corpo adormecido,
de todas as palavras me socorro e de todas me liberto
mesmo se são monstros de água ou plumas ou relâmpagos.
Esta rede tem um rosto e é um discurso do vento.
O sol entrou no subterrâneo que ficou cheio de asas verdes.
O que não está dito resplandece numa alcova diminuta.
O dia desprende-se do teu corpo e os sinais negros dissipam-se.
Esta é a voz que ilumina a garganta e as lâmpadas de argila.
Há um aroma a estrelas nas palavras e sombra e sombra.
Sobre o ombro azul da torrente eleva-se um deus branco.
Entre as luas e os barcos estão os frutos lúcidos.
Ouve-se respirar o silêncio das cisternas.
1 056
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 139
António Ramos Rosa
O Jardim do Corpo
Ninho de palavras escuras, rumor de folhas e de mãos pequenas, insectos de delicada chama, diminutos fulgores silenciosos. Entre confusas claridades verdes, na plena humidade, o fogo abre a flor do corpo, intacta e branca. Os astros acendem-se como animais que sabem a direcção do vento. Esta é a morada ardente e sossegada, o obscuro jardim do corpo e das palavras lisas. Uma alegria de formas, de sons, de cores. A navegação luminosa pela árvore do corpo, pela sua água, pelo seu horizonte de lábios. O corpo abriu-se e multiplica-se num só corpo e estremece numa ampla respiração como uma folhagem solar.
1 124
António Ramos Rosa
Abertura
Abrem-se os espaços calmos
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
1 114
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
1 163
António Ramos Rosa
A Mulher Dilacerada
Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
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